velório para quem vive

seu flerte com a morte era uma dança
descalçava os sapatos e pisava na terra
a longa saia casada com o vento
o busto de fora que se rebela

mesmo no dia de sua morte
queria ser lembrada nua
mulher na crueza do corpo
em chamas e em chagas

não morrera porque era quinta-feira
seus algozes a sequestraram
os comprimidos foram confetes
engoliu um carnaval inteiro

não morreria ainda por tão pouco
talvez um carnaval fosse pouco
ela sobrevivera às paredes brancas
do hospital público sem ambulâncias

queria tornar-se assombração
perambulando os corredores vazios
os pés e os peitos livres e brancos
a fotografar a beira de todas as mortes

Cabeça oculta

Eu sonho em ver a aurora boreal,
poder sair correndo na areia da lua
e assistir à autopsia do meu cérebro,
mas pra isto eu precisaria morrer primeiro
 
Se eu fosse lixo humano jogaria meu corpo
no vazio espacial, viraria um satélite seco
antes meu sangue teria esvaziado das veias
ao coração e meus órgãos seriam doados
 
Meu corpo façam o que quiserem com ele,
mas abram o meu crânio e dissequem
cada curva da minha débil mente
até que me compreendam como eu
 
Eu jamais me compreendi.

a ruptura

estou sentada há meia hora
o casal à minha frente troca
as pernas pro mesmo lado
e depois pro outro lado
penso serem feitos um pro outro
na recepção pediram nhoque
com peixe – eca!
a rua é frei manoel da ressurreição
frei manoel, isso mesmo,
rua frei manoel
rua frei manoel da ressurreição!
a campainha toca
eu quis fugir pra fumar um cigarro
estou sem cigarros: parei
abro o meu livro na página cento e dois
estamos discutindo traição e casamento
que apropriado!
sinto-me a mulher traída
sem nunca ter me casado
será que existe outro termo
quando a lealdade morre?
tocou a campainha
era o nhoque com peixe
em sua embalagem de isopor.
uma amiga tem fobia de peixe
sim, de peixe
seja no aquário
ou empalhado
ou a sardinha enlatada
ou o bacalhau inteiro na peixaria
ou a cabeça exposta na bandeja
ela só não tem fobia
de sushi
estou sentada há uma hora
voz de telefonista após o plim-plim nos autofalantes do supermercado
carlos! e ele se levanta,
vai sozinho até o final do corredor
sua mulher – ou seria irmã? – espera
depois que Frans contou à sua esposa
ela lhe mandou embora
mas a amante não lhe esperava
havia se mudado de apartamento
ou mesmo de cidade
pensei em arrumar minhas malas
alugar um quarto horroroso
no centro de são paulo
com janela para o conglomerado
uma semi-cozinha, onde caberiam
ou o fogão ou a geladeira
e um gancho para guardanapos
com um banheiro-lavanderia
com o chuveiro sobre a privada
e um tanque no lugar da pia
talvez nesse ambiente hostil
eu até voltasse a fumar
estou sentada há uma hora e meia
a secretária me avisa ali do balcão
ainda não consegui seu atestado
mas ele vai me atender?
não se sabe.
a página já é cento e oito
lembro-me de ter comido uma banana
a umas quatro horas atrás
enchi o terceiro copo d’água
bebi em dois goles plenos
enquanto isso algumas senhoras
e uma moça de óculos escuros
passaram por ali e partiram
e eu estou sentada há duas horas
não me querem mais naquele lugar
eu deveria ser despedida
pois convidada a me retirar
já o haviam feito, às claras,
por que não uma unidade em que haja demanda para o trabalho noturno?
só não estou desempregada
porque fiz um concurso público
que inclusive fora anulado pelas instâncias
do tribunal do trabalho
cabia recurso
já li quatro capítulos
agora a descrição é de um cemitério
queria fotografar as ervas daninhas
subindo pelas lápides
e as primaveras florescendo
no meio do caminho tinha um ipê
cor-de-rosa quase branco
haviam-no podado apenas de um lado
seus ramos cresciam para a rua
com um tapete de pétalas sob sua sombra
pensei em parar e postar no instagram
com uma legenda triste
as árvores só florescem onde a rua é pública
pois do outro lado havia um muro
estou sentada há duas horas e meia
minha barriga estremeceu
é fome
precisa esperar ele acabar de atender
cada um dos pacientes com hora marcada
eu era uma emergência
sem agendamento prévio
saí de lá às três e dois da tarde
cinco dias de cama e um receituário
alguns anos mais velha, talvez

outros modos de ocupar a boca

há quem diga que nossa boca deveria estar calada
eu só calo o meu sofrimento na voz que grito
ou no beijo querido

há quem diga que nossa boca deveria estar ocupada
por mordaça, comida ou um imponente falo
mas eu não me calo

há quem diga que nossa boca deveria estar costurada
eu continuo cerzindo as dores na minha palavra
mulher viva é a que fala

fenda

quando dobraram o tempo
um gesto torto tomou prumo
fui içada pela fenda astral
corredor de anos-luz
abertura aguda dos olhos
a finitude
em razão da velocidade
colamos um no outro
pela tangente gravitacional
nosso corpo que acelera
até o microcosmo do beijo
no recorte vazio onde há silêncio

língua portuguesa avançado II

você me dizia algo na sua língua

alta velocidade túnel adentro
cortando o transitável espaço
via de mão dupla e sem paradas
o sinal aberto pra seguir em frente

tentava me dizer algo na sua língua
um frenesi descontrolado e melódico
na minha cabeça não fazia sentido
eu só conseguia balbuciar
que continuasse e que continuasse

no túnel infinito da noite
sua língua tinha um ritmo próprio
que encontrou por fim onde pousar
e eu

gemi de satisfação

compreendi por fim
linguagem oral canta e toca
música no baixo ventre

a letra crua

minha letra ilegível
quem tem pressa escreve cru
alguém me empresta uma caligrafia
pra passar a limpo
antes que escorra
a mão lisa de caneta líquida

a letra é líquida como os amores
quando vi já escorreu

ou o gozo
ou a lágrima

viva! os poemas de coração
[partido ou coito interrompi-
[do

viva!

viva!

viva!

Último abraço na neblina

Depois do abraço: fundo
onde me encontrei com minha Calma,
e você, desesperado, fugiu
como o diabo foge da cruz

eu chorei aquela noite
como não fazia há mais de ano,
chorei de coração partido, a Dor
da frustração quando a gente descobre
que tá amando Sozinha
numa via de uma mão só

Me vi indo naquela rua escura
e doeu demais esse abraço.

Depois disso eu parei
de sentir – meu Corpo
se lacrou feito uma múmia
embalsamada contra sentimentos

eu parei de sentir tudo – até fome.

Virei uma pedra, uma escultura,
uma estátua, um jazigo, uma lápide.
Meu rosto ficou fundo,
cavado e cinza:
pensei que ia morrer mas
não tive febre,

estava Viva
como uma planta murcha
saindo da terra.

Parei de sentir como se
tivessem me desligado da tomada
ou como se dentro
tudo já fora Tão sentido que
a vida útil se fora também.

Fiquei só os olhos vidrados
e acordada.
A janela fechada, os carros passando,
o ponteiro do relógio seguindo,
outra volta. Passei dias,

ofuscante torpor.

Quando meu Ser sobremergia
era uma ânsia e o choro voltava
alagando qualquer intervalo.