notas de violão

Eu poderia

viajar cem quilômetros, nadar um mar de tubarões a braçadas rasas, primeiro aprender a nadar e a pilotar uma motocicleta, comprar um jipe, rasgar a porta da barraca ou rasgar meu peito em chamas, chorar por madrugadas até ficar sem ar, doer até ficar sem ar, desenhar aquarelas com os dedos, tingir meu corpo de tatuagens pra me lembrar que a vida dói, cortar as unhas antes de arranhar as costas, cortar os cabelos mais vinte estações, pular vinte estações pra ver a mesma despedida, trancar o portão, abrir o cadeado da fonte dos cadeados, comer um churros sozinha e beber um drink sozinha, ir à praia de topless e fotografar a nudez humana dos moribundos, colocar  lixo na rua e transbordar a lata de lixo com rascunhos, rasgar as velhas cartas e rasgar meu peito em chamas, rir por madrugadas até ficar ser ar, beijar até ficar sem ar, rabiscar formas geométricas entre os enunciados, tingir os cabelos pra me lembrar que a vida é passageira, ver os cabelos caírem e crescerem novamente,  andar descalça no asfalto quente, tirar os saltos, usar cílios postiços e ser uma mulher postiça pra enganar quem vê, não usar maquilagem pra enganar quem vê,  vasculhar o lixo atrás de arrependimentos, colocar meu disco preferido pra tocar, desligar o som e meditar, recitar uma nova oração numa língua desconhecida, escrever uma palavra nova com significado importante, compôr uma música que só é verdadeira agora, descobrir a apatia e que estar alheia é normal, desligar o corpo da mente, rasgar fotografias mentirosas ou rasgar meu peito em chamas, montar um mosaico, picotar a cara de quem feriu as entranhas, lamber o próprio sangue, estancar o próprio sangue, escorrer o mundo na privada de um banheiro público, vomitar as dores que não são de um parto, parir uma nova criatura, empilhar tijolos com cimento, quebrar o vidro da janela do vizinho e quebrar um copo com as mãos fortes, gritar de raiva e de tesão, construir a própria bicicleta e escrever um poema na parede, pixar o muro da via pública e rasgar comprovantes de crédito pessoal ou rasgar o peito em chamas, colocar um piercing no mamilo pra lembrar que a vida dói mas o corpo pode doer mais
e se um dia eu pensar em amar de novo, eu vou pensar primeiro em comprar um violão e aprender a tocar minhas canções sobre amores não correspondidos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s