retrato dela

Ela chegou nua. Seus cílios limpos, a alma apertada dentro. Mais apertada. Que o que se aparta depois é com os olhos, o sorriso, as horas. A demora pra conseguir, pra ter, pra possuir, pra mexer com os parafusos internos. Desmontaram-na, cada uma das engrenagens, soltaram tudo. Fizeram o caminho da volta pra aprender o da ida, que é tão tortuoso pra encontrar sem um mapa. Anota-se todos os passos, de trás pra frente – então escreve-se um manual de instruções. Ela é muito facilmente planejada: feita de desvios, ambiguidades e impulsos frenéticos pra conseguir com as mãos o que é mais imediato. E dizer sua vontade com palavras de desprezo. É possível exigir materialmente todas as abstrações com gosto de chiclete, cheiro de shampoo e a aspereza de se deitar mais pra sonhar do que pra dormir. Ela veio entregar sua imparcialidade fria, em troca levou embora uma certeza morna e algum pedido escondido quando canta qualquer música, até aquela mesma música de sempre. Pede tempo, espaço e o que não puder ser ocupado com nenhum dos dois. A janela com cortinas, uma sugestão do que há lá fora.

É vento demais?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s