sem cortinas

A pintura descascou da parede, o vapor escorreu no espelho, se houvessem cortinas teriam sido sacudidas, os sapatos se perderam embaixo da cama, a chave virou três vezes, o interruptor decidiu apagar a luz, os cães escutaram. Só eles sabem descrever com seus latidos e uivos. Que a rua estava vazia e que o céu estava cheio. Que metade era minha e metade era sua, uma única moeda que não pagou nada. Era o cetim ou era a pele? As duas coisas sentiam brilhar dentro das pupilas e das papilas. O gosto não mudava. Que a lua ficava mais cheia e o copo mais bebido e o corpo mais ruído e o desejo mais. Pra saber que cor vão ficar os olhos quando a cor dos cabelos mentir, pra adivinhar que há mais equilíbrio com quatro apoios, mas que com menos também não é ruim perder o equilíbrio. Que a voz ficava vazia e o canto cheio. Que metade era mudo e metade era grito, porque aprende-se a ficar rouco e fazer pedidos mesmo assim. Era a luz ou era a cegueira? As duas brilhavam lá fora de manhã e o gosto não mudava. Que a rua ficava mais cheia e o céu mais vazio e o riso mais denso e o acalento mais. A parede escorreu da pintura, o espelho sacudiu no vapor, se houvessem chaves teriam se perdido, os sapatos escutaram embaixo da cama, o interruptor apagou três vezes, os cães decidiram descrever, as cortinas descascaram. Só elas sabem.

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