retrato dele

(para Dan)
Ele se foi coberto. Seus cílios longos, a alma afiada afora. Mais afiada. Que o que se atinge depois é com os golpes, com o sorriso, os minutos. O diminuto compasso de desenhar, riscar, ferir com o fel enviesado. Despedaçou-lhe, cada um dos órgãos, dilacerou tudo. Colocou tudo do avesso pra ver se o sangue é vermelho, que é tão mais vívida a pulsação que vai morrendo quando escorre. Anota-se todos os passos, na ordem correta – escreve-se uma receita do prato principal. Ele é pouco dificilmente reconhecível: feito de desvios, paradoxos e discursos cozinhando em banho maria pr’aquilo que é a longo prazo. E dizer sua covardia com palavras de carinho. É possível materializar abstratamente todas as exigências da alma com um pouco de sono, de esquecimento e aquela mentira que vem pra esconder o que foi consciente. Ele veio trazer sua panela de água fervente, em troca deixou só queimaduras de terceiro grau e uma febre crônica de quando se toca aquela mesma música, ou qualquer outra que for conveniente. Pede ausência, silêncio e o que não puder ser desocupado com nenhum dos dois. A janela sem cortinas, uma prova do que há lá fora.

É vento demais.

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