velório para quem vive

seu flerte com a morte era uma dança
descalçava os sapatos e pisava na terra
a longa saia casada com o vento
o busto de fora que se rebela

mesmo no dia de sua morte
queria ser lembrada nua
mulher na crueza do corpo
em chamas e em chagas

não morrera porque era quinta-feira
seus algozes a sequestraram
os comprimidos foram confetes
engoliu um carnaval inteiro

não morreria ainda por tão pouco
talvez um carnaval fosse pouco
ela sobrevivera às paredes brancas
do hospital público sem ambulâncias

queria tornar-se assombração
perambulando os corredores vazios
os pés e os peitos livres e brancos
a fotografar a beira de todas as mortes

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