segundo diálogo mentiroso do corpo

Algo que não admitisse definitivamente, faltava ousadia ou coragem ou algo que escapa aos nossos entendimentos. Não cheguei a identificar a música que você resolveu tocar, ouvi feixes dos seus dedilhados, remanescentes das profundezas do mundo, algo quase sépia, que não sobrevive tanto ao silêncio, recortes dos seus instintos. Algo tão incompleto, que não chega a ser compartilhado. O que permanece é um eco de você, que eu tento reconhecer nas melodias que me movem, que se sugere como um fio tecido de mudez nos seus olhos. É que não vai acontecer. Nós procuramos um contrato de aluguel dos nossos corpos, uma garantia de não pertencer um ao outro, algum dinheiro esquecido no bolso de um velho casaco quando fez frio sem você, uma carteira de habilitação que permita ser livre de qualquer apego, um carimbo alfandegário que remeta de volta todos os planos, alguma conta atrasada das ligações que não atendemos.  É nos meus beijos que você não me encontra, é nos seus braços que eu não te alcanço. Nos pensamentos são corpos que se ausentam, é uma repugnância que se emociona, é algo desmentido que se cura. E tem razão, nos nossos olhos é uma verdade, uma verdade sádica insolente impositiva. Sou tão incapaz de amar quanto você. Então o que não se consuma se consome, se divide, se desvia no ensejo.
– Adeus, Saudade.
– Adeus, Desejo.

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