existe amor em sp

Saímos do buraco, depois da escada. Era como um bueiro paulistano na chuva, transbordando, só que as pessoas. De repente não era mais uma rua vazia. Não dava pra saber onde ou o quê: calçada, guia, rua, pavimento, praça, escada. Era um movimento de mar descontrolado em que todos com seus rumos individuais não se atinham à direção. Nós paramos numa orla, para respirar. Acendemos um cigarro, com seu brilho em meio à noite. Eu pensei que um relacionamento era como um cigarro aceso. Dá um alívio enquanto tragamos cada milímetro do tabaco, injetando em nossas veias e cérebro a sensação de que vai dar tudo certo, ou que mesmo que não dê, está bom assim: nós e o cigarro. Então podem acontecer duas coisas: ficamos com pressa e largamos o cigarro queimando num canto sujo da rua; ou o cigarro apaga.
Em ambas as situações, o resultado é o mesmo: o gosto amargo. Se eu não tomar um café ou mascar um chiclete, parece que não passa esse gosto e esse cheiro nas minhas roupas, não passa. Então andamos, andamos, pra onde eu não sabia. Andamos passando por todos os rostos sem foco, por umas esquinas com suas histórias de tragédia, amor e fracasso, por corpos acesos se consumindo na madrugada. Aquelas ruas guardam tudo, uma avalanche, ou mesmo não guardam. Expõem. Ali na multidão estamos na vitrine sem saber quem observa, sem saber que alguém repara um minuto da vida que não faz sentido nas ruas. Peço o isqueiro enquanto percebo aos poucos que acender outro cigarro não era resolver as ânsias, havia algo ali naquelas pessoas me contando como era possível tragar outra coisa do cigarro sem ficar amargo. Senti-me tocada por eles, ali no meio dos outros se contracenando num minuto de romance esquecido, apagado, escondido pelo excesso de gente. Mas ali, no meio da praça ou da rua, eu não sei, eles amavam. Então devolvi o isqueiro ao bolso e o cigarro à caixa. Aquele tipo de amor não era tão consumível, não tinha aparência de brasa, nem cheiro impregnado. Ele acontecia à volta sem percepção, eu mal me dava conta de que sem estar você estava ali e não tinha gosto de cigarro.

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