sangria

o dia que eu acordar e não vir sangue
estarei liberta e sem amarras
das correntes que me algemam à função social
das demandas que me associam ao gênero
das dores que me penitenciam organicamente

o dia que eu acordar e não vir sangue
escorrendo entre as pernas esculpidas
feito uma tela de obra de arte manchada
mês a mês a pureza violada
pelo nome que me definiu mulher

o dia que eu acordar e não vir sangue
de todas as irmãs violentadas
pela santa inquisição carbonizadas
ou pela dominação do estupro
ou sufocadas pelo amor doentio dos homens

o dia que eu acordar e não vir sangue
das suas cesáreas compulsórias
dos seus abortos proibitivos
das suturas das genitálias
e das cirurgias em busca da perfeição

o dia que eu acordar e não vir sangue
de cada mulher que suou sangue
de cada mulher que cuspiu sangue
de cada mulher que chorou sangue
de cada mulher que pariu sangue

o dia que eu acordar e não vir sangue
estarei liberta e e sem identidade
nome mulher
sobrenome sangrar
a luta incessante contra a natureza

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