ringue para trouxas

abriu-me as páginas
desentranhou o mais animal de mim
que ao tomar forma era lobo
dentes pra morder e estraçalhar
arrancar pedaço do que lhe fará falta
de igual pra igual lutamos
exigindo o lugar de direito
até que depois de muitas feridas
reconhecemos que era o mesmo lugar
podíamos compartilhar nossa couraça
enfrentar espinheiros e flechas
sobreviveríamos entre lambidas
até a ferida cicatrizar
onde nos matamos um dia
nossa cura nos lábios

prato do dia

na mesa de todos os quereres
eu me sirvo horrores
encho a boca
me entucho
que mal hei de mastigar
que mal hei de engolir
pra te beber com gosto
pra te tomar com gozo

sem respiro
porque não há de se sentir mais nada
o fim do desencontro é uma morte
no prato feito dos corpos
arroz e feijão é sexual

feitiço pra dois

pra te abrir, talvez eu precise de uma navalha
cortar as entranhas ao meio
escarafunchar o seu peito
e assistir os músculos trêmulos às falhas

quem sabe assim a pele deixa de ser couraça
você me abaixa os seus escudos
só com os olhos eu te desnudo
que num espasmo mórbido me abraça

aprendo a deixar minha poesia às traças
e te esfaqueio num golpe
eu me engasgo num gole
meu feitiço no muro permeável ultrapassa

autodestruição

todo dia somos violência invisível
somos lama da pior categoria
contaminados de ego e falácias
nosso peito é atravessado
por avalanches e tiroteios
nosso sangue continua morno
matamos nossa humanidade no prato
com facas cegas e mordidas avarentas
todo dia somos terroristas do mundo
todo dia assassinamos os bons dias
derrubamos as barragens do respeito
mas mantemos nossos muros levantados
mesmo na dor do luto estamos sós
não sabemos compartilhar dor
e na falta de uma qualidade cara
ficamos destruídos acusando uns aos outros
somos culpados por doer a morte do rio
somos isentos de perdão nas chacinas
amanhã sua vida continuará pagando as contas
é o preço desumano de ser indivíduo
no mundo grotesco capital

psicopata vingando amor

Os degraus foram preenchidos por uma multidão de pessoas desconhecidas e eu senti como se no meu crânio tivesse passado uma manada, derrubando tudo pelo caminho. Eu quero um copo de gin gelada. Somos animais domesticados e comportados, mas deveríamos estar dançando enquanto a banda toca. Sopros profundos de uma profundeza humana incompreensível. Viemos dos ocos do mundo e ouvimos sua sinfonia além-túmulo, de gente morta que vive pra sempre e continuamos seres vivos que morrem pra sempre. Eu ficaria feliz se você no auge da sua sociopatia adentrasse a arena com uma metralhadora e derramasse sangue que escorreria até a lagoa. E os ruídos da jazz sinfônicas abririam alas para nossa passagem espiritual enquanto você sangra em riso quente me assistindo morrer. Eu não sangro, eu te aceno agradecendo.

correndo com lobos

como uma fera
eu ataquei seus instintos mais agudos
meus dentes afiados no pescoço
minha mordida voraz
sua quase morte
empírica

como um bicho
eu avancei em sua pele de cordeiro
te desnudei em carne e osso
mordi seu pedaço de vida
e almocei suas tripas

como um monstro
eu cacei suas insanidades
dilacerei seu extremo desejo
de permanecer sangue
na minha boca

como uma fêmea
eu dominei suas inconstâncias
despi minha pele de lobo
surgi animal em mim
natureza original
entregue

destruição

destroços de alma vacante
fico estilhaçada no cosmo
contagem regressiva no infinito
arma de destruição em massa
que se instala
feito vírus
no seu antebeijo
explosão atômica
de pouco caso
de muito caos
ranger de dentes
unhas na lousa
arrepio tênue
eu morro de sede aos poucos
se sua boca vai embora

como canibais

te comeria pelas bordas
mas em vez de te experimentar
abro-te e arranco todas as tripas
eu que nunca fui muito de bucho
precisei me deliciar na sua carne crua
pulsar o sangue na boca
e ser predativa aos dentes

te fiz comida
em cada arroubo
em cada mordida
ficamos animal aberto
sobre a mesa

fome

a poesia tem fome
mas cozinha em fogo brando
não deixa queimar o verso
sem que haja clímax ensandecido
ou desejo irremediável
a poesia não almoça rima
se alimenta de corações partidos
faz da dor uma salada fresca
e da paixão seu prato principal
quem morre poeta um dia
não passa mal de úlcera
só sofre vez ou outra
do peito atingido por fel
e do verso sem pontuação
mas a poesia mesmo
só tem fome de saber
se amor é métrica
pro café da manhã