além do bojador

Na tentativa de matar a sede
do amor que um dia tive
bebi da tua boca – sagaz roubo
uma tempestade
afoguei porque de tanto desamor
desaprendi a nadar nas profundezas
dos beijos plenos

Descobri-me plena – uma alvorada
uma navegação que deixa o porto
e sobe a âncora
sem mapa vi-me desbravando
esses desconhecidos oceanos
que teu peito abre

Não contava era com as tormentas
e morri de amor em alto mar

longos rios em dia de chuva

ali arraigada minha pele pelas suas mãos
um manancial correndo as veias
correnteza extrema que navega
suores no contrafluxo climático
arranhando as margens digitais
eu sei você como um desenho de rio
enquanto me percorre aos olhares
me beija os afluentes até a nascente
escorro e você me preenche

maré de ipanema

pela primeira vez
fazia sol no Rio
e eu não te vi
antes de partir
fiquei sem beijos
pra guardar no bolso
entendi, meu amor
o rio de janeiro
em janeiro azul
não tem vínculo
com esse tesão
que tivemos sempre
mas ainda assim
existe tesão no mar
e a maré está alta
não está pra peixe
nem mesmo banho
mas ainda assim
existe tesão em ti
e a maré está brava
não está pra beijos
nem mesmo esses
de despedida e eu
me despeço-te
te despedaço-me
me perco-te
te peço-me
um pedaço
me pico-te
te peco-me
um pecado
que é tu
aquieto-me

a maré maré

amores são
como marés
altas e bravas
cheias de tormenta
baixas e mansas
águas limpas na areia

amores se vão
e voltam na praia
com a mesma intensidade
e melancolia na borda
viram espuma
– e somem
enchem a orla
e o peito
arrastam-me ao fundo
o mar é traiçoeiro
intento de afogamento

que desespero esse!

nadar e nadar
trombas d’água
joelhos ralados na areia
toda vez que me banho
apaixono-me assim

o mesmo amor
maré cheia

amasso-me
esqueço-te
maré baixa

quando acho que te esqueci
mergulho e percebo que
sempre voltas – e reviravoltas
seu beijo de sal me enche
à lembrança do mar revolto
eis-te maré, nada

constante

à vista

podia o sol marcar minha sombra na sua pele
tal uma tatuagem que coça às vezes
então quando se despir em seu banho
ficarei deitada em seu corpo
que dúvida!
na promoção dois discos e um beijo
em vez de dez por cento de desconto

ressaca de mar

quando mar azul me abraça
mergulho a calmaria
banho-me na frequência
sua respiração em ondas
maré dos seus afagos
correntes em meu corpo
transita em minhas artérias
arrastando a apatia
espuma na praia da pele
mar que arrebenta
cada rocha do meu ser
desfazendo meu mundo
esculturando-me de novo
repetidas vezes
que fico irreconhecível
pela manhã sou outra
praia limpa e descoberta
natureza bruta que acorda
arde meus olhos
sua maresia que me envolve
respiro lenta
atenta em seu peito

quando mar azul me abraça
eu me calo todo o caos
à deriva em seus beijos de sal

desembarques

sento-me na primeira fileira da montanha russa
com seus letreiros acesos de motel
quinta categoria nas ruas sujas de pinheiros
mochila nas costas sem saber pra onde vai
eu sempre acabo no rio de janeiro
com o peito estourado pelos seus tiros
acendendo mil cigarros e dançando no chão
deitada no chão querendo que você caia
se estrumbique do meu lado e acorde
os números dos quartos sem meia luz
apaga a luz acende meu corpo
dou um trago pra fingir que

embarco novamente e desço em copacabana
doendo o corpo todo e sou torpor
que a gente nunca mais vai se amar
como naquela chuva da madrugada
do mês de novembro com promessas
de não de não de não de não de não
se envolver quando já era tarde

brisa de praia II

se eu fosse peixe, eu mergulhava. mas descobriram que sou ostra, então afundo e engulo os soluços que viram pérola.
minha poesia se chama pérola e o teu beijo se chama areia, que esquecida em meu cativeiro transformou-se em obra prima da natureza. seja areia que te escrevo pérola todo dia e te faço um colar, embora eu que seja a dama. depois me presenteia com essa coleção de versos ululantes que abraçam o mar.

janela acesa no quinto andar

os sonhos jogados pela janela do quinto andar
caíram devagar como roupas sujas
de quem não cabe nas minhas medidas
era você
com seu passo quarenta e dois
estampas de camisetas que me fizeram par
no espelho do elevador
fomos bonitos pra uma pintura moderna
que derrete porque é líquida
aquarela lavada na chuva
do beijo de alguém que amei por engano
de quem roubaria a camisa pra usar de pijama
ou o coração pra acender na minha cabeceira
alumiando a leitura de poemas sujos

sua prosa rançosa me desgastou o cerebelo
perdi o equilíbrio ao andar entre as árvores
comi mais de cinquenta combinações de versos
enquanto mordia sua boca
e você tirava meu pudor como quem recolhe as roupas do varal