o novo

eu – quando espiral
ralo para o caos
mente que vira esgoto
esvazio de sedimentos

um dia minha face outra
folha limpa reflete
rajadas de iridescência
acordo após tantas noites

eu – quando tela
espero na antesala
chega você espalha
tinta cor a esmo

atingida fico viva
pintura acende
cresço o corpo
pra alma caber no seu chamego

tem gente que não bebe

bebo-te na xícara de café
recém coado na vida
embaçando as lentes
um pouco todo dia
bebo-te na limonada
pura e sem açúcar
gole voraz de ácido
desejo rasgando tudo
bebo-te na tônica gelada
que atenua as borboletas
sob fervura no estômago
amargo azul fluorescente
bebo-te sirah e cabernet
bocas que dançam tango
trôpegas e descuidadas
sede que nunca acaba

sorte no acaso

não previ que seria permitido se amar no verbo
num completo estar sem ação isento de roteiro
onde um rodopio se torna voo acompanhado
e uma nuvem: a casa planejada da revista

quão inconsequente sou? me pergunto
depois que tu me digas boa noite
e antes que eu te diga bom dia
receio do verbo em verdade

amar-te um dia ao menos
e ser amada nos detalhes

baião de dois

quando atravesso a heitor penteado
lembro-me daquele almoço de domingo
toalha xadrez na mesa pra dois
o baião de dois e a fome de dois
a conta que a gente nem podia pagar
mas que pagamos satisfeitos e civis

quando passo pelo cemitério
a subida eterna da arcoverde
o peso de um mundo nas costas
mas a leveza de quem não dormiu
a noite inteira, a noite inteira
mas que atravessamos felizes

quando passo pelo bar do seu zé
aliviada sei que abafei lembranças
comi e bebi com outras pessoas
a quem sempre indico a esquina
empanada de carne seca e mandioca
pra mim com gosto da sua boca ainda

quando atravesso aquele sinal amarelo
lembro-me da chuva que começou leve
depois apertou como nosso abraço
que até a sensualidade molhou o rosto
na varanda da presidência da noite
guitarras e cítaras e cigarras

meio e meio

uma metade dizia cuidado
outra metade em silêncio
pulsava uma cidade grande
vias públicas caóticas de gente
sinais amarelos de sobreaviso
carros voando aos faróis
luz que rasga a proibição
pela metade eu me despedi
pela metade você se despediu
com as bocas pelas metades
encontro no cruzamento

a índole do desconhecido

debaixo da sua roupa, tem um desejo
irrefreável de busca por um mundo
sob sua camiseta, uma utopia
ribombando do lado esquerdo
por dentro dos sapatos, aquela força
que nem se sabe de onde vem

você continua andando

pode parecer que anda em círculos
mas é uma espiral sempre em frente
pode parecer um caminho mais longo
mas importante é a jornada

você continua andando

sob as calças, suas verdadeiras causas
as motivações primitivas que sobrevivem
sob a roupa íntima, o impulso mais selvagem
de lutar na floresta de concreto
na palma das mãos, convicção intensa
como uma multidão em uníssono

você continua andando

o que tem atrás dos olhos?
o que esconde nos gestos?
e dentro da boca o que guarda?
por trás do silêncio eu sei

o mesmo receio

mas você continua andando

Reza pra Santo Antônio

te querer é uma piada pronta
o avesso do ócio
ecoa uma prece
que a gente nunca se encontre

todo trombamento é uma sombra
te atravesso os olhos
e tu a minha boca
cruzamento no sinal fechado

o desencontro é uma oca ironia
eu te reinvento
e tu a mim socorre
o ludo, a poesia casual e a lâmina

velório para quem vive

seu flerte com a morte era uma dança
descalçava os sapatos e pisava na terra
a longa saia casada com o vento
o busto de fora que se rebela

mesmo no dia de sua morte
queria ser lembrada nua
mulher na crueza do corpo
em chamas e em chagas

não morrera porque era quinta-feira
seus algozes a sequestraram
os comprimidos foram confetes
engoliu um carnaval inteiro

não morreria ainda por tão pouco
talvez um carnaval fosse pouco
ela sobrevivera às paredes brancas
do hospital público sem ambulâncias

queria tornar-se assombração
perambulando os corredores vazios
os pés e os peitos livres e brancos
a fotografar a beira de todas as mortes