que se no chão das coisas a gente se deita pra olhar estrelas e não tem cidade acesa por perto eu sinto o calor das pedras e o calar do seu semblante viemos pra escurecer outro dia e esperar nascer de novo sentir o chão esfriar enquanto continuamos aquecidos na lareira dos nossos amores impossíveis onde sempre vamos pondo lenha e vendo queimar e nos queimando junto virando cinzas sem nunca apagar

brisa de praia I

disse a praia vazia:
posso cantar enquanto você é silêncio, posso calar-me enquanto você é barulho, posso ser mansidão ou tormenta e trago a temperatura enquanto você traga fumaça.
conheço um mundo do qual você nunca ouviu falar,  profundo e temeroso, você desconhece o temor, nem sabe de deus nem de infernos sacros.
você só evita meu beijo pra não se afogar, que minha canção é sereia nos seus medos e pudores.
quem você mataria hoje?

brisa de praia II

se eu fosse peixe, eu mergulhava. mas descobriram que sou ostra, então afundo e engulo os soluços que viram pérola.
minha poesia se chama pérola e o teu beijo se chama areia, que esquecida em meu cativeiro transformou-se em obra prima da natureza. seja areia que te escrevo pérola todo dia e te faço um colar, embora eu que seja a dama. depois me presenteia com essa coleção de versos ululantes que abraçam o mar.

riscos sob dedos

com os olhos fechados, você me lia com as mãos, cheio daquele mesmo cuidado com que manejava seus vinis, passando pelas bordas e, linha por linha, como que só de tocar pudesse ouvir a música, sinto como se eu cantasse dentro silenciosamente pra você acompanhar no seu violão invisível alguma canção que não inventamos ainda, mas que já existe quando nos beijamos, quando nos pegamos, quando nos catamos aos cacos, quando nos quebramos em notas semiafinadas, quando nos ruímos feito prédios antigos ou almas antigas, quando nos chocamos como um acidente de trânsito ou um reencontro cósmico-vascular, quando nos queremos sem que nada impeça, quando perdemos a razão e fechamos os olhos, você me lê com as mãos e está cheio do seu cuidado com que escolhe seus vinis, coloca a agulha sobre as digitais e me toca, me toca, me toca até os ouvidos cansarem com a nossa falta de fôlego.

túnel

dentro de um túnel, está vazio e noturno. as luzes amarelas acesas falham. eu sei que se eu continuar caminhando, vou chegar à luz do dia. você me emprestará um isqueiro pra acender meu cigarro, com seu sorriso de coisas bobas. vejo o contorno da sua sombra, quero te cantar uma música nova que ainda não compus. uma melodia estranha que você ouviria enquanto os muros caem. mas aqui diante de você eu só me sinto assustada. fico emudecida, quero me esconder atrás de qualquer arbusto. quero só te olhar de longe, sem o risco do encontro. admirar o que talvez tenha sido um amor de uma calçada na paulista e algumas escadas rolantes. e depois fugir. vou correr quilômetros por dentro desse túnel, continuar no escuro. aqui não chove, estou segura e seca, longe da sua boca.

mão quente, coração gelado

olá estranho essa noite chove sem melancolia é algo como uma sutileza dos dedos escorregadios nos antebraços suas mãos tem resto de cola que na minha é lavável e sai quando lavo na pia mas tem coisas que não lavam quando chove a urgência não se esvai na chuva o desejo não se esvai na chuva o anseio não se esvai na chuva e o beijo não derrete na chuva na receita não vai açúcar e o tempero não se dissolve o gosto ainda é de primeiro beijo quando chega na calçada que muda de nome e número não me lembro das placas mas sei que era vinte e três subindo as escadas à direita o teto não caía porque as pilastras seguravam de maneira decorativa o espelho não caía porque a gente dançava um dueto inventado em fluxo de tango os olhos não caíam porque outros olhos aguardavam firmes não tem uma bandeja servindo os pedidos do peito esquerdo para guardar na redoma os olhos não caíam porque eram as redomas e o pedido estava guardado ali dentro cristalizado como uma urgência como um desejo como um anseio que não derreteram na noite de asfalto molhado e se fosse açúcar seria caramelo porque tudo queima nas mãos quentes e vira cristal de gelo até no seu coração gelado ponho pra ferver e bebo-te depois pra matar a sede de manhã

psicopata vingando amor

Os degraus foram preenchidos por uma multidão de pessoas desconhecidas e eu senti como se no meu crânio tivesse passado uma manada, derrubando tudo pelo caminho. Eu quero um copo de gin gelada. Somos animais domesticados e comportados, mas deveríamos estar dançando enquanto a banda toca. Sopros profundos de uma profundeza humana incompreensível. Viemos dos ocos do mundo e ouvimos sua sinfonia além-túmulo, de gente morta que vive pra sempre e continuamos seres vivos que morrem pra sempre. Eu ficaria feliz se você no auge da sua sociopatia adentrasse a arena com uma metralhadora e derramasse sangue que escorreria até a lagoa. E os ruídos da jazz sinfônicas abririam alas para nossa passagem espiritual enquanto você sangra em riso quente me assistindo morrer. Eu não sangro, eu te aceno agradecendo.

notas de violão

Eu poderia

viajar cem quilômetros, nadar um mar de tubarões a braçadas rasas, primeiro aprender a nadar e a pilotar uma motocicleta, comprar um jipe, rasgar a porta da barraca ou rasgar meu peito em chamas, chorar por madrugadas até ficar sem ar, doer até ficar sem ar, desenhar aquarelas com os dedos, tingir meu corpo de tatuagens pra me lembrar que a vida dói, cortar as unhas antes de arranhar as costas, cortar os cabelos mais vinte estações, pular vinte estações pra ver a mesma despedida, trancar o portão, abrir o cadeado da fonte dos cadeados, comer um churros sozinha e beber um drink sozinha, ir à praia de topless e fotografar a nudez humana dos moribundos, colocar  lixo na rua e transbordar a lata de lixo com rascunhos, rasgar as velhas cartas e rasgar meu peito em chamas, rir por madrugadas até ficar ser ar, beijar até ficar sem ar, rabiscar formas geométricas entre os enunciados, tingir os cabelos pra me lembrar que a vida é passageira, ver os cabelos caírem e crescerem novamente,  andar descalça no asfalto quente, tirar os saltos, usar cílios postiços e ser uma mulher postiça pra enganar quem vê, não usar maquilagem pra enganar quem vê,  vasculhar o lixo atrás de arrependimentos, colocar meu disco preferido pra tocar, desligar o som e meditar, recitar uma nova oração numa língua desconhecida, escrever uma palavra nova com significado importante, compôr uma música que só é verdadeira agora, descobrir a apatia e que estar alheia é normal, desligar o corpo da mente, rasgar fotografias mentirosas ou rasgar meu peito em chamas, montar um mosaico, picotar a cara de quem feriu as entranhas, lamber o próprio sangue, estancar o próprio sangue, escorrer o mundo na privada de um banheiro público, vomitar as dores que não são de um parto, parir uma nova criatura, empilhar tijolos com cimento, quebrar o vidro da janela do vizinho e quebrar um copo com as mãos fortes, gritar de raiva e de tesão, construir a própria bicicleta e escrever um poema na parede, pixar o muro da via pública e rasgar comprovantes de crédito pessoal ou rasgar o peito em chamas, colocar um piercing no mamilo pra lembrar que a vida dói mas o corpo pode doer mais
e se um dia eu pensar em amar de novo, eu vou pensar primeiro em comprar um violão e aprender a tocar minhas canções sobre amores não correspondidos.

escadarias antigas

Entenda que você não foi vão. Você foi uma escadaria que já estava destruída e a qual precisei percorrer de joelhos. Eu, destruída, também me despedacei mais um pouco nessa tortuosa subida. Com meu desleixo e desastre, despedacei seus rebocos. Saímos dessa subida, um pouco – ou muito – mais destroçados que antes, e mais cansados e desgastados que antes.

Minhas feridas e cortes demoraram tanto pra cicatrizar e eu precisei me sentar por um tempo pra recuperar o fôlego, as energias, as forças. Se antes eu mal podia seguir em frente, depois disso, foi ainda mais difícil. Precisei ficar aqui parada assistindo a vida passar, até que minha pulsação estivesse estável novamente e eu segura de que meus pés seriam capaz de dar passos.

Os primeiros foram vacilantes e, aos poucos, recobrei-me de mim mesma e hoje consigo dar largos passos, subir degraus mais distantes, onde nem sonhava caminhar antes. Obrigada por me fazer resistir e ser forte.

Hoje avanço sobre a vida, mordo a vida, escalo a vida e beijo a vida com um tesão e vivacidade que eu nunca tive antes.

[dedicado aos amores passados]