outros modos de ocupar a boca

há quem diga que nossa boca deveria estar calada
eu só calo o meu sofrimento na voz que grito
ou no beijo querido

há quem diga que nossa boca deveria estar ocupada
por mordaça, comida ou um imponente falo
mas eu não me calo

há quem diga que nossa boca deveria estar costurada
eu continuo cerzindo as dores na minha palavra
mulher viva é a que fala

Ode à Perséfone

um ciclo de seis
pra não deixar morrer
tudo o que fez nascer

do fruto
do cópulo
do sangue

a terra
doando aos ares
doendo às águas
devendo ao fogo

ó, deusa, não tires
que deste mundo só resta a romã
tão adépta à paixão humana
tão rosana e sã

ó, deusa, não profanes
que deste amor só resta a metade
tão devota e constante
tão amante por Hades

rogo-te, eterna filha
a mãe que tira o fio da vida
imploro-te que me revides
a escolha certa e uma saída

para Miriam

somos todas princesas caroços
que entala na goela dos machos
já tivemos o peito estourado
pelas balas das opressões
fomos rasgadas pelos amores
e doemos todo dia por dentro
herdamos os genes das mães
com esse peso-além de ser mulher
que – tanto! – não suportamos
até que explodimos implodimos
bomba atômica intracelular
o mundo nos adoece o próprio lar
mas a dor comum realça a luta
arrancamos de nós a puta
oferecemos em sacrifício abertas
sejamos despeitadas
pra vencer o câncer da misoginia

diagnóstico: mulher

nome: HIS.TE.RIA
sobrenome: LOU.CU.RA
substantivo [sempre] feminino
a filha da puta
aquela piranha vadia
NIN.FO.MA.NIA
quando assalta ou rouba
nunca por fome
o coração é sujo
e no fundo da bula
CLEP.TO.MA.NIA
sem dúvidas
é exagero
PA.RA.NO.IA
sem explicação
sem motivo
é delírio
ES.QUI.ZO.FRE.NIA
sempre mulheres
se fazendo de vítima
porque são fracas
DE.PRES.SÃO
e se houver ameaça
é falta de coragem
é pra chamar atenção
MA.NI.PU.LA.ÇÃO
olhos de cigana oblíqua
DIS.SI.MU.LA.ÇÃO
só pode estar naqueles dias
é típico
NEU.RO.SE
só pode estar fantasiando
é típico
PSI.CO.SE
é natural da mulher
é de si mesma
CUL.PA
essa mulher
COM.PLE.XO
SÍN.DRO.ME
DIS.TÚR.BIO
se é gorda
DES.CON.TRO.LE
se é magra
A.NO.RE.XIA
se é silenciosa
FRI.GI.DEZ
se é expansiva
BI.PO.LA.RI.DA.DE
se é faminta
BU.LI.MIA
se é violenta
BOR.DER.LI.NE

já a sua violação
nunca é diagnosticada
mesmo que seja doentia
MI.SO.GI.NIA

mãe terra

toda mulher nasce da terra
não feita de barro
não feita de pedra
não feita de areia
mas brota da terra
arrancam-lhe as raízes
podam-lhe os galhos
roubam-lhe as flores
como se mulher fosse pra ficar seca
no meio do campo de centeio
galhos secos
raízes fracas
frutos podres
folhas caídas
mas toda mulher nasce da terra
terra essa que se refaz
renova as profundezas
com sua decomposição
de frutos
de flores
de folhas
tudo que lhe é arrancado
retorna e fortalece
a mulher nasce da terra
não morre nunca
mesmo quando não está florida
respira e cresce05

sangria

o dia que eu acordar e não vir sangue
estarei liberta e sem amarras
das correntes que me algemam à função social
das demandas que me associam ao gênero
das dores que me penitenciam organicamente

o dia que eu acordar e não vir sangue
escorrendo entre as pernas esculpidas
feito uma tela de obra de arte manchada
mês a mês a pureza violada
pelo nome que me definiu mulher

o dia que eu acordar e não vir sangue
de todas as irmãs violentadas
pela santa inquisição carbonizadas
ou pela dominação do estupro
ou sufocadas pelo amor doentio dos homens

o dia que eu acordar e não vir sangue
das suas cesáreas compulsórias
dos seus abortos proibitivos
das suturas das genitálias
e das cirurgias em busca da perfeição

o dia que eu acordar e não vir sangue
de cada mulher que suou sangue
de cada mulher que cuspiu sangue
de cada mulher que chorou sangue
de cada mulher que pariu sangue

o dia que eu acordar e não vir sangue
estarei liberta e e sem identidade
nome mulher
sobrenome sangrar
a luta incessante contra a natureza