seres d’água

Esqueço-me de que não sou aquário sem peixes, onde água não se movimenta. Nem pequeno sobre a mesa, nem grande como paredes translúcidas. Embora eu quisesse ter golfinhos nadando no meu estômago evocando canções misteriosas sobre um antigo conhecimento a que os seres humanos sequer alcançaram. Embora eu não seja esse aquário, tampouco sou ilha solitária, mas finjo ser. Porque sim.
Aqui é como fazer um mergulho nas coisas acumuladas do porão inundado pela tempestade que nem chegou esse ano. Tem chovido raios, a terra está fértil de energia elétrica, vamos soltar faíscas pelas mãos. Vamos acender nossas mãos quando olharmos pros céus. Céu não silencia como nas profundezas do oceano da gente.
Lá dentro você é obrigado a calar seu caos, porque a voz é afogada. Água preenche as cavidades que escolhem gritar, talvez por isso, e somente, do lado de fora haja tanto barulho, tanta melodia que desafina e gemido que se solta sem querer. É o único espaço onde pode se pronunciar, porque seres feitos de água guardam muitos sons sem ecos. Nem cavernas se pronunciam embaixo d’água.

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