Ciranda

[rascunho e aviso de gatilhos]

Era uma noite importantíssima no Teatro Municipal, que estava abarrotado de celebridades e o alto escalão da vida pública brasileira. Após tantos escândalos políticos, montaram aquele circo com direito a champanhe e vestidos de lantejoulas. Muito glamour sobre o palco, muita sujeira sob o tapete. E eu de chinelos.

Ao mesmo tempo em que queria apoiar o grande momento de minha mãe, eu não podia deixar de alfinetá-la com minha aparição pálida, descabelada, obviamente sem sequer um banho. Ainda arrastei pelos bastidores aquele hippie nojento que não lava os cabelos. Ele não tinha um nome que eu soubesse, tampouco era meu namorado, embora agisse como tal. Vestia-se da pior maneira possível perante os olhos de qualquer mãe e tinha uma maço de cigarros guardado no bolso da camisa xadrez de mangas dobrados. Minha mãe, uma mulher imponente e inteligente, não se cansava de me criticar, eu não me cansava de lhe dar os motivos. Era a nossa brincadeira secreta, nossa ciranda invisível.

Minha mãe era alta, pele sem rugas, portava-se com classe. Uma figura invejável, a mulher que uma mulher deveria ser. Como se não bastasse, ela também era empoderada e sabia bem argumentar a seu favor. Hoje ela faria um discurso como primeira dama. Vivíamos uma época sem um presidente eleito, mas com primeira dama que fala em seu nome. E ela, como a boa salvadora da pátria que era, certamente teria cartas na manga para resolver aquele furdúncio capital. O discurso do ano, previram as manchetes.

Nem passava pela minha cabeça, no entanto, que alguma vilania esperta tivera um mirabolante plano de cercear mamãe e por em ação um golpe estapafúrdio bem debaixo dos narizes das grandes mídias, ali em peso, naquela noite. Pois quando adentrei o camarim, em vez abraçar mamãe quase matei uma sósia de susto.

— Tu não eres minha mãe.

A mulher quase idêntica vestia-se num longo social verde e amarelo de cetim e cristais Swarowsky. Elegante, porém tão brega quanto os granfinos às vezes conseguiam ser. Mamãe jamais usaria aquilo. Não. Ela arregalou os olhos, enquanto assessores e secretários silenciaram a mesa de reunião, cuja superfície estava abarrotada de papéis e copos d’água. Eu corri dali com meu parceiro, pelos corredores do teatro. Tínhamos que encontrá-la, antes que anunciassem sua entrada no palanque e antes que aquela cópia fajuta resolvesse falar em nome do povo. Ou pior, em nome de Deus.

Não. Eu tinha que dar um jeito naquilo. No fim, eu seria a boa salvadora da pátria, naquela noite. Ou, ao menos, tentaria.

Corri por aqueles corredores de papel de parede estampados com repetidas formas geométricas em tons pastéis e molduras sem quadros. As luzes estavam acesas, no entanto corredores de teatro sempre são muito escuros e cheio de portas. Abri uma porção de portas, que davam em depósitos de figurino e cenários usados. Infinitas portas destrancadas, eu corri esbaforida e amaldiçoando silenciosamente por estar usando chinelos. Mamãe tinha razão, nunca era bom usar chinelos fora de casa, a não ser que fôssemos à praia ou à piscina. Não me lembrava porque não colocara um par de tênis antes de sair, deveria haver um bom motivo.

O corredor chegava ao final e ficava cada vez mais claro, à medida que nos aproximávamos do salão principal, com sua mesas de toalha branca, taças de champanha e arranjos florais. O salão estava repleto de gente importante, eu não reconhecia ninguém, eram todos completos estranhos sem face arrotando suas saladas finas e quiçá um caviar estragado. Eu torcia para que estivesse estragado.

Uma dupla de moças cantavam um dueto no palco, com um violão e um banjo. Eu nunca vira alguém tocar um banjo antes, mas não me impressionei. Encontrar mamãe era mais importante do que qualquer outra coisa, naquele momento. A bandeira nacional estava posicionada ao fundo, iluminada por holofotes brancos. Por um breve instante, eu tive vontade de socar o pano da bandeira no holofote até atear fogo, ver o país queimar por minhas próprias mãos. Vez ou outra, eu acreditava que a idolatria por aqueles símbolos nacionais era um tanto doentia.

Meu parceiro de camisa xadrez e nariz protuberante segurou meu braço para que eu parasse. Indicou-me uma mesa longa à esquerda, onde a vi sentada ereta e linda numa cadeira de encosto alto e almofadado. Seus olhos estavam vidrados no palco, ela me pareceu um pouco distante, com a mente vagando longe dali.

— Mamãe!

— Filha, que bom te ver.

Não era possível que, numa situação daquelas, ela achasse bom me ver, ainda mais da maneira selvagem com que eu me vestia e lhe abordava, no meio do recinto de gala.

— Mamãe, vem. Precisamos preparar-te para subir ao palco, está na hora.

— Não… o que…?

— O discurso, mamãe. O discurso.

— Eu não consigo, não consigo me lembrar.

— Fique calma, é só respirar. Ensaiaste milhões de vezes em frente ao espelho. Estou certa de que está na ponta da língua. Basta concentrar.

Puxei-a pela mão, arrastando para a entrada lateral do palco. Ela aparentava estar nervosa e receosa de subir. Ficou balbuciando que não ia conseguir, resmungava sem parar me pedindo para não fazer aquilo. Eu insisti. Ela precisava começar logo, antes que colocassem aquela substituta horripilante em seu lugar.

Um apresentador de smoking falava ao microfone, agradecendo à dupla de moças que deixavam o palco. Todos aplaudiam energicamente. Ele anunciou a primeira dama para que começasse o discurso. Mamãe tentou fugir, mas empurrei-a em direção ao feixe de luz amarela e ela acabou parando frente ao púlpito, com dois microfones saindo pelo tampo de madeira. Os aplausos foram cessando e ela disse:

— Oi.

Os murmurinhos começaram a tomar o salão. Ninguém começava um discurso com “oi”, ninguém em pleno controle das capacidades mentais.

— Mamãe, o que há? — eu sussurrei atrás das cortinas.

Ela bateu com os dedos no microfone duas vezes, pigarreou e continuou.

— Meu irmão mais velho é um fascista. Ele fez um inventário de todos os objetos e pertences do papai, antes de ele morrer, quando ainda estava hospitalizado com tubos em sua cara.

Eu arregalei os olhos para o meu parceiro e vi minha expressão arrebatada refletindo nas lentes de seus óculos redondos. Balancei a cabeça, sem acreditar.

— Ele listou cada prato, cada disco, cada quadro e mesmo os lustres da casa. Propôs que deveríamos pegar de volta todos os presentes que havíamos dado ao papai e à mamãe, ao longo da vida. Depois que deveríamos sortear todo o resto, dos móveis, eletrodomésticos e objetos de decoração que houvesse naquela casa enorme. Fizemos praticamente um bingo de Natal com todas as posses da família. — Ela riu alto e seguiu. — Era uma tradição na família fazer um sorteio na ceia de Natal, meu pai colocava quantias diferenciadas de dinheiro nos envelopes e sorteava para cada filho e filha, genro e nora, neto e neta da família de quase cinquenta pessoas. Todos os anos era um alvoroço para saber quem tinha ficado com o envelope vazio e com o envelope de duzentos golpinhos.

Eu não conseguia acreditar que minha mãe acabara de dizer “golpinhos” em frente de toda a imprensa e alto escalão social, como se fizesse uma piada corriqueira.

— Mas não bastava o inventário, não. Ele precisava controlar a vida de cada familiar, ordenando o que profissão deveríamos ter, que emprego aceitar e qual dívida pagar primeiro. Ele estacionou seu carro zero na rua de trás para que não víssemos que tinha um carro novo, enquanto voltávamos para casa numa motocicleta barulhenta debaixo de chuva. Não foi capaz sequer de nos oferecer uma carona para casa, pois tinha uma compromisso às seis da tarde.

As pessoas continuaram murmurando, o salão estrondava de tanto falatório. Obviamente algo estava errado, minha mãe não dizia coisa com coisa. Era filha única, para começo de conversa e eu não fazia a menor ideia de onde ela tirara aquilo.

— … ele encaixotou a casa toda em módulos plásticos desinfetados, fotografou as prateleiras de livros para que arrumássemos na mesma ordem quando fossem desencaixotados. Veja bem, naquela época, as câmeras eram analógicas, gastamos uma dinherama para revelar as fotografias esdrúxulas das prateleiras. — Do outro lado do palco, vi dois seguranças brutamontes em seu ternos pretos falando em seus fones de ouvido e atravessando o palco em direção de mamãe. — Eu fui obrigada a comer um bife de fígado mal passado à mesa de jantar e engolir. Ele ficou parado do meu lado esperando que eu engolisse aquele negócio atordoante que me deu náuseas.

Os dois seguranças agarraram-na pela cintura e arrancaram-na do pulpito, enquanto ela gritava:

— Eu só queria vomitar!

Eu corri atrás deles quando os holofotes se apagaram repentinamente. Corri para os bastidores, tentando resgatar mamãe. A última coisa que vi foi um deles tampando sua boca e suas narinas com um pano branco, ela fechando os olhos desfalecida e sendo jogada para dentro de um carro preto, que acelerou de imediato.

Meu peito doía, eu arfava sem conseguir respirar, como se estivesse afogando. Queria gritar, mas minha garganta se fechara de repente. Então tudo ficou preto, perdi os sentidos e apaguei.

 

Abri os olhos.

Era uma noite importantíssima n’A Casa, que estava abarrotada de produtores e o alto escalão da elite paulistana. Após um hiato de dez anos, montaram aquele circo com direito a gin tônica e cinta-liga. Muita fumaça de gelo seco sobre o palco, tapetes pendurados ao redor dos instrumentos e embaixo da bateria. E eu de chinelos.

Ao mesmo tempo em que queria provar meu enorme sucesso à minha mãe, eu não podia deixar de querer frustrá-la com a minha embriaguez e autodepreciação. Eu sequer havia tomado banho. Trouxera comigo aquele hipster nojento que usava gel nos cabelos e na barba. Ele tinha um nome falso, mas tampouco era meu fornecedor de drogas, embora agisse como tal. Vestia-se da melhor maneira possível capaz de enganar os olhos da mais esperta das mães, mesmo que tivesse um saquinho de pó no bolso da camisa acetinada de mangas desabotoadas. Minha mãe, uma mulher esnobe e culta, não se cansava de me criticar, eu não me cansava de lhe dar os motivos. Era nosso xadrez secreto, nossa valsa invisível.

Eu era uma trintona magrela, o rosto ossudo, portava-me com a classe de uma artista despojada. Uma figura invejável, a garota que toda garota gostaria de ser. Como se não bastasse, eu era empoderada e sabia dizer deixar os jornalistas sem palavras. Hoje era minha reestreia como carreira solo. Vivíamos uma época sem um presidente eleito, mas com artistas que não tinham medo de derrubá-lo. E eu, como a boa salvadora da pátria que era, certamente teria os alfinetes certos pra incomodar aquele furdúncio nacional. A mais aclamada pelos radicais, berravam as manchetes.

Nem passava pela cabeça de mamãe, no entanto, que algum sujeito mal intencionado tivera um mirabolante plano de cercear-me e por em ação um golpe estapafúrdio bem debaixo do meu nariz empinado, naquela noite. Pois quando ela adentrou o camarim, em vez de abraçar-me deparou-se com outra super estrela da nova música brasileira.

— Tu não eres minha filha.

A garota quase idêntica vestia-se numa minissaia de couro preto e uma frente única dourada. Arrebatadora, porém tão brega quanto os artistas às vezes conseguiam ser. Eu jamais usaria aquilo. Não. Ela arregalou os olhos, enquanto produtores e músicos silenciaram em sofás de tafetá ao redor da mesinha de centro, cuja superfície estava suja de carreirinhas de cocaína e taças de vinho. Ela correu dali sozinha, pelos corredores da boate. Tinha que me encontrar, antes que anunciassem minha entrada no palco e antes que aquela cópia fajuta resolvesse cantar em nome do povo. Ou pior, em nome do Estado.

Não. Ela tinha que dar um jeito naquilo. No fim, ela seria a boa salvadora da pátria, naquela noite. Ou, ao menos, tentaria.

Correu por aquele corredores de parede fosca com rabiscos de giz em dizeres sujos e desenhos pornográficos. As luzes estavam acesas, no entanto corredores de boate sempre são muito escuros e nenhuma janela. Abriu uma porção de portas, que davam em depósitos de instrumentos e cenários quebrados. Infinitas portas destrancadas, ela correu esbaforida e amaldiçoando silenciosamente por estar usando saltos. Eu tinha razão em sempre lhe dizer que nunca era bom usar saltos em eventos, a não ser que fôssemos ficar sentada. Não se lembrava porque não colocara um par de tênis antes de sair, deveria haver um bom motivo.

O corredor chegava ao final e ficava cada vez mais barulhento, à medida que se aproximava do salão principal, com suas mesinhas antas e sem bancos, copos longos de gin tônica e velas aromatizadas. O salão estava repleto de gente importante, ela não reconhecia ninguém, eram todos completos estranhos sem face arrotando seus discursos falaciosos e mastigando bolinho de aipim recheado de carne seca. Ela torcia para que estivesse estragado.

Uma dupla de rapazes fazia um jogral no palco, com máscaras de gesso e usando cintos com pênis de silicone coloridos. Ela nunca vira alguém usar uma cinta-pau antes, mas não se impressionou. Encontrar-me era mais importante do que qualquer outra coisa, naquele momento. A bandeira nacional estava pendurada e pixada com os dizeres “desordem e regresso”. Por um breve instante, mamãe sorriu de soslaio por ver o símbolo nacional vandalizado, queria ver o país todo vandalizado daquele jeito. Vez ou outra, ela acreditava que a idolatria por aqueles símbolos nacionais era um tanto doentia.

Meu parceiro de camisa acetinada e nariz protuberante cutucou meu braço para que eu olhasse. Indicou-me uma mesa pequena à direita, onde a vi destacada na multidão, sobre seus saltos enormes e desconfortáveis. Meus olhos estavam alertas e arregalados, eu via vultos e as luzes coloridas embaçavam minha visão.

— Mamãe?

— Filha, que bom te ver!

Não era possível que, numa situação daquelas, ela achasse bom me ver, ainda mais da maneira selvagem com que eu me vestia e lhe desprezava, no meio daquele recinto sujo.

— Filha, vem. Precisamos preparar-te para subir ao palco, está na hora.

— Não… o que…?

— A canção, filha. A canção.

— Eu não consigo, não consigo me lembrar.

— Fique calma, é só respirar. Ensaiaste milhões de vezes em frente ao espelho. Estou certa de que está na ponta da língua. Basta concentrar.

Puxei-me pela mão, arrastando para a entrada lateral do palco. Ela estava nervosa e receosa de subir. Fiquei balbuciando que não ia conseguir, resmungava sem parar lhe pedindo para não fazer aquilo. Ela insistiu. Eu queria fugir, ela  me emprestou seus sapatos e eu não fazia ideia porque ela queria me ouvir cantar.

Um apresentador com o rosto coberto por um pano preto falava ao microfone, agradecendo à dupla de mascarados que deixava o palco. Todos aplaudiam energicamente. Ele anunciou a meu retorno aos palcos para que começasse o show. Eu tentei fugir, mas mamãe empurrei-me em direção ao feixe de luz vermelha e acabei parando frente ao microfone de rádio, que descia pendurado por um cabo. Os instrumentos começaram a tocar e eu disse:

— Oi.

Os murmurinhos começaram a tomar a casa. Ninguém começava uma canção com “oi”, ninguém em pleno controle das capacidades mentais.

— Gata, o que há? — Sussurrou o guitarrista atrás de mim.

Eu bati com os dedos no microfone duas vezes, pigarreei e cantei.

— Meu ex namorado é um comunista. Ele planejou um golpe pra guilhotinar esses fascistas. Queria assistir o interino na cama do hospital a definhar, com tubos saindo das veias, e morrer até o sangue secar.

O baterista arregalou os olhos para o meu parceiro que tocava baixo e vi minha expressão alucinada reproduzindo no telão. Balancei sobre os saltos, sem cair ou torcer os pés.

— Ele listou cada golpista, cada peême, cada parente dos deputados sujos da capital. Propôs que deveríamos escalpelar de volta todos os coxinhas que haviam tomado o poder, e jogar as cabeças pelo planalto nacional. Depois que deveríamos incendiar todo o palácio da alvorada e queimar cada objeto nacionalista que houvesse naquela casa. Montar praticamente uma fogueira de Sabbath com todas as posses da família tradicional brasileira. — Eu ri alto e segui. — Porque é uma tradição institucional esse sorteio das cabeças a rolar em pleno carnaval. Eles usam envelopes de dinheiro nas cuecas e maletas de seus párias, pra cada filho e filha, genro e nora, neto e neta das suas capitanias hereditárias. Toda eleição é um martírio para saber quem vai ficar com o envelope vazio e com o envelope de um milhão de golpinhos.

Eu não conseguia acreditar que minha acabara de dizer “golpinhos” em frente de toda a imprensa e à esquerda caviar, como se fizesse uma piada nada corriqueira.

— Mas não bastava o golpe comunista, não. Ele precisava controlar a vida de cada cidadão, ordenando o que profissão deveríamos ter, que emprego aceitar e qual dívida pagar primeiro. Ele estacionou seu carro zero na rua de trás para que não víssemos que tinha um carro novo, enquanto voltávamos para casa numa bicicleta enferrujada debaixo de chuva. Não foi capaz sequer de nos oferecer um governo justo, pois tinha uma compromisso às seis da tarde.

As pessoas continuaram murmurando, o salão estrondava de tanto falatório. Obviamente algo estava errado, eu não dizia coisa com coisa. Eu não era compositora, para começo de conversa, e eu não fazia a menor ideia de onde eu tirara aquilo.

— … ele me abandonou depressiva e aos prantos, quis minha cabeça num saco plástico e me ver sufocar, depois fotografar o meu fracasso pra me tornar mártir suicida, um símbolo do regime comunista. Eu ia aparecer nos livros de história, nos jornais como mulher sem pátria e sem marido. Veja bem, naquela época, a internet ia fervilhar, com meus autorretratos, uma arte conceitual, ele não gastaria um real para revelar as fotografias esdrúxulas do meu declínio mental. — Do outro lado do palco, vi dois seguranças brutamontes em seu ternos pretos falando em seus fones de ouvido e atravessando o palco na minha direção. — Eu fui obrigada à minha morte virtual, como um prato principal à mesa de jantar. Ele surgiu à minha porta, armado, esperando que eu morresse na sua frente, mas aqui dentro minha única vontade era…

Os dois seguranças agarraram-me pela cintura e arrancaram-me do microfone, enquanto eu gritava:

— …vomitar!

Mamãe correu atrás deles quando os holofotes se apagaram repentinamente. Correu para os bastidores, tentando resgatar-me. A última coisa que vi foi um deles tampando minha boca e minhas narinas com um pano branco, senti um cheiro forte e desfaleci, meu corpo doeu insuportavelmente, de imediato.

Meu peito doía, eu arfava sem conseguir respirar, como se estivesse afogando. Queria gritar, mas minha garganta se fechara de repente. Então tudo ficou preto, perdi os sentidos e apaguei.

Tiraram minha cabeça da água. Eu acordei e nada daquilo havia sido real. Eu sabia, era uma matriz forjada numa inteligência artificial robótica. A realidade estava ali, naquele falso batismo, de enfiar a cabeça embaixo d’água, obrigando-me a ter uma experiência sensitiva e intensa, pra que eu acreditasse que fosse real. Não era.