Ensaio sobre os não toques

Ele assobiou três vezes no portão, como se fazem os apitos escoteiros às tardes de sábado. Era terça-feira. Ela, no auge da sua moda para dias depressivos, abriu a porta com um moletom cinza surrado e uma camiseta de banda alternativa, onde se lia Carne Doce. Ele pensou que o nome da banda combinava com ela e o gosto que ela deixava às vezes quando passava pela sua boca. Seus olhos fundos e tristes diziam que ela tinha dormido mal e estava cansada. Do mundo.

Ele estacionou a bicicleta na garagem, deu aquele abraço longo e se encostou suado no cangote. Ela parecia uma estátua, organicamente cheia de medos ou anseios, não se sabia bem o quê. Estava fria como mármore, que o rosto dele chegou a colar na sua pele instantaneamente.

Entraram pelo portal azul, onde ele adentrou pela primeira vez em sua casa, cheia de quadros e adereços de decoração por toda parte. Tudo tão colorido e cheio de vida, que era até irônico que ela aparentasse estar tão doente naquele dia, como se tivesse apenas sobrevivido. Mais um dia, menos um dia.

Ela lhe apresentou o resto da casa e seu quarto, como se fosse uma vendedora de móveis numa loja de departamentos. Falava mecanicamente, como se tivesse engolido uma fita cassete programada para dar as boas vindas. Ele sentou em sua cama, como se já fossem amantes de longa data, tirou os sapatos, trocou a camiseta por uma limpa para deitar ao seu lado. Preocupado até em não sujar os lençóis com o cheiro do treino de escalada.

Ela ligou um episódio no computador e seguiram momentos silenciosamente tensos. Ambos com suas dúvidas sobre o que fazer ou o que dizer. Não fizeram nem disseram nada. Encostaram as cabeças, quase dividindo um mesmo travesseiro, respiraram, esperaram o episódio acabar.

Ao final, ela estava calma, terna. Como se tivesse lido o script de um roteiro antes de estar ali, como se soubesse exatamente como as coisas se dariam dali por diante. Essa certeza nos olhos dela o desesperou de tal maneira que a única reação foi aceitar o convite para uma cerveja.

Ela abriu a garrafa tranquilamente, deslizando pela cozinha, contando sobre alguma coisa que nem fazia sentido. Ele precisou lembrá-la de brindar os copos, olho no olho, pra valer o brinde.

Enquanto ela falava sem parar sobre as coisas completamente brutais da vida, ele pensou que ela ficaria bonita colocada dentro de uma redoma, protegida. Porque parecia que a qualquer momento poderia trincar e se partir em mil pedacinhos, feito uma rara porcelana. Ele, como bom porco-espinho que era, provavelmente só arranharia a porcelana. Quanto mais ela matraqueava, mais ele percebia que ela já havia se partido e se colado tantas e tantas vezes, que talvez, por isso, fosse tão rara. E possivelmente muito mais resistente do que qualquer outra porcelana.

Talvez ela fosse muito mais cola do que porcelana. Endurecida com a violência do mundo que havia enfrentado. Ele queria decifrar como ela conseguira sobreviver a tantas rupturas. Queria desmontá-la e remontá-la como um quebra-cabeça, tirar sua roupa, criptografar cada cicatriz e tatuagem, tocar lentamente todos os rabiscos e rachaduras de seu corpo, até decorá-lo dos pés à cabeça.

No entanto, num breve toque em seus joelhos, ela estremeceu e ele entendeu que tinha avançado demais em seu território tão milimetricamente seguro. Ele quase se desculpou. Me desculpe por te assustar, ele pensou. Enquanto isso, dentro dela, engrenagens se mexiam freneticamente cheia de ruídos, que ela quase deu um berro pra que se calassem. Ficou com medo que ele tivesse ouvido todo aquele rebuliço mental que fervilhava internamente.

E então ele foi embora.

Partiu em alta velocidade sobre sua bicicleta na rua escura, até sumir de vista. E ela, querendo silêncio, estava atordoada com o barulho que aquela visita lhe tinha trazido. Como se tivesse surrupiado alguma coisa de sua casa. Nada havia sumido, tudo estava em seu devido lugar. O que estava mudado era outra coisa: a bolha da zona de conforto se havia estourado. Era o que os espinhos faziam: espetavam. E a ventania fustigava estrondosamente ali dentro.

 

 

mão quente, coração gelado

olá estranho essa noite chove sem melancolia é algo como uma sutileza dos dedos escorregadios nos antebraços suas mãos tem resto de cola que na minha é lavável e sai quando lavo na pia mas tem coisas que não lavam quando chove a urgência não se esvai na chuva o desejo não se esvai na chuva o anseio não se esvai na chuva e o beijo não derrete na chuva na receita não vai açúcar e o tempero não se dissolve o gosto ainda é de primeiro beijo quando chega na calçada que muda de nome e número não me lembro das placas mas sei que era vinte e três subindo as escadas à direita o teto não caía porque as pilastras seguravam de maneira decorativa o espelho não caía porque a gente dançava um dueto inventado em fluxo de tango os olhos não caíam porque outros olhos aguardavam firmes não tem uma bandeja servindo os pedidos do peito esquerdo para guardar na redoma os olhos não caíam porque eram as redomas e o pedido estava guardado ali dentro cristalizado como uma urgência como um desejo como um anseio que não derreteram na noite de asfalto molhado e se fosse açúcar seria caramelo porque tudo queima nas mãos quentes e vira cristal de gelo até no seu coração gelado ponho pra ferver e bebo-te depois pra matar a sede de manhã

escadarias antigas

Entenda que você não foi vão. Você foi uma escadaria que já estava destruída e a qual precisei percorrer de joelhos. Eu, destruída, também me despedacei mais um pouco nessa tortuosa subida. Com meu desleixo e desastre, despedacei seus rebocos. Saímos dessa subida, um pouco – ou muito – mais destroçados que antes, e mais cansados e desgastados que antes.

Minhas feridas e cortes demoraram tanto pra cicatrizar e eu precisei me sentar por um tempo pra recuperar o fôlego, as energias, as forças. Se antes eu mal podia seguir em frente, depois disso, foi ainda mais difícil. Precisei ficar aqui parada assistindo a vida passar, até que minha pulsação estivesse estável novamente e eu segura de que meus pés seriam capaz de dar passos.

Os primeiros foram vacilantes e, aos poucos, recobrei-me de mim mesma e hoje consigo dar largos passos, subir degraus mais distantes, onde nem sonhava caminhar antes. Obrigada por me fazer resistir e ser forte.

Hoje avanço sobre a vida, mordo a vida, escalo a vida e beijo a vida com um tesão e vivacidade que eu nunca tive antes.

[dedicado aos amores passados]

mordi a vida como quem morde a língua

é tão verdade que a arte imita a vida, mas tão mentira.

toda arte imita, mas a poesia é a única capaz de ser verdade absoluta a respeito do que vivemos. vide os piriguistas. sem desejo, sem suor, sem sexo, sem lambida, sem beijo – não existe qualquer poema.

mas deixemos, por ora, o erotismo de lado. que ultimamente não me convém. vamos falar de sufoco: esse que enclausura o pomo na sua garganta enquanto você assiste a arte. hoje eu consumi arte numa performance perturbadora, dei uma baita mordida. esfomeada, desesperada, quase engasguei.

certos pedaços de arte não dá pra mastigar. antes que a gente pense em mastigar pra digerir melhor, foi tarde, já engoliu-se inteiro. no amor, também funciona assim. antes que desse pra pensar, eu te engoli inteiro.

desculpa.

a vida pesa tanto, sabe. os ombros pendem com as mochilas, os varais pendem com as roupas. caímos. às vezes de joelhos, às vezes de cara. nem sempre pra fazer um boquete que se preze. nem pra isso. aliás, nos últimos tempos, tem servido apenas para arranhões e cicatrizes. o que são uns pontos a mais na costura intrínseca da vida?

veja que não te faço perguntas retóricas. eu realmente queria saber. como você está e se perdeu peso como eu e se está pálido de tanto se ocupar com burocracias fúteis e deixar a vida passar e me deixar passar e atravessar a rua. suas mãos abanando e as minhas segurando o guarda chuva. bem que podia estar segurando outra coisa…

as reticências imitam a vida: minhas insinuações sempre foram tão claras que desbotaram quando pendurei no varal para secar. os desenhos da rafa continuam mais bonitos, os cabelos da ori vão crescendo, a boca da bia deixa saudades, a luísa mandou abraços – já eu: que te ofereço além do caos?

bom, eu continuo poesia.

aquele amor que tivemos

A falta que eu devo fazer se compara ao meu sofá. Sento-me aqui, tiro as roupas e as censuras. É noite, quase fria de semiestação. Vejo um filme e admiro a fotografia arquetípica e encaixada. Cidades urbanas que tanto gosto, tem gosto do cigarro aceso aqui neste cinzeiro novo. Eu fumo meu cigarro, com a pele. Visto somente uma calcinha blasé e sem graça. Mas eu gostava que você me achava sexy assim mesmo. Pedia-me pra fumar nua e você me assistir enquanto escrevo, ou canto ou penso na vida. Era aquele nosso silêncio que fazia sentido. Eu pintei minhas unhas, ficaram toscas e mal feitas. Eu sou um desastre para as coisas comuns e você me assistia. E eu ficava pendurada em seu sorriso, aguardando. Você gostaria desse filme que escolhi agora, desta cerveja que escolhi agora, desse silêncio que escolhi agora. Eu guardo uma nostalgia, mas não me deixa vazia. Por sinal, me preenche momentaneamente essa saudade. Feche os olhos e sinta meu beijo com gosto de cinzas. Acabei de tragar outro suspiro por saber que um amor assim foi bem feito por um tempo e me bastou.

existe amor em sp

Saímos do buraco, depois da escada. Era como um bueiro paulistano na chuva, transbordando, só que as pessoas. De repente não era mais uma rua vazia. Não dava pra saber onde ou o quê: calçada, guia, rua, pavimento, praça, escada. Era um movimento de mar descontrolado em que todos com seus rumos individuais não se atinham à direção. Nós paramos numa orla, para respirar. Acendemos um cigarro, com seu brilho em meio à noite. Eu pensei que um relacionamento era como um cigarro aceso. Dá um alívio enquanto tragamos cada milímetro do tabaco, injetando em nossas veias e cérebro a sensação de que vai dar tudo certo, ou que mesmo que não dê, está bom assim: nós e o cigarro. Então podem acontecer duas coisas: ficamos com pressa e largamos o cigarro queimando num canto sujo da rua; ou o cigarro apaga.
Em ambas as situações, o resultado é o mesmo: o gosto amargo. Se eu não tomar um café ou mascar um chiclete, parece que não passa esse gosto e esse cheiro nas minhas roupas, não passa. Então andamos, andamos, pra onde eu não sabia. Andamos passando por todos os rostos sem foco, por umas esquinas com suas histórias de tragédia, amor e fracasso, por corpos acesos se consumindo na madrugada. Aquelas ruas guardam tudo, uma avalanche, ou mesmo não guardam. Expõem. Ali na multidão estamos na vitrine sem saber quem observa, sem saber que alguém repara um minuto da vida que não faz sentido nas ruas. Peço o isqueiro enquanto percebo aos poucos que acender outro cigarro não era resolver as ânsias, havia algo ali naquelas pessoas me contando como era possível tragar outra coisa do cigarro sem ficar amargo. Senti-me tocada por eles, ali no meio dos outros se contracenando num minuto de romance esquecido, apagado, escondido pelo excesso de gente. Mas ali, no meio da praça ou da rua, eu não sei, eles amavam. Então devolvi o isqueiro ao bolso e o cigarro à caixa. Aquele tipo de amor não era tão consumível, não tinha aparência de brasa, nem cheiro impregnado. Ele acontecia à volta sem percepção, eu mal me dava conta de que sem estar você estava ali e não tinha gosto de cigarro.

retrato dele

(para Dan)
Ele se foi coberto. Seus cílios longos, a alma afiada afora. Mais afiada. Que o que se atinge depois é com os golpes, com o sorriso, os minutos. O diminuto compasso de desenhar, riscar, ferir com o fel enviesado. Despedaçou-lhe, cada um dos órgãos, dilacerou tudo. Colocou tudo do avesso pra ver se o sangue é vermelho, que é tão mais vívida a pulsação que vai morrendo quando escorre. Anota-se todos os passos, na ordem correta – escreve-se uma receita do prato principal. Ele é pouco dificilmente reconhecível: feito de desvios, paradoxos e discursos cozinhando em banho maria pr’aquilo que é a longo prazo. E dizer sua covardia com palavras de carinho. É possível materializar abstratamente todas as exigências da alma com um pouco de sono, de esquecimento e aquela mentira que vem pra esconder o que foi consciente. Ele veio trazer sua panela de água fervente, em troca deixou só queimaduras de terceiro grau e uma febre crônica de quando se toca aquela mesma música, ou qualquer outra que for conveniente. Pede ausência, silêncio e o que não puder ser desocupado com nenhum dos dois. A janela sem cortinas, uma prova do que há lá fora.

É vento demais.

à cervical

A libélula partia, fim de outono, poucas folhas em melodia crescente de meia lua. Uma metade das cordas e os timbres partidos na solidão plena das suas asas. Pouca liberdade era pouco. Orvalhos roucos que passam a noite em claro, soro sagrado da tez das folhas, dedos leves pelo ombro da copa da floresta negra. Lentidão da abóbada que observa atenta os medos dos olhos. Oráculos mudos do futuro que desenham tatuagens na terra, fotografias amassadas que alimentam a fogueira. Labaredas dos pés fugidos e descalços. Chão nu e tenso debaixo da madrugada. Sacerdotes do silencioso céu, apostando contra a derradeira estrada vazia, a única linha através das cores. Verdades intactas dento das palmas cerradas e sopro esquivo da cervical dos sentidos estendidos. A libélula pousava, início desconhecido, folhas desintegradas, meia lua crescente na melodia. Cordas partidas e timbres soltos no vagar das asas. Muita liberdade era pouco. Noite rouca clareando os cantos dos dedos, sopro sagrado entre os orvalhos das folhas. Abóbada dos olhos atenta ao lento medo. Futuro mudo do oráculo que tatua fotografias na tez da terra, as labaredas amassadas pelos pés descalços na fogueira. Céu nu e tenso sobre o silêncio e sacerdotes da estrada fugidia, apostando contra o chão intenso. Única dor através das linhas das palmas vazias e intactas por dentro das verdades encerradas. Sentidos esquivos do sopro vital da extensa cervical.