comida

na hora do almoço
todos os dias self-service
verduras murchas e carnes podres
entrava e saía com seu prato vazio
não tinha apetite pela morte exposta
por anos passara pálida e anêmica
ela que era vida pulsante passara fome
sobrevida de sal nas gengivas

até que de bandeja
serviram um corpo inteiro
e apesar de carne e osso
mordeu-o a alma vasta
e fartos seus dentes sorriram

colisão

um vislumbre do nascer
de algum universo
é quase instantâneo
nas chamas frescas dos olhos
o espelho da minha existência 
ecoa uma sinfonia
distorcida pelo tempo-espaço
a travessia de anos-luz
pra que sejamos feitos
carne e osso
a moradia do encontro
de onde
eu talvez te conheça
não há cognição
nem linguagens como essas humanas

o novo

eu – quando espiral
ralo para o caos
mente que vira esgoto
esvazio de sedimentos

um dia minha face outra
folha limpa reflete
rajadas de iridescência
acordo após tantas noites

eu – quando tela
espero na antesala
chega você espalha
tinta cor a esmo

atingida fico viva
pintura acende
cresço o corpo
pra alma caber no seu chamego

tem gente que não bebe

bebo-te na xícara de café
recém coado na vida
embaçando as lentes
um pouco todo dia
bebo-te na limonada
pura e sem açúcar
gole voraz de ácido
desejo rasgando tudo
bebo-te na tônica gelada
que atenua as borboletas
sob fervura no estômago
amargo azul fluorescente
bebo-te sirah e cabernet
bocas que dançam tango
trôpegas e descuidadas
sede que nunca acaba

sorte no acaso

não previ que seria permitido se amar no verbo
num completo estar sem ação isento de roteiro
onde um rodopio se torna voo acompanhado
e uma nuvem: a casa planejada da revista

quão inconsequente sou? me pergunto
depois que tu me digas boa noite
e antes que eu te diga bom dia
receio do verbo em verdade

amar-te um dia ao menos
e ser amada nos detalhes

baião de dois

quando atravesso a heitor penteado
lembro-me daquele almoço de domingo
toalha xadrez na mesa pra dois
o baião de dois e a fome de dois
a conta que a gente nem podia pagar
mas que pagamos satisfeitos e civis

quando passo pelo cemitério
a subida eterna da arcoverde
o peso de um mundo nas costas
mas a leveza de quem não dormiu
a noite inteira, a noite inteira
mas que atravessamos felizes

quando passo pelo bar do seu zé
aliviada sei que abafei lembranças
comi e bebi com outras pessoas
a quem sempre indico a esquina
empanada de carne seca e mandioca
pra mim com gosto da sua boca ainda

quando atravesso aquele sinal amarelo
lembro-me da chuva que começou leve
depois apertou como nosso abraço
que até a sensualidade molhou o rosto
na varanda da presidência da noite
guitarras e cítaras e cigarras

meio e meio

uma metade dizia cuidado
outra metade em silêncio
pulsava uma cidade grande
vias públicas caóticas de gente
sinais amarelos de sobreaviso
carros voando aos faróis
luz que rasga a proibição
pela metade eu me despedi
pela metade você se despediu
com as bocas pelas metades
encontro no cruzamento