comida

na hora do almoço
todos os dias self-service
verduras murchas e carnes podres
entrava e saía com seu prato vazio
não tinha apetite pela morte exposta
por anos passara pálida e anêmica
ela que era vida pulsante passara fome
sobrevida de sal nas gengivas

até que de bandeja
serviram um corpo inteiro
e apesar de carne e osso
mordeu-o a alma vasta
e fartos seus dentes sorriram

velório para quem vive

seu flerte com a morte era uma dança
descalçava os sapatos e pisava na terra
a longa saia casada com o vento
o busto de fora que se rebela

mesmo no dia de sua morte
queria ser lembrada nua
mulher na crueza do corpo
em chamas e em chagas

não morrera porque era quinta-feira
seus algozes a sequestraram
os comprimidos foram confetes
engoliu um carnaval inteiro

não morreria ainda por tão pouco
talvez um carnaval fosse pouco
ela sobrevivera às paredes brancas
do hospital público sem ambulâncias

queria tornar-se assombração
perambulando os corredores vazios
os pés e os peitos livres e brancos
a fotografar a beira de todas as mortes

Cabeça oculta

Eu sonho em ver a aurora boreal,
poder sair correndo na areia da lua
e assistir à autopsia do meu cérebro,
mas pra isto eu precisaria morrer primeiro
 
Se eu fosse lixo humano jogaria meu corpo
no vazio espacial, viraria um satélite seco
antes meu sangue teria esvaziado das veias
ao coração e meus órgãos seriam doados
 
Meu corpo façam o que quiserem com ele,
mas abram o meu crânio e dissequem
cada curva da minha débil mente
até que me compreendam como eu
 
Eu jamais me compreendi.

Último abraço na neblina

Depois do abraço: fundo
onde me encontrei com minha Calma,
e você, desesperado, fugiu
como o diabo foge da cruz

eu chorei aquela noite
como não fazia há mais de ano,
chorei de coração partido, a Dor
da frustração quando a gente descobre
que tá amando Sozinha
numa via de uma mão só

Me vi indo naquela rua escura
e doeu demais esse abraço.

Depois disso eu parei
de sentir – meu Corpo
se lacrou feito uma múmia
embalsamada contra sentimentos

eu parei de sentir tudo – até fome.

Virei uma pedra, uma escultura,
uma estátua, um jazigo, uma lápide.
Meu rosto ficou fundo,
cavado e cinza:
pensei que ia morrer mas
não tive febre,

estava Viva
como uma planta murcha
saindo da terra.

Parei de sentir como se
tivessem me desligado da tomada
ou como se dentro
tudo já fora Tão sentido que
a vida útil se fora também.

Fiquei só os olhos vidrados
e acordada.
A janela fechada, os carros passando,
o ponteiro do relógio seguindo,
outra volta. Passei dias,

ofuscante torpor.

Quando meu Ser sobremergia
era uma ânsia e o choro voltava
alagando qualquer intervalo.

orgânica e putrefeita

sinto o rabisco
agulha nas entranhas
tatuagem interna
coceira eterna por dentro
orgânica e putrefeita
a mulher refém e desfeita
a paixão é comichão atroz
respirando as cinzas do que morri
rasgando os órgãos
engolindo a seco a vida
empurrada pela garganta
sinto o risco que é ser obrigada a viver

a morte espreita silenciosa
perseguindo-me insinuante quando me calo

ensurdeça-me, vida
alta e ribombante
faça-me esquecer a gastura
corte rente e sufoco
meu corpo fugaz e oco

afagamento

aos poucos a gente se apaga
no breu da noite anuviada
se apaga
enquanto a bituca se consome em cinzas
se apaga
nos corpos que se tocam misturados
se apaga
quando os olhos fecham
a gente se apaga
quando dorme sem sonhos
se apaga
nos goles largos das canecas etílicas
se apaga
na brasa pela manhã ruidosa
se apaga
a cada tiro pelas narinas
se apaga
quando afoga no choro descontrolado
a gente se apaga
no silêncio que os outros nos calam

aos poucos a gente se acaba
sobretudo no apagamento

autópsias tumulares

cadavérica
olhos fundos

jaboticabas apodrecidas

conserva azeda
atrás dos vidros

cabelos de defunta que acordou tarde –
o velório era às sete!

deu tempo de plantar semente
os ouvidos como vasos
uns brotos de ecos
folhas murchas

a cor da bunda na face:
pálida – como velhas
usando calçolas no verão
quarenta graus e mar
guardassol e copacabana

os ouvidos férteis
as orelhas gritam:

GOL

mas era sede
um gole de
vida que
peço

pus a colher na boca seca
degustei uma última vez
doce com gosto de pus

acendam as velas
amém

apaticamente fechado

te comi a esmo
pra ver se algo me acometia
se a carne pulsava
se o sangue escorria
mordi pra arrancar pedaço
levar-te em minha boca
digerir sua insanidade
pra ver se feria
pra ver se doía
te comi até o bagaço
pra ver se algo me atingia
se eu era flechada
ainda viva ou se morria

mas continuei a esmo
sem ferimentos
sem costura
não existe cicatriz na apatia