brisa de praia II

se eu fosse peixe, eu mergulhava. mas descobriram que sou ostra, então afundo e engulo os soluços que viram pérola.
minha poesia se chama pérola e o teu beijo se chama areia, que esquecida em meu cativeiro transformou-se em obra prima da natureza. seja areia que te escrevo pérola todo dia e te faço um colar, embora eu que seja a dama. depois me presenteia com essa coleção de versos ululantes que abraçam o mar.

janela acesa no quinto andar

os sonhos jogados pela janela do quinto andar
caíram devagar como roupas sujas
de quem não cabe nas minhas medidas
era você
com seu passo quarenta e dois
estampas de camisetas que me fizeram par
no espelho do elevador
fomos bonitos pra uma pintura moderna
que derrete porque é líquida
aquarela lavada na chuva
do beijo de alguém que amei por engano
de quem roubaria a camisa pra usar de pijama
ou o coração pra acender na minha cabeceira
alumiando a leitura de poemas sujos

sua prosa rançosa me desgastou o cerebelo
perdi o equilíbrio ao andar entre as árvores
comi mais de cinquenta combinações de versos
enquanto mordia sua boca
e você tirava meu pudor como quem recolhe as roupas do varal

diálogo não verbal

nós temos dois diálogos paralelos
no primeiro, está bem claro
só queremos ipês amarelos
no letreiro do motel barato
com suas pilastras coríntias
os cigarros jônicos acesos
você me contempla ainda
falando de todos os medos
eu nos proíbo de falar sério
quero virar outro poema
pra nossa transa ser império
dentro do templo de atenas
nossa falácia incoerente
cheias de nãos contraditórios
proibiu o óbvio da gente
olhares de paradoxo dório
nosso corpo falava ao avesso
quando em silêncio gozamos
não quisemos saber o preço
e pele na pele conversamos
as verdades impronunciáveis
enumeramos os escudos
e os traumas mais irreparáveis
gritamos um amor mudo

missoshiro

uma ostra na panela
em fogo brando até ferver
depois tempera
com missô e cebolinha
e deixa tudo se dissolver
quando servir ainda quente
abra-a ao meio
sua língua morna
por dentro, maciez
e feito uma iguaria me abre
e vem me comer

cê disse que eu era uma ostra,
eu continuo dando sopa

riscos sob dedos

com os olhos fechados, você me lia com as mãos, cheio daquele mesmo cuidado com que manejava seus vinis, passando pelas bordas e, linha por linha, como que só de tocar pudesse ouvir a música, sinto como se eu cantasse dentro silenciosamente pra você acompanhar no seu violão invisível alguma canção que não inventamos ainda, mas que já existe quando nos beijamos, quando nos pegamos, quando nos catamos aos cacos, quando nos quebramos em notas semiafinadas, quando nos ruímos feito prédios antigos ou almas antigas, quando nos chocamos como um acidente de trânsito ou um reencontro cósmico-vascular, quando nos queremos sem que nada impeça, quando perdemos a razão e fechamos os olhos, você me lê com as mãos e está cheio do seu cuidado com que escolhe seus vinis, coloca a agulha sobre as digitais e me toca, me toca, me toca até os ouvidos cansarem com a nossa falta de fôlego.

do devir das coisas

pra te comer, em carne e osso
seu corpo fechado que se entumesce
eu preciso primeiro da minha fome

pra te beber, em lágrima e gozo
seu peito aberto que se derrama
eu preciso primeiro da minha sede

pra me penetrar, em ventre e chama
meu corpo fechado que me protege
tu precisas primeiro abaixar o escudo

pra me atingir, em amor e lança
meu peito aberto que se desarma
tu venhas primeiro nu por inteiro