orgânica e putrefeita

sinto o rabisco
agulha nas entranhas
tatuagem interna
coceira eterna por dentro
orgânica e putrefeita
a mulher refém e desfeita
a paixão é comichão atroz
respirando as cinzas do que morri
rasgando os órgãos
engolindo a seco a vida
empurrada pela garganta
sinto o risco que é ser obrigada a viver

a morte espreita silenciosa
perseguindo-me insinuante quando me calo

ensurdeça-me, vida
alta e ribombante
faça-me esquecer a gastura
corte rente e sufoco
meu corpo fugaz e oco

afagamento

aos poucos a gente se apaga
no breu da noite anuviada
se apaga
enquanto a bituca se consome em cinzas
se apaga
nos corpos que se tocam misturados
se apaga
quando os olhos fecham
a gente se apaga
quando dorme sem sonhos
se apaga
nos goles largos das canecas etílicas
se apaga
na brasa pela manhã ruidosa
se apaga
a cada tiro pelas narinas
se apaga
quando afoga no choro descontrolado
a gente se apaga
no silêncio que os outros nos calam

aos poucos a gente se acaba
sobretudo no apagamento

autópsias tumulares

cadavérica
olhos fundos

jaboticabas apodrecidas

conserva azeda
atrás dos vidros

cabelos de defunta que acordou tarde –
o velório era às sete!

deu tempo de plantar semente
os ouvidos como vasos
uns brotos de ecos
folhas murchas

a cor da bunda na face:
pálida – como velhas
usando calçolas no verão
quarenta graus e mar
guardassol e copacabana

os ouvidos férteis
as orelhas gritam:

GOL

mas era sede
um gole de
vida que
peço

pus a colher na boca seca
degustei uma última vez
doce com gosto de pus

acendam as velas
amém

apaticamente fechado

te comi a esmo
pra ver se algo me acometia
se a carne pulsava
se o sangue escorria
mordi pra arrancar pedaço
levar-te em minha boca
digerir sua insanidade
pra ver se feria
pra ver se doía
te comi até o bagaço
pra ver se algo me atingia
se eu era flechada
ainda viva ou se morria

mas continuei a esmo
sem ferimentos
sem costura
não existe cicatriz na apatia

bandidos da luz vermelha

me cospe dentro do copo
e me bebe de volta, cretino
lambe a mesa suja e rasga o meu peito

faça tudo isso com essa serenidade
que desdenha de mim
enquanto sou interruptor que acende

eu sou latente
dentro
com vários berros que me traem

cê fica ai de pouco caso
bebendo essa cerveja choca
enquanto meu beijo descongela

e esparrama sobre a mesa
te molhando todo

que confusão escrota!
a gente deveria estar sem roupa

mas o jogo de esperar o outro
se perder nos olhos e na boca
é mais estratégico

xeque.

ringue para trouxas

abriu-me as páginas
desentranhou o mais animal de mim
que ao tomar forma era lobo
dentes pra morder e estraçalhar
arrancar pedaço do que lhe fará falta
de igual pra igual lutamos
exigindo o lugar de direito
até que depois de muitas feridas
reconhecemos que era o mesmo lugar
podíamos compartilhar nossa couraça
enfrentar espinheiros e flechas
sobreviveríamos entre lambidas
até a ferida cicatrizar
onde nos matamos um dia
nossa cura nos lábios

prato do dia

na mesa de todos os quereres
eu me sirvo horrores
encho a boca
me entucho
que mal hei de mastigar
que mal hei de engolir
pra te beber com gosto
pra te tomar com gozo

sem respiro
porque não há de se sentir mais nada
o fim do desencontro é uma morte
no prato feito dos corpos
arroz e feijão é sexual