diálogo mentiroso do corpo

Algo que mantivesse um esqueleto inteiro intacto de uma audácia feita de cálcio que representasse uma história falecida do que você vai ser depois: feito de gosto de serragem se desfazendo na boca, algo que podia ser doce, algo que fingimos ser nuvem no céu da boca, um certo fantasma que o paladar tenta reconstituir. É esse o gosto que fica, que eu fico procurando toda noite em algum espaço do corpo, que se sugere por uns míseros instantes como se fosse uma lembrança de algo não vivido. É que não aconteceu. Nós procuramos umas desculpas nos nossos trocados, um extrato bancário das nossas expectativas, um comprovante da não fidelidade que nos prometemos, uma foto três por quatro do filho que não queremos ter, um dólar pra nunca faltar abraço, um bilhete de trem que é só pra sempre fugirmos um do outro. É nos meus braços que você não me alcança, é nos seus beijos que eu não te encontro. Em nossos corpos é um pensamento que se ausenta, na mente é uma emoção que se repudia, lá dentro é algo insano que se desmente. E tem razão, nos nossos olhos é uma mentira, uma mentira crônica insaciável incurável que acostumamos. Sou tão incapaz de amar quanto você. Então partimos ao meio um beijo mal feito, o gosto fica pela metade.
– Adeus, Desejo.
– Adeus, Saudade.

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