tem gente que não bebe

bebo-te na xícara de café
recém coado na vida
embaçando as lentes
um pouco todo dia
bebo-te na limonada
pura e sem açúcar
gole voraz de ácido
desejo rasgando tudo
bebo-te na tônica gelada
que atenua as borboletas
sob fervura no estômago
amargo azul fluorescente
bebo-te sirah e cabernet
bocas que dançam tango
trôpegas e descuidadas
sede que nunca acaba

3 comentários sobre “tem gente que não bebe

  1. brunosmoraes disse:

    Ela não se aproxima pela calçada, pois sabe que há caminhos mais sutis. Infiltra-se na cena como um sonho, refletida — grandes óculos e roupas de cidade — em um copo de cerveja que espelha e aprisiona o tempo. O reflexo fala comigo, e logo ela está lá, sentada onde antes ninguém havia. Como a tecnologia instável do acaso.

    Eu tinha acabado de retornar de uma longa viagem pelas galáxias, seguindo um louco escritor britânico que já se vestiu de rinoceronte, alguém que ousou perceber não apenas que os golfinhos são mais espertos do que nós humanos, mas também sugeriu explicações do porquê. Foi uma correria e tanto. Resumindo, eu estava cansado.

    Ela parecia uma bruxa, e eu não digo isso à toa, e muito menos de forma livre de respeito. Ela…

    (de fato, o tempo me viria a contar, houve um contato especial com o oculto e o arcano, em outras encostas do rio que ela representa na face cristalina do tempo)

    Ela parecia ser alguém legal, criativa… Interessante, mesmo que alguns digam que essa é uma má palavra. E, mais uma vez, todas as coisas que ela “parecia” ser a meus olhos, eram apenas um primeiro reflexo, uma imagem parcial capturada pela lisura de um copo americano ou dois.

    Contamos o tempo em copos. Em copos guardamos e delimitamos aquilo que outras feras antes de nós tomam como um rio, onde momentos apenas fluem para se tornar outras coisas. E o que os copos desse rio me trouxeram em suas águas de constante mutação foi uma sábia ebriedade, clareza de olhos turvos e avermelhados. Uma compreensão que veio aos poucos.

    Mais tarde, na mesma noite em que ela se materializou a partir de um reflexo no desconhecido, conversamos mais. Fumaças nos envolveram. Algumas delas, envoltas em palha, se diluíram no meu sangue, nadaram até a parte traseira do meu cérebro, onde se alojaram como parasitas de um estúpido vício. Mancharam minhas veias e artérias, encontrando companhia na forma de outras sombras que a vida fez pulsar dentro de mim. (às vezes, me encaro como ser infecto por pequenos helmintos de passado e memória. às vezes, me limpo e purifico nas doces águas da introspecção). Conversávamos na noite enfumaçada, pensamentos improváveis despontando no céu da consciência. Mágica neural e pólvora, fogos de artifício. E, mal sabia eu que, em breve, não seria mais o tempo do sangue amargo.

    Dias se verteram em seus costumeiros copos. Ela chegava por seus caminhos sutis, e me chamava a tecer momentos nas linhas de dados e informação digital. Em um destes momentos, distorceu o tempo, o estilhaçou e fez, com sua face pontiaguda e uma fôrma de palavras belas, a mais bela faca-metafórica.

    E, então, adentrou meus dias. Como feiticeira, ou xamã, ou a estranha sacerdotisa de um século novo, garroteia meu braço com o cipó de novas possibilidades. Molda pacientemente o laço, unta meus lábios e meus dias com o etéreo mel de sua essência, me inebria e traz a febre visionária que converte enfermos em visionários. Embala-me sobre uma maca feita de dias possíveis, de potenciais e fragmentos quase apagados de nostalgia. E, com a lâmina que extraiu do tempo, sangra-me o sangue amargo para fora, em gotas escuras e espessas.

    Nas veias, habitam agora novas criaturas. E os diversos lugares em mim sonham inquietos, imaginando os ecossistemas que poderão surgir sobre a matriz adocicada deixada (pela mulher que não se aproxima pela calçada) para irrigar minhas vísceras.

    Sobre a mesa de um bar no futuro, um copo espelha e aprisiona a face do tempo. Sua borda tem gosto do pólen das flores que fingem dançar em sua superfície.

    Curtido por 2 pessoas

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