mãe e filha

A mesma
de quando ela sentava para o café mudo
e deixava restar açúcar no fundo
que nem seu avô, disseram.

Não ande descalça no piso frio
um par de sapato holandês, obrigada
se encaixa no meu dedo do pé arrebitado
que nem o da sua tia, disseram.

A mesma mordida trancada ou truncada
dos dentes de alguma antepassada
mordida mais fraca que sua caçula irritada

Não puxa a gaveta do armário
me perfumei de remédio em frascos quebrados
era tão pequena, eu embaixo
do mesmo tamanho, o estardalhaço

Ela ia ser o mesmo
caligrafia errante
sonho delirante
nuvens mal fotografadas
pastas de papéis abarrotadas
e cartas para serem enviadas

A mesma filha da melhor amiga
que é amiga da sua filha
todas poetas ou artistas
de sangue e ferida

Ia ser mesmo
abriu a porta como de um baú sem cadeado
contar histórias carregadas de recado
murmúrios em caixas vazias sem cor
sentir-se virgem a cada vez que faz amor
sob a cachoeira, sob a árvore, sob o teto
sob o espelho, sob qualquer beijo discreto

A mesma nunca
que tremeluz no bosque incandescente
que abafa a chama e permanece quente
em brasa, em sumo, em frente
os galhos secos contrafloridos
pétalas que se herdam no versos lidos
semeados, desabrochados e pelo tempo perdidos

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