dois

E da carne fez-se o antro que de encanto não se sobrevive, é nos cantos mais sombrios que o amor pode ser destroçado a ponto de sangrar pelos poros, ou domar com os cabelos ou se safar do medo de ser mais ainda humano. Até que não seria ruim… arruinar feito um prédio mal acabado daquilo que não serviu pra ser lapidado mas foi, com pinturas sobre paredes descascadas e infiltrações vindo de todos os lugares como um mofo que cresce pelos órgãos que foram esquecidos: um instante – acabo de lembrar do meu café da manhã, leite puro até que se prove a intolerância à lactose e queijo e facas e queijos que você nunca experimentou. Deite-se sobre uma toalha xadrez e jogue, não venha me dar um xeque, eu sei ganhar e posso; enquanto isso, vão querer abominar nossa estrutura desde às fundações até as telhas.  Só acenda a lareira, não ligue pra mais quantos invernos continuarão tentando e falhando que é o que fazem de melhor; enquanto fazemos amor com o que temos direito, indo e vindo por estradas sem medo de correr, sem medo de frear, sem medo de esperar. E sem medo de esfriar, porque não esfria mais quando se tem dois.

sem cortinas

A pintura descascou da parede, o vapor escorreu no espelho, se houvessem cortinas teriam sido sacudidas, os sapatos se perderam embaixo da cama, a chave virou três vezes, o interruptor decidiu apagar a luz, os cães escutaram. Só eles sabem descrever com seus latidos e uivos. Que a rua estava vazia e que o céu estava cheio. Que metade era minha e metade era sua, uma única moeda que não pagou nada. Era o cetim ou era a pele? As duas coisas sentiam brilhar dentro das pupilas e das papilas. O gosto não mudava. Que a lua ficava mais cheia e o copo mais bebido e o corpo mais ruído e o desejo mais. Pra saber que cor vão ficar os olhos quando a cor dos cabelos mentir, pra adivinhar que há mais equilíbrio com quatro apoios, mas que com menos também não é ruim perder o equilíbrio. Que a voz ficava vazia e o canto cheio. Que metade era mudo e metade era grito, porque aprende-se a ficar rouco e fazer pedidos mesmo assim. Era a luz ou era a cegueira? As duas brilhavam lá fora de manhã e o gosto não mudava. Que a rua ficava mais cheia e o céu mais vazio e o riso mais denso e o acalento mais. A parede escorreu da pintura, o espelho sacudiu no vapor, se houvessem chaves teriam se perdido, os sapatos escutaram embaixo da cama, o interruptor apagou três vezes, os cães decidiram descrever, as cortinas descascaram. Só elas sabem.