Ciranda

[rascunho e aviso de gatilhos]

Era uma noite importantíssima no Teatro Municipal, que estava abarrotado de celebridades e o alto escalão da vida pública brasileira. Após tantos escândalos políticos, montaram aquele circo com direito a champanhe e vestidos de lantejoulas. Muito glamour sobre o palco, muita sujeira sob o tapete. E eu de chinelos.

Ao mesmo tempo em que queria apoiar o grande momento de minha mãe, eu não podia deixar de alfinetá-la com minha aparição pálida, descabelada, obviamente sem sequer um banho. Ainda arrastei pelos bastidores aquele hippie nojento que não lava os cabelos. Ele não tinha um nome que eu soubesse, tampouco era meu namorado, embora agisse como tal. Vestia-se da pior maneira possível perante os olhos de qualquer mãe e tinha uma maço de cigarros guardado no bolso da camisa xadrez de mangas dobrados. Minha mãe, uma mulher imponente e inteligente, não se cansava de me criticar, eu não me cansava de lhe dar os motivos. Era a nossa brincadeira secreta, nossa ciranda invisível.

Minha mãe era alta, pele sem rugas, portava-se com classe. Uma figura invejável, a mulher que uma mulher deveria ser. Como se não bastasse, ela também era empoderada e sabia bem argumentar a seu favor. Hoje ela faria um discurso como primeira dama. Vivíamos uma época sem um presidente eleito, mas com primeira dama que fala em seu nome. E ela, como a boa salvadora da pátria que era, certamente teria cartas na manga para resolver aquele furdúncio capital. O discurso do ano, previram as manchetes.

Nem passava pela minha cabeça, no entanto, que alguma vilania esperta tivera um mirabolante plano de cercear mamãe e por em ação um golpe estapafúrdio bem debaixo dos narizes das grandes mídias, ali em peso, naquela noite. Pois quando adentrei o camarim, em vez abraçar mamãe quase matei uma sósia de susto.

— Tu não eres minha mãe.

A mulher quase idêntica vestia-se num longo social verde e amarelo de cetim e cristais Swarowsky. Elegante, porém tão brega quanto os granfinos às vezes conseguiam ser. Mamãe jamais usaria aquilo. Não. Ela arregalou os olhos, enquanto assessores e secretários silenciaram a mesa de reunião, cuja superfície estava abarrotada de papéis e copos d’água. Eu corri dali com meu parceiro, pelos corredores do teatro. Tínhamos que encontrá-la, antes que anunciassem sua entrada no palanque e antes que aquela cópia fajuta resolvesse falar em nome do povo. Ou pior, em nome de Deus.

Não. Eu tinha que dar um jeito naquilo. No fim, eu seria a boa salvadora da pátria, naquela noite. Ou, ao menos, tentaria.

Corri por aqueles corredores de papel de parede estampados com repetidas formas geométricas em tons pastéis e molduras sem quadros. As luzes estavam acesas, no entanto corredores de teatro sempre são muito escuros e cheio de portas. Abri uma porção de portas, que davam em depósitos de figurino e cenários usados. Infinitas portas destrancadas, eu corri esbaforida e amaldiçoando silenciosamente por estar usando chinelos. Mamãe tinha razão, nunca era bom usar chinelos fora de casa, a não ser que fôssemos à praia ou à piscina. Não me lembrava porque não colocara um par de tênis antes de sair, deveria haver um bom motivo.

O corredor chegava ao final e ficava cada vez mais claro, à medida que nos aproximávamos do salão principal, com sua mesas de toalha branca, taças de champanha e arranjos florais. O salão estava repleto de gente importante, eu não reconhecia ninguém, eram todos completos estranhos sem face arrotando suas saladas finas e quiçá um caviar estragado. Eu torcia para que estivesse estragado.

Uma dupla de moças cantavam um dueto no palco, com um violão e um banjo. Eu nunca vira alguém tocar um banjo antes, mas não me impressionei. Encontrar mamãe era mais importante do que qualquer outra coisa, naquele momento. A bandeira nacional estava posicionada ao fundo, iluminada por holofotes brancos. Por um breve instante, eu tive vontade de socar o pano da bandeira no holofote até atear fogo, ver o país queimar por minhas próprias mãos. Vez ou outra, eu acreditava que a idolatria por aqueles símbolos nacionais era um tanto doentia.

Meu parceiro de camisa xadrez e nariz protuberante segurou meu braço para que eu parasse. Indicou-me uma mesa longa à esquerda, onde a vi sentada ereta e linda numa cadeira de encosto alto e almofadado. Seus olhos estavam vidrados no palco, ela me pareceu um pouco distante, com a mente vagando longe dali.

— Mamãe!

— Filha, que bom te ver.

Não era possível que, numa situação daquelas, ela achasse bom me ver, ainda mais da maneira selvagem com que eu me vestia e lhe abordava, no meio do recinto de gala.

— Mamãe, vem. Precisamos preparar-te para subir ao palco, está na hora.

— Não… o que…?

— O discurso, mamãe. O discurso.

— Eu não consigo, não consigo me lembrar.

— Fique calma, é só respirar. Ensaiaste milhões de vezes em frente ao espelho. Estou certa de que está na ponta da língua. Basta concentrar.

Puxei-a pela mão, arrastando para a entrada lateral do palco. Ela aparentava estar nervosa e receosa de subir. Ficou balbuciando que não ia conseguir, resmungava sem parar me pedindo para não fazer aquilo. Eu insisti. Ela precisava começar logo, antes que colocassem aquela substituta horripilante em seu lugar.

Um apresentador de smoking falava ao microfone, agradecendo à dupla de moças que deixavam o palco. Todos aplaudiam energicamente. Ele anunciou a primeira dama para que começasse o discurso. Mamãe tentou fugir, mas empurrei-a em direção ao feixe de luz amarela e ela acabou parando frente ao púlpito, com dois microfones saindo pelo tampo de madeira. Os aplausos foram cessando e ela disse:

— Oi.

Os murmurinhos começaram a tomar o salão. Ninguém começava um discurso com “oi”, ninguém em pleno controle das capacidades mentais.

— Mamãe, o que há? — eu sussurrei atrás das cortinas.

Ela bateu com os dedos no microfone duas vezes, pigarreou e continuou.

— Meu irmão mais velho é um fascista. Ele fez um inventário de todos os objetos e pertences do papai, antes de ele morrer, quando ainda estava hospitalizado com tubos em sua cara.

Eu arregalei os olhos para o meu parceiro e vi minha expressão arrebatada refletindo nas lentes de seus óculos redondos. Balancei a cabeça, sem acreditar.

— Ele listou cada prato, cada disco, cada quadro e mesmo os lustres da casa. Propôs que deveríamos pegar de volta todos os presentes que havíamos dado ao papai e à mamãe, ao longo da vida. Depois que deveríamos sortear todo o resto, dos móveis, eletrodomésticos e objetos de decoração que houvesse naquela casa enorme. Fizemos praticamente um bingo de Natal com todas as posses da família. — Ela riu alto e seguiu. — Era uma tradição na família fazer um sorteio na ceia de Natal, meu pai colocava quantias diferenciadas de dinheiro nos envelopes e sorteava para cada filho e filha, genro e nora, neto e neta da família de quase cinquenta pessoas. Todos os anos era um alvoroço para saber quem tinha ficado com o envelope vazio e com o envelope de duzentos golpinhos.

Eu não conseguia acreditar que minha mãe acabara de dizer “golpinhos” em frente de toda a imprensa e alto escalão social, como se fizesse uma piada corriqueira.

— Mas não bastava o inventário, não. Ele precisava controlar a vida de cada familiar, ordenando o que profissão deveríamos ter, que emprego aceitar e qual dívida pagar primeiro. Ele estacionou seu carro zero na rua de trás para que não víssemos que tinha um carro novo, enquanto voltávamos para casa numa motocicleta barulhenta debaixo de chuva. Não foi capaz sequer de nos oferecer uma carona para casa, pois tinha uma compromisso às seis da tarde.

As pessoas continuaram murmurando, o salão estrondava de tanto falatório. Obviamente algo estava errado, minha mãe não dizia coisa com coisa. Era filha única, para começo de conversa e eu não fazia a menor ideia de onde ela tirara aquilo.

— … ele encaixotou a casa toda em módulos plásticos desinfetados, fotografou as prateleiras de livros para que arrumássemos na mesma ordem quando fossem desencaixotados. Veja bem, naquela época, as câmeras eram analógicas, gastamos uma dinherama para revelar as fotografias esdrúxulas das prateleiras. — Do outro lado do palco, vi dois seguranças brutamontes em seu ternos pretos falando em seus fones de ouvido e atravessando o palco em direção de mamãe. — Eu fui obrigada a comer um bife de fígado mal passado à mesa de jantar e engolir. Ele ficou parado do meu lado esperando que eu engolisse aquele negócio atordoante que me deu náuseas.

Os dois seguranças agarraram-na pela cintura e arrancaram-na do pulpito, enquanto ela gritava:

— Eu só queria vomitar!

Eu corri atrás deles quando os holofotes se apagaram repentinamente. Corri para os bastidores, tentando resgatar mamãe. A última coisa que vi foi um deles tampando sua boca e suas narinas com um pano branco, ela fechando os olhos desfalecida e sendo jogada para dentro de um carro preto, que acelerou de imediato.

Meu peito doía, eu arfava sem conseguir respirar, como se estivesse afogando. Queria gritar, mas minha garganta se fechara de repente. Então tudo ficou preto, perdi os sentidos e apaguei.

 

Abri os olhos.

Era uma noite importantíssima n’A Casa, que estava abarrotada de produtores e o alto escalão da elite paulistana. Após um hiato de dez anos, montaram aquele circo com direito a gin tônica e cinta-liga. Muita fumaça de gelo seco sobre o palco, tapetes pendurados ao redor dos instrumentos e embaixo da bateria. E eu de chinelos.

Ao mesmo tempo em que queria provar meu enorme sucesso à minha mãe, eu não podia deixar de querer frustrá-la com a minha embriaguez e autodepreciação. Eu sequer havia tomado banho. Trouxera comigo aquele hipster nojento que usava gel nos cabelos e na barba. Ele tinha um nome falso, mas tampouco era meu fornecedor de drogas, embora agisse como tal. Vestia-se da melhor maneira possível capaz de enganar os olhos da mais esperta das mães, mesmo que tivesse um saquinho de pó no bolso da camisa acetinada de mangas desabotoadas. Minha mãe, uma mulher esnobe e culta, não se cansava de me criticar, eu não me cansava de lhe dar os motivos. Era nosso xadrez secreto, nossa valsa invisível.

Eu era uma trintona magrela, o rosto ossudo, portava-me com a classe de uma artista despojada. Uma figura invejável, a garota que toda garota gostaria de ser. Como se não bastasse, eu era empoderada e sabia dizer deixar os jornalistas sem palavras. Hoje era minha reestreia como carreira solo. Vivíamos uma época sem um presidente eleito, mas com artistas que não tinham medo de derrubá-lo. E eu, como a boa salvadora da pátria que era, certamente teria os alfinetes certos pra incomodar aquele furdúncio nacional. A mais aclamada pelos radicais, berravam as manchetes.

Nem passava pela cabeça de mamãe, no entanto, que algum sujeito mal intencionado tivera um mirabolante plano de cercear-me e por em ação um golpe estapafúrdio bem debaixo do meu nariz empinado, naquela noite. Pois quando ela adentrou o camarim, em vez de abraçar-me deparou-se com outra super estrela da nova música brasileira.

— Tu não eres minha filha.

A garota quase idêntica vestia-se numa minissaia de couro preto e uma frente única dourada. Arrebatadora, porém tão brega quanto os artistas às vezes conseguiam ser. Eu jamais usaria aquilo. Não. Ela arregalou os olhos, enquanto produtores e músicos silenciaram em sofás de tafetá ao redor da mesinha de centro, cuja superfície estava suja de carreirinhas de cocaína e taças de vinho. Ela correu dali sozinha, pelos corredores da boate. Tinha que me encontrar, antes que anunciassem minha entrada no palco e antes que aquela cópia fajuta resolvesse cantar em nome do povo. Ou pior, em nome do Estado.

Não. Ela tinha que dar um jeito naquilo. No fim, ela seria a boa salvadora da pátria, naquela noite. Ou, ao menos, tentaria.

Correu por aquele corredores de parede fosca com rabiscos de giz em dizeres sujos e desenhos pornográficos. As luzes estavam acesas, no entanto corredores de boate sempre são muito escuros e nenhuma janela. Abriu uma porção de portas, que davam em depósitos de instrumentos e cenários quebrados. Infinitas portas destrancadas, ela correu esbaforida e amaldiçoando silenciosamente por estar usando saltos. Eu tinha razão em sempre lhe dizer que nunca era bom usar saltos em eventos, a não ser que fôssemos ficar sentada. Não se lembrava porque não colocara um par de tênis antes de sair, deveria haver um bom motivo.

O corredor chegava ao final e ficava cada vez mais barulhento, à medida que se aproximava do salão principal, com suas mesinhas antas e sem bancos, copos longos de gin tônica e velas aromatizadas. O salão estava repleto de gente importante, ela não reconhecia ninguém, eram todos completos estranhos sem face arrotando seus discursos falaciosos e mastigando bolinho de aipim recheado de carne seca. Ela torcia para que estivesse estragado.

Uma dupla de rapazes fazia um jogral no palco, com máscaras de gesso e usando cintos com pênis de silicone coloridos. Ela nunca vira alguém usar uma cinta-pau antes, mas não se impressionou. Encontrar-me era mais importante do que qualquer outra coisa, naquele momento. A bandeira nacional estava pendurada e pixada com os dizeres “desordem e regresso”. Por um breve instante, mamãe sorriu de soslaio por ver o símbolo nacional vandalizado, queria ver o país todo vandalizado daquele jeito. Vez ou outra, ela acreditava que a idolatria por aqueles símbolos nacionais era um tanto doentia.

Meu parceiro de camisa acetinada e nariz protuberante cutucou meu braço para que eu olhasse. Indicou-me uma mesa pequena à direita, onde a vi destacada na multidão, sobre seus saltos enormes e desconfortáveis. Meus olhos estavam alertas e arregalados, eu via vultos e as luzes coloridas embaçavam minha visão.

— Mamãe?

— Filha, que bom te ver!

Não era possível que, numa situação daquelas, ela achasse bom me ver, ainda mais da maneira selvagem com que eu me vestia e lhe desprezava, no meio daquele recinto sujo.

— Filha, vem. Precisamos preparar-te para subir ao palco, está na hora.

— Não… o que…?

— A canção, filha. A canção.

— Eu não consigo, não consigo me lembrar.

— Fique calma, é só respirar. Ensaiaste milhões de vezes em frente ao espelho. Estou certa de que está na ponta da língua. Basta concentrar.

Puxei-me pela mão, arrastando para a entrada lateral do palco. Ela estava nervosa e receosa de subir. Fiquei balbuciando que não ia conseguir, resmungava sem parar lhe pedindo para não fazer aquilo. Ela insistiu. Eu queria fugir, ela  me emprestou seus sapatos e eu não fazia ideia porque ela queria me ouvir cantar.

Um apresentador com o rosto coberto por um pano preto falava ao microfone, agradecendo à dupla de mascarados que deixava o palco. Todos aplaudiam energicamente. Ele anunciou a meu retorno aos palcos para que começasse o show. Eu tentei fugir, mas mamãe empurrei-me em direção ao feixe de luz vermelha e acabei parando frente ao microfone de rádio, que descia pendurado por um cabo. Os instrumentos começaram a tocar e eu disse:

— Oi.

Os murmurinhos começaram a tomar a casa. Ninguém começava uma canção com “oi”, ninguém em pleno controle das capacidades mentais.

— Gata, o que há? — Sussurrou o guitarrista atrás de mim.

Eu bati com os dedos no microfone duas vezes, pigarreei e cantei.

— Meu ex namorado é um comunista. Ele planejou um golpe pra guilhotinar esses fascistas. Queria assistir o interino na cama do hospital a definhar, com tubos saindo das veias, e morrer até o sangue secar.

O baterista arregalou os olhos para o meu parceiro que tocava baixo e vi minha expressão alucinada reproduzindo no telão. Balancei sobre os saltos, sem cair ou torcer os pés.

— Ele listou cada golpista, cada peême, cada parente dos deputados sujos da capital. Propôs que deveríamos escalpelar de volta todos os coxinhas que haviam tomado o poder, e jogar as cabeças pelo planalto nacional. Depois que deveríamos incendiar todo o palácio da alvorada e queimar cada objeto nacionalista que houvesse naquela casa. Montar praticamente uma fogueira de Sabbath com todas as posses da família tradicional brasileira. — Eu ri alto e segui. — Porque é uma tradição institucional esse sorteio das cabeças a rolar em pleno carnaval. Eles usam envelopes de dinheiro nas cuecas e maletas de seus párias, pra cada filho e filha, genro e nora, neto e neta das suas capitanias hereditárias. Toda eleição é um martírio para saber quem vai ficar com o envelope vazio e com o envelope de um milhão de golpinhos.

Eu não conseguia acreditar que minha acabara de dizer “golpinhos” em frente de toda a imprensa e à esquerda caviar, como se fizesse uma piada nada corriqueira.

— Mas não bastava o golpe comunista, não. Ele precisava controlar a vida de cada cidadão, ordenando o que profissão deveríamos ter, que emprego aceitar e qual dívida pagar primeiro. Ele estacionou seu carro zero na rua de trás para que não víssemos que tinha um carro novo, enquanto voltávamos para casa numa bicicleta enferrujada debaixo de chuva. Não foi capaz sequer de nos oferecer um governo justo, pois tinha uma compromisso às seis da tarde.

As pessoas continuaram murmurando, o salão estrondava de tanto falatório. Obviamente algo estava errado, eu não dizia coisa com coisa. Eu não era compositora, para começo de conversa, e eu não fazia a menor ideia de onde eu tirara aquilo.

— … ele me abandonou depressiva e aos prantos, quis minha cabeça num saco plástico e me ver sufocar, depois fotografar o meu fracasso pra me tornar mártir suicida, um símbolo do regime comunista. Eu ia aparecer nos livros de história, nos jornais como mulher sem pátria e sem marido. Veja bem, naquela época, a internet ia fervilhar, com meus autorretratos, uma arte conceitual, ele não gastaria um real para revelar as fotografias esdrúxulas do meu declínio mental. — Do outro lado do palco, vi dois seguranças brutamontes em seu ternos pretos falando em seus fones de ouvido e atravessando o palco na minha direção. — Eu fui obrigada à minha morte virtual, como um prato principal à mesa de jantar. Ele surgiu à minha porta, armado, esperando que eu morresse na sua frente, mas aqui dentro minha única vontade era…

Os dois seguranças agarraram-me pela cintura e arrancaram-me do microfone, enquanto eu gritava:

— …vomitar!

Mamãe correu atrás deles quando os holofotes se apagaram repentinamente. Correu para os bastidores, tentando resgatar-me. A última coisa que vi foi um deles tampando minha boca e minhas narinas com um pano branco, senti um cheiro forte e desfaleci, meu corpo doeu insuportavelmente, de imediato.

Meu peito doía, eu arfava sem conseguir respirar, como se estivesse afogando. Queria gritar, mas minha garganta se fechara de repente. Então tudo ficou preto, perdi os sentidos e apaguei.

Tiraram minha cabeça da água. Eu acordei e nada daquilo havia sido real. Eu sabia, era uma matriz forjada numa inteligência artificial robótica. A realidade estava ali, naquele falso batismo, de enfiar a cabeça embaixo d’água, obrigando-me a ter uma experiência sensitiva e intensa, pra que eu acreditasse que fosse real. Não era.

 

Ensaio sobre os não toques

Ele assobiou três vezes no portão, como se fazem os apitos escoteiros às tardes de sábado. Era terça-feira. Ela, no auge da sua moda para dias depressivos, abriu a porta com um moletom cinza surrado e uma camiseta de banda alternativa, onde se lia Carne Doce. Ele pensou que o nome da banda combinava com ela e o gosto que ela deixava às vezes quando passava pela sua boca. Seus olhos fundos e tristes diziam que ela tinha dormido mal e estava cansada. Do mundo.

Ele estacionou a bicicleta na garagem, deu aquele abraço longo e se encostou suado no cangote. Ela parecia uma estátua, organicamente cheia de medos ou anseios, não se sabia bem o quê. Estava fria como mármore, que o rosto dele chegou a colar na sua pele instantaneamente.

Entraram pelo portal azul, onde ele adentrou pela primeira vez em sua casa, cheia de quadros e adereços de decoração por toda parte. Tudo tão colorido e cheio de vida, que era até irônico que ela aparentasse estar tão doente naquele dia, como se tivesse apenas sobrevivido. Mais um dia, menos um dia.

Ela lhe apresentou o resto da casa e seu quarto, como se fosse uma vendedora de móveis numa loja de departamentos. Falava mecanicamente, como se tivesse engolido uma fita cassete programada para dar as boas vindas. Ele sentou em sua cama, como se já fossem amantes de longa data, tirou os sapatos, trocou a camiseta por uma limpa para deitar ao seu lado. Preocupado até em não sujar os lençóis com o cheiro do treino de escalada.

Ela ligou um episódio no computador e seguiram momentos silenciosamente tensos. Ambos com suas dúvidas sobre o que fazer ou o que dizer. Não fizeram nem disseram nada. Encostaram as cabeças, quase dividindo um mesmo travesseiro, respiraram, esperaram o episódio acabar.

Ao final, ela estava calma, terna. Como se tivesse lido o script de um roteiro antes de estar ali, como se soubesse exatamente como as coisas se dariam dali por diante. Essa certeza nos olhos dela o desesperou de tal maneira que a única reação foi aceitar o convite para uma cerveja.

Ela abriu a garrafa tranquilamente, deslizando pela cozinha, contando sobre alguma coisa que nem fazia sentido. Ele precisou lembrá-la de brindar os copos, olho no olho, pra valer o brinde.

Enquanto ela falava sem parar sobre as coisas completamente brutais da vida, ele pensou que ela ficaria bonita colocada dentro de uma redoma, protegida. Porque parecia que a qualquer momento poderia trincar e se partir em mil pedacinhos, feito uma rara porcelana. Ele, como bom porco-espinho que era, provavelmente só arranharia a porcelana. Quanto mais ela matraqueava, mais ele percebia que ela já havia se partido e se colado tantas e tantas vezes, que talvez, por isso, fosse tão rara. E possivelmente muito mais resistente do que qualquer outra porcelana.

Talvez ela fosse muito mais cola do que porcelana. Endurecida com a violência do mundo que havia enfrentado. Ele queria decifrar como ela conseguira sobreviver a tantas rupturas. Queria desmontá-la e remontá-la como um quebra-cabeça, tirar sua roupa, criptografar cada cicatriz e tatuagem, tocar lentamente todos os rabiscos e rachaduras de seu corpo, até decorá-lo dos pés à cabeça.

No entanto, num breve toque em seus joelhos, ela estremeceu e ele entendeu que tinha avançado demais em seu território tão milimetricamente seguro. Ele quase se desculpou. Me desculpe por te assustar, ele pensou. Enquanto isso, dentro dela, engrenagens se mexiam freneticamente cheia de ruídos, que ela quase deu um berro pra que se calassem. Ficou com medo que ele tivesse ouvido todo aquele rebuliço mental que fervilhava internamente.

E então ele foi embora.

Partiu em alta velocidade sobre sua bicicleta na rua escura, até sumir de vista. E ela, querendo silêncio, estava atordoada com o barulho que aquela visita lhe tinha trazido. Como se tivesse surrupiado alguma coisa de sua casa. Nada havia sumido, tudo estava em seu devido lugar. O que estava mudado era outra coisa: a bolha da zona de conforto se havia estourado. Era o que os espinhos faziam: espetavam. E a ventania fustigava estrondosamente ali dentro.

 

 

asfalto que dá na terra

na rua, o som dos sapatos clap clap no asfalto, a solidão da noite me acompanha até a porta da sua casa. era a noite com seus postes amarelos falhantes sob as árvores sem poda. eu adoro o meu andar sozinha no escuro, caminhante fora da calçada, lua grande me ofuscando na imensidão da cidade. quantas vezes andei pelas mesmas quadras soturna e aos ouvidos aguçados? o meu calar é respiro, que até desacostumei a compartilhar meu silencioso caminhar por estas ruas vazias com mato crescendo onde há rachaduras. não sei como morder a noite sem deixar marca de batom no cangote da madrugada, nem sei inspirar meus próximos versos sem antes acender meu cigarro. mas, veja só que tive a humildade de beijar-te antes mesmo de tragar as cinzas. um erro desse só pode ser deslize de astros mal intencionados, que apagam a luz do poste quando estamos passando, sem saber bem onde estamos indo numa rua sem saída.

quando eu digo que vou embora

Estou interessada.

Nas formas desencontradas que as baforadas do cigarro fazem no ar. Elas são como todos esses rodeios, os desvios que pego pra não estar até as quatro ou cinco da manhã na sua companhia. Eu podia ser dona do tempo, colocar no congelador, guardar para as próximas doses um pouco do seu falar arrastado. Dar goles dos seus risos quando me desse sede.

Estou correndo de patins numa grande pista, curvas à direita e à esquerda, dançando com o meu desejo frenético de ser sincera a cada vez que o portão se tranca. Nos buracos, tropeço, despedaço-me no chão de cimento, você me chama pra ouvir sua música. Seus segredos caem como gotas de veneno em meu estômago. Cala essa boca.

Poderia jogar pedregulhos nessa sua cara. Eles beijar-te-iam violentos.

Estou interessada nesse minuto de abraço, no soslaio com que me encara, nos joelhos que se esbarram propositalmente, no beijo em meu ombro frio, nos dedos nos meus cabelos, no que eu digo quando não digo nada. Estou interessada no silêncio que existe nas pausas. Essas pausas.

Estou interessada.

amargo quase beijo

Como se morresse de sede, virei-o ali inteiro, veneno. Em minha boca, amargo. Mas antes que pudesse festejar em goles turvos, interrompeu-me suplicando que lhe doasse um pouco da minha morte. Eu, confundida sobretudo pelas luzes, deixei-me ser roubada. Minha boca então dormente pela meia dose e silenciada pela sua falta de violência. Não soube dizer que sim ou que não, apenas não morri de frio. Perdi os sentidos, pisquei umas vezes, desacreditada da sobrenaturalidade dos quase beijos, que salvam até os olhos trôpegos do precipício. E as papilas sobreviventes do risco que foi cair em sua boca.

sob pixos, bombas de gás e amores atropelados

Eu não te escrevo pra você, eu te escrevo pra mim.

Isso significa muito. Significa que do fundo da minha essência eu queria me contar tudo isso, chamar a minha atenção para o fato de que.

[ainda te amo?]

Seria possível você me ler como se fosse eu lendo pra mim mesma? Faria mais sentido todo esse rebuliço que faço na hora de escrever uma carta. Eu quero me convencer de que é simples, mas eu não te convenço. Eu continuo declarando que isso passou, e passou mesmo. Atravessou, atropelou, tirou o fôlego. Como se no meio das linhas escritas viesse uma frase rabiscada por cima do texto todo. Um pixo. A minha vida é um pixo no muro velho e abandonado. Vai ficar lá escrito e posso passar tinta latex por cima, pintar de branco, deixar o muro novo.

Lá está o pixo, por baixo das camadas que secam.

As pessoas jogam vinagre e tíner. Esfregam pra ver se sai. Mas o pixo – com x mesmo – entranhou-se no concreto. Quando eu jogo vinagre no azulejo e fica um cheiro estranho, eu sei que é o mesmo que beber vinagre: as paredes do estômago sentem muito. Mas no meio das bombas de gás de pimenta, que graças damos ao vinagre. Muito obrigada, vinagre, por me tirar do desespero na multidão. Por um momento eu não podia abrir os olhos, nem respirar. Eu sufoquei tanto como naquelas manifestações de dois mil e treze. Senti-me bandida por brigar por tudo isso, por brigar com você também como se eu estivesse tão certa.

Desde quando sofrer é certo?

Fui arrastada pelas ruas do centro, ali tão desconhecido. Seguia os pés vestidos de all star pra me socorrer do pânico. Era só isso que eu enxergava. Minha única solução foram o par de tênis correndo abaixo de mim, que eu tentava encontrar enquanto meus olhos marejavam. E como num conflito político, como o daquela noite, eu também me arrastei atrás de você pra me safar da escuridão que abraçava. Eu corri atrás dos seus all star vermelhos, como se fosse solução. Mas era desespero.

Sinto muito pela comparação esdrúxula. No fundo você sabe –  e eu também sei – que amor não tem nada a ver com bombas de gás lacrimogênio. Só tento, tento sempre, convencer-me de que tudo foi uma grande confusão. A gente escorregou bem na hora, dançou uma lambada, estrumbicou, ralou o joelho e saiu andando. Tudo ardendo, como no tombo de bicicleta na avenida. Levei oito pontos e uma história pra contar.

E faço disso motivo pra escrever, escrevo sem parar. Na verdade paro, com meus hiatos e silêncios, mas aqui dentro tem uma orquestra tocando sinfonias intermináveis, ribombando todo o sufoco que é soltar as mãos na última hora. Soltei-me e continuo tão viva, embora esfolada.

Eu não me escrevo pra mim, eu me escrevo pra você.

uma resposta de carta

 

Hoje realmente o dia se pareceu diferente, não posso dizer o quanto sua carta me surpreendeu, nem traduzir exatamente o que senti.
Primeiramente, vi com surpresa como uma outra pessoa pode enxergar nas palavras e até vesti-las como se fosse um poncho de lã roxa no inverno. Senti uma mistura de sensações com as suas palavras, elas nem pareciam palavras. Faziam o som de uma brisa, como uma música calma.
Eu senti o aroma morno de um chá, numa sensação que tem sido rara atualmente.
O dia começou diferente, porque as nuvens se abriram e contrariaram o humor da humanidade. No meu jardim, o que mais se assemelha ao que me disse, é que daquela roseirinha mais estranha que está no canteiro, uma que brota uns frutos laranja e achei que nunca iria florir. Hoje estava com dezenas de mini rosas amarelas, que eu não houvera notado, umas já desfolhando, outras resplandecentes como ouro.
Suas palavras tem realmente um herança de minh’alma, tem cores, luz, sentidos, mas especificamente de você vem sempre uma enorme consciência que eu admiro.
Em todos esses tempos, tantas coisas difíceis, meus filhos tem sido um doce, igual minha mãe era capaz de fazer.
Sua carta, elaborada da mesma forma, com que minha mãe bordava as roupinhas de seus futuros netos, com uma destreza especial, com singeleza para receber no mundo. Era um carinho que se dizia dela tão colorido como estórias infantis.
O teor da sua carta me trouxe da memória, o sabor dos docinhos de olho de sogra, que minha mãe preparava, com seus dedos hábeis, com delicadeza de cobrir com caramelo em aniversário de algum irmão meu. É o sabor humilde da gentileza, um carinho de alma.
Especialmente hoje, porque ontem, eu tenho certeza de que pedi a Deus que me enviasse um anjo com seu candeeiro aceso que pudesse andar junto nessa hora comigo. E certamente ele me enviou o que estava mais próximo. Você.

Mara Romaro

Fonte: Uma resposta de carta

Mãe, às vezes pego seu livro aqui e fico folheando, tentando decifrar suas metáforas e anedotas. Fantasiando que todas as coisas de que você fala são coisas que conheço bem. No fundo, não sou metade das coisas pela metade que você diz não ter conseguido. Veja só como não tive sequer um par de jaboticabas pra levar à passeio na feira. Não faço feira, porque não sei escolher laranjas até hoje. Veja só como não usei sequer grinaldas em meu casamento, porque não me caso: ainda to esperando o beija-flor com seu canto afinado atrás da janela do carro que venha beijar minha tatuagem desbotada. O meu sonho de amor perfeito virou um dos seus poemas, então aguardo no tempo impossível de me acontecer nas suas páginas de histórias em versos. E, ao contrário do que pensa, somos tão parecidas que tropeçamos o tempo todo uma na outra, como um espelho no país das maravilhas. O país que começa com seu nome, bem diferente do nosso que está pelas avessas. Embora eu não seja de falar muito, sinto saudades e te procuro no seu livro quando me falta um abraço. Ainda bem, as palavras são eterno acalento.

Giovanna Romaro

à sombra de yoko

[rascunho ou esboço de um primeiro capítulo]

Era bem possível que ninguém soubesse porque isso ou aquilo acontecia. Ou mesmo porque não acontecia. As coisas não costumam fazer sentido se as pessoas envolvidas não fazem questão de que façam sentido. Então muitas vezes, você pedia o táxi, dizia para onde ir e não perguntava o nome do motorista. E outras vezes ligava o computador, abria um blog qualquer, deixava um comentário despropositado e a probabilidade de acontecer algo extraordinário por causa disso era mínima.

Acontece que um dia desses, Luíza ia fazer algo inútil que poderia se tornar uma gigantesca catástrofe em sua vida. Ou talvez não fizesse nada e ia continuar a mesma Luíza de todos os domingos. Ou então ia fazer algo que poderia ser chamado de lance de sorte, destino, acaso ou até mesmo loucura.

Ela era esguia, muito branca e sem marca de sol. Os olhos eram mestiços, porém grandes, bem grandes. Podiam tudo ver, porém, mais do que isso, podiam tudo mostrar. A boca também era bem grande, um sorriso tão extenso quanto uma rodovia no deserto. A voz combinava com a boca, e a gargalhada combinava com o sorriso. Seus lábios sempre vermelhos, as unhas quase sempre descascadas. Não era alta, nem sequer precisava de saltos para parecer maior do que realmente tinha de altura. Era capaz de ocupar uma cama inteira sozinha e sua boca capaz de gritar uma música inteira de cor. Quem se lembra de Luíza, vê uma menina pequena de vestidos limpos com dobras amassadas. E a flor, sempre podia ter uma flor nas mãos e um maço de cigarros no bolso da calça. Tão inocente quanto um espinho.

Que furou seu indicador naquela tarde. Veio um pingo de sangue escuro. Não doeu tanto, mas a sensação foi como se perdesse a virgindade. Com um espinho? Por que não? Afinal, as belezas das flores precisam deles pra aparecer.

Ela se sentou na calçada, eram umas cinco horas.

Não passavam muitos carros na rua de paralelepípedos, era uma rua por onde só cabia um carro por vez, de tão estreita. Havia mais muros do que janelas e mais portas do que garagens. De certa forma, os barulhos da cidade não faziam muito eco por ali, talvez fossem barulhos grandes demais pra caber naquela rua antiga. A maioria das pessoas nem sabiam que ela existia, o que de certa forma era bom, assim Luíza podia ficar ali faiscando seu isqueiro sem ninguém lhe perturbar. Não precisava de muito para isto, apenas o silêncio já era capaz de ser bastante perturbador.

Estava fazendo errado. Era o momento errado, o homem errado e ela era possivelmente a mulher mais errada que já encontrara na vida. Pra começar, ela nem sabia exatamente o que queria.

Ela queria andar pelo centro de São Paulo à noite. Ia haver uma multidão, andando caminhos diferentes. Ela queria ouvir Jorge Bem, fumar um cigarro e ter sobre o que escrever depois. Desculpe, mas não foi isso. Ela precisou assistir Velhas Virgens, berrando para abrir as pernas, com aquele cheiro de vodca barata e cerveja com urina fermentando no asfalto. Cansou de estar no lugar errado e de fazer o que fosse só porque era conveniente.

Ela era sempre inconveniente. Havia gostado dessa palavra, tinha um certo som meio latino de se falar, era uma palavra grande, dessas que se enche a boca e não se cansa de pronunciar cada sílaba demoradamente, até que as pessoas se cansavam e não diziam mais. Ela tinha o dom de cansar as pessoas e fazê-las desistir de brigar. Brigas nunca eram convenientes, se for pensar bem. Era por isso que ela sempre vencia.

Ali na calçada, cruzou as pernas. Seus tornozelos ficariam mais bonitos com uma tatuagem de tribal e os pés com uma sapatilha. Ninguém soube dizer qual o número dos seus pés. Ela ainda usava all star. Apoiou-se nos braços para trás, levantou a cabeça com os cabelos longos caindo pelas costas. Ela estava cansada e passou-se uma hora ali, cansada. Até que começou a cair o sol com sombras e naquela ruazinha a noite começou antes, porque era estreita demais para o sol passar. Então ela deitou na calçada, seus cabelos eram um tapete.

Esperou olhando sempre entre os fios de eletricidade. As estrelas do começo da noite passavam por ali, como se pulassem corda em slowmotion.

– O que está fazendo, Luíza?

Ela levantou-se rapidamente, pra fazer de conta que não achariam aquilo tolice.

– Oi, Fábio – Era mais tédio que outra coisa. – Estou contando quantas estrelas passam em uma hora.

Ele continuou fitando-a estranhamente. Ela ficou de pé, enquanto revirava os olhos, entediada com aquela pobreza de mente. Ele não percebeu o desdém porque estava reparando nas bitucas de cigarro caídas por ali no chão.

– Você andou fumando?

Ela andou em direção ao portão, sem responder. Pegou a chave pendurada com uma pimenta vermelha de plástico para abrir o cadeado. Segurou forte e não colocou a chave. Parecia que se abrisse o portão, teria que deixá-lo entrar como todos os dias. Não queria deixar. Achou melhor ter certeza

– Fábio, se eu andasse nua numa praça, o que você ia pensar?

– O quê?!!

– É – fez ela mexendo as mãos no ar, como se espantasse um mosquito. – Imagina que um dia você foi tomar sorvete na praça e eu estivesse correndo sem roupa ali.

– Luíza, você tem umas idéias sem pé nem cabeça. Vamos entrar.

– Não.

Ele parou, fazendo outra vez aquela expressão de estranhamento. Toda vez que ele fazia isso, ela se sentia uma extraterrestre em sua própria rua, ou em sua própria casa. E, cacete, a casa era dela. A rua também era dela. Era muita invasão de privacidade querer julgar seu comportamento dentro do seu território. Não havia paz no mundo hoje em dia?

– Não quero que você entre.

– Por quê?

– Porque sim.

Luíza encostou-se no portão e guardou as chaves de volta no bolso da calça jeans. Cruzou os braços e sua boca longa não estava mais entreaberta.

– Você é muito pudico, Fábio.

– O quê? Pudico? Do que você está falando?

– É, pudico, sabe, aquela pessoa que tem vergonha até de sexo.

– Lá vem você de novo com essa história…

– Sim e vou falar! Vou falar mil vezes porque você não entende!

– Não entendo mesmo!

– Okay. Então não vou mais falar.

Ele olhou pra ela, porque não fazia sentido. Nunca fazia sentido.

– Desisto, Fábio. Não vou mais argumentar pra te convencer de quem eu sou e de que não sou certa pra você. – Ela esperou que ele a interrompesse, mas ele continuou esperando pela próxima frase pra ver se faria sentido. – Em vez disso, vou dizer que você não é mais o certo pra mim.

Ele demorou e então abaixou a cabeça para os seus tênis desamarrados. E não falou nada, esperou qual ia ser o próximo absurdo que ela falaria. Luíza destrancou o portão, entrou, trancou novamente. Olhou e Fábio continuava com aquela expressão de estranhamento, do outro lado das grades. Ela revirou os olhos pela última vez e entrou em sua casa. Encostou-se à porta do lado de dentro, aquela sala com cheiro de tédio e eco dos barulhos de vídeo-game. Bufou uma só vez, de alívio.

Ainda estava muito silêncio. Abriu o armário de vidro e ligou o aparelho de som, colocou na segunda música da Janis e foi isso. Pôde então fechar os olhos e sua boca começou a torcer debochada. Ela começou a rir alto, rir, rir até sua boca se tornar uma garganta. Ela tirou a camisa de linho branco, estava usando um soutien azul claro que tirou também. Tirou os all star, as calças jeans rasgadas no joelho e a calcinha.

Não havia perigo de alguém chegar, porque todos haviam ido à missa. Ela riu mais alto. E correu, sem nenhuma roupa, pela sala, dando a volta nos móveis, ficou girando e rindo e berrando junto com Janis, but all I know that she left you, and you swear that you just don’t know why!  Sua voz estava até rouca de tanto rir e seus joelhos ossudos estavam doendo de tanto pular. Ela suava e não precisava de nenhuma roupa, tirou a aliança também e jogou por ali. Ela rolou até atrás da mesinha de canto. Ela dançou e riu, pulando em volta do sofá.

Então seu pé direito deu um giro e seu dedo mindinho foi parar no pé do sofá com uma velocidade que poderia ser trinta quilômetros por hora. E na hora a dor foi tamanha que não se sabia se ela ainda estava rindo mesmo ou não, enquanto Janis gemia nas caixas, come on and cry, cry baby

Em um segundo, ela se encolheu no chão lustrado feito um feto, segurando o pé e gemendo. Malditos sejam os sofás. E riu, segurando o pé ainda, os seus olhos fechados prestes a lacrimejar e a boca aberta, rindo cada vez mais alto.

que se no chão das coisas a gente se deita pra olhar estrelas e não tem cidade acesa por perto eu sinto o calor das pedras e o calar do seu semblante viemos pra escurecer outro dia e esperar nascer de novo sentir o chão esfriar enquanto continuamos aquecidos na lareira dos nossos amores impossíveis onde sempre vamos pondo lenha e vendo queimar e nos queimando junto virando cinzas sem nunca apagar

brisa de praia I

disse a praia vazia:
posso cantar enquanto você é silêncio, posso calar-me enquanto você é barulho, posso ser mansidão ou tormenta e trago a temperatura enquanto você traga fumaça.
conheço um mundo do qual você nunca ouviu falar,  profundo e temeroso, você desconhece o temor, nem sabe de deus nem de infernos sacros.
você só evita meu beijo pra não se afogar, que minha canção é sereia nos seus medos e pudores.
quem você mataria hoje?