mão quente, coração gelado

olá estranho essa noite chove sem melancolia é algo como uma sutileza dos dedos escorregadios nos antebraços suas mãos tem resto de cola que na minha é lavável e sai quando lavo na pia mas tem coisas que não lavam quando chove a urgência não se esvai na chuva o desejo não se esvai na chuva o anseio não se esvai na chuva e o beijo não derrete na chuva na receita não vai açúcar e o tempero não se dissolve o gosto ainda é de primeiro beijo quando chega na calçada que muda de nome e número não me lembro das placas mas sei que era vinte e três subindo as escadas à direita o teto não caía porque as pilastras seguravam de maneira decorativa o espelho não caía porque a gente dançava um dueto inventado em fluxo de tango os olhos não caíam porque outros olhos aguardavam firmes não tem uma bandeja servindo os pedidos do peito esquerdo para guardar na redoma os olhos não caíam porque eram as redomas e o pedido estava guardado ali dentro cristalizado como uma urgência como um desejo como um anseio que não derreteram na noite de asfalto molhado e se fosse açúcar seria caramelo porque tudo queima nas mãos quentes e vira cristal de gelo até no seu coração gelado ponho pra ferver e bebo-te depois pra matar a sede de manhã

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