Último abraço na neblina

Depois do abraço: fundo
onde me encontrei com minha Calma,
e você, desesperado, fugiu
como o diabo foge da cruz

eu chorei aquela noite
como não fazia há mais de ano,
chorei de coração partido, a Dor
da frustração quando a gente descobre
que tá amando Sozinha
numa via de uma mão só

Me vi indo naquela rua escura
e doeu demais esse abraço.

Depois disso eu parei
de sentir – meu Corpo
se lacrou feito uma múmia
embalsamada contra sentimentos

eu parei de sentir tudo – até fome.

Virei uma pedra, uma escultura,
uma estátua, um jazigo, uma lápide.
Meu rosto ficou fundo,
cavado e cinza:
pensei que ia morrer mas
não tive febre,

estava Viva
como uma planta murcha
saindo da terra.

Parei de sentir como se
tivessem me desligado da tomada
ou como se dentro
tudo já fora Tão sentido que
a vida útil se fora também.

Fiquei só os olhos vidrados
e acordada.
A janela fechada, os carros passando,
o ponteiro do relógio seguindo,
outra volta. Passei dias,

ofuscante torpor.

Quando meu Ser sobremergia
era uma ânsia e o choro voltava
alagando qualquer intervalo.

todo 24 de junho

era noite de são joão
panelas esquentando
o vinho quente
os corpos quentes
ao redor da fogueira
e goles de quentão

era noite de explosão
das bombinhas nas ruas
dos artifícios no céu
e por dentro explodia
meu coração quente
e as fagulhas de balão

era noite consagração
que a gente bebia
em nome de santo
mesmo sem acreditar
em são ninguém
o brinde era tradição

era noite onde melão
construía uma capela
era noite de cravos
a dançar com as rosas
em suas quadrilhas
e tempero de manjericão

era noite que não dorme não
acordai os vizinhos com berros
entoai os cânticos festivos
pulai vossas fogueiras
dançai de par em par
e por fim acordai joão

 

cisco

Se eu insisto no cisco
No olho
No risco que corro
Que morro
Que em forro de bolso
Em vão de bolso
Em vazio de bolso onde coloco as mãos
Onde coloco os sonhos
Onde coloco os trocados
Onde coloco os restos
O gasto
O gesto
O rastro do seu perfume
Do seu pescoço
Do seu ser que cheira uma tranquilidade
Que cheira uma cidade inteira
Que cheira por toda redondeza
Bairro
Avenida Brasil o primeiro ponto
Avenida Brasil o último ponto onde houve encontro
Onde nos despedimos
Onde nos descobrimos porque depois nos abrimos
Porque depois nos despimos de nossos panos
De nossos planos
De nossos enganos
De nossos porenquantos.

Ode à Perséfone

um ciclo de seis
pra não deixar morrer
tudo o que fez nascer

do fruto
do cópulo
do sangue

a terra
doando aos ares
doendo às águas
devendo ao fogo

ó, deusa, não tires
que deste mundo só resta a romã
tão adépta à paixão humana
tão rosana e sã

ó, deusa, não profanes
que deste amor só resta a metade
tão devota e constante
tão amante por Hades

rogo-te, eterna filha
a mãe que tira o fio da vida
imploro-te que me revides
a escolha certa e uma saída

repúblicas

hoje me lembrei de escrever uns versos
que já há meses não me atrevo
me viciei nos meus recomeços
e me afundei no chão de concreto
vi meu país virar nevoeiro
e um tornado destruir a cidade
nosso outono virou tempestade
e a crise tomou o mundo inteiro
lá na França estão queimando pneus
na América só se fala em ocupação
no Brasil não tá diferente não
mas a dívida quem paga sou eu
porque trabalhamos todo santo dia
comendo o pão que o diabo amassou
e os burocratas andam sem pudor
pra roubar merenda e devolver pancadaria
ando cansada de me manter pedra bruta
estar na luta sempre na defensiva cansa
se não cuidar a depressão te alcança
e ainda te julgam vadia e filha da puta
mas nasci nesta terra da mãe gentil
onde na casa cabe até a mãe Joana
e a mãe de Deus abençoando a fama
até da puta que te pariu
enquanto isso o planalto inunda
e aqui embaixo o povo inflama
não vai sobrar uma rua de lama
se continuarem metendo o pé na nossa bunda
esse país de todos, uma ova
pois cada um deve saber seu lugar
até na minha voz de poesia fez calar
com o medo de me cavar a cova
enterrar o sonho da democracia
roer os direitos do trabalhador
negar voz política ao professor
cassar o futuro em prol de uma hipocrisia
vamos lutar contra a corrupção
deixando corruptos no poder
fingir que a violência não vai doer
e que a liberdade é uma contradição
uma menina contra trinta e três
uma criança com pistola na mão
ministério das mulheres em extinção
e tem estuprador falando como aprender
que porra temos pela frente?
alimentar os sonhos com insônia
deixar privatizar até a Amazônia
pra perceber que o erro foi da gente
de colocar a ordem a cargo de um insano
e o progresso a cargo de um pastor
ver a educação no raio privatizador
e a faixa presidencial com um tirano
a porra do Brasil continua uma canção
do Raul Seixas, Cazuza e Legião Urbana
nada fizeram sobre Mariana
e Temer é verbo em conjugação

além do bojador

Na tentativa de matar a sede
do amor que um dia tive
bebi da tua boca – sagaz roubo
uma tempestade
afoguei porque de tanto desamor
desaprendi a nadar nas profundezas
dos beijos plenos

Descobri-me plena – uma alvorada
uma navegação que deixa o porto
e sobe a âncora
sem mapa vi-me desbravando
esses desconhecidos oceanos
que teu peito abre

Não contava era com as tormentas
e morri de amor em alto mar

acaso paulista

uma dúvida e dois copos, por favor
com uma porção de sorrisos
sob as luzes coloridas
na mesa sem número do terraço
te ofereço um flerte do meu cigarro
traz mais uma e a conta
divide por dois os nossos acasos
passa no crédito que um dia eu pago
a corrida e o desejo com juros
mas antes de dar partida
e apertar os cintos, me vê essa boca
e as duas mãos livres pra viagem

desordinária

desordeno-me
a ser irreparável
dos autodanos
prescrevo-me
o tempo sólido
contra a face
linha lacrimal
rompendo a tez
chagas amantes
autocicatrizes
que saram
que saram
quiçá amam
as próprias histórias
na mesa do bar

fica com o troco