a marginal

Descalcei meus pés e coloquei-os na corredeira límpida do riacho. Eram duas da tarde embaixo de uma ponte numa rua de terra. A frieza da água era violenta, me arrancava pedaço e eu gostei daquela sensação de doar minha temperatura. Meus pés doíam de pisar em pedra o dia todo, era um alívio perder a sensibilidade por alguns minutos no frio da correnteza.

Eu me sentei na borda daquele riacho naquela tarde. Dei conta de que era o melhor dia da minha vida. Era um momento pra ser lembrado. Embora eu não estivesse sozinha, eu gostaria inclusive de ter degustado esse momento completamente sozinha, mas se estivesse talvez não teria sido o melhor dia da minha vida.

Em São Thomé das Letras, o tempo todo a gente se pega nesta dúvida: se teria como ainda assim ser o melhor dia da sua vida se algo fosse diferente. A dúvida de se estou fazendo o certo escolhendo esse caminho em vez de outro. E aquelas ruas sem asfalto com sol a pino respondem que você é uma biruta da cabeça se ainda tem dúvidas. Eis que dá uma vontade de abraçar cada árvore e beijar cada pedra com a gratidão de se sentir correspondido pelo silêncio do mato e pela amistosidade das cachoeiras.

É verdade que aquele lugar é mágico. Mas não é porque as pessoas que vivem lá sejam bruxas e nem porque não saibam viver sóbrias. Muita gente ali vive sóbrio, se quer saber, escolhem uma vida tão fora do que este mundo exige que não precisam usar nenhum vício de muleta. Isso me fez invejar aquelas pessoas por alguns instantes. A mágica do lugar não tem nada a ver com estar sob efeito psicoativo, mas com uma autorreflexão a que a gente se propõe.

Andar em silêncio na trilha. Sozinho ou acompanhado – ou ambos, porque muitas vezes a gente não compartilha o que está pensando. Então quando caminhei ao lado do meu companheiro, eu na verdade estava caminhando na minha cabeça em círculos até encontrar a resposta que procurava.

Eu encontrei quando botei meu pés naquela água gelada. Eu estava viva. Finalmente, encontrei-me viva. E aquilo foi tão repleto de sentidos quanto eu poderia querer. A vida era tanta ali que doía e era um prazer enorme sentir os pés doendo de frio.

Fazia muito tempo que eu não me encontrava viva daquele jeito. Era como rever alguém que fazia muito tempo que estava longe. Foi terno. Naquele momento, eu desejei estar sozinha para chorar de felicidade, mas chorei sem vergonha alguma. Meu companheiro pensava que era emoção da nossa viagem apaixonada, e de fato estava sendo uma viagem linda para nós dois. Mas aquele momento meu íntimo de reencontro comigo mesma eu não conseguiria compartilhar, era algo tão profundamente meu que eu apenas abracei em silêncio aquele momento invisível.

Meus olhos se encontraram no rio, de muitas formas.

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