beiral noturno da janela

a noite nada mais é do que dois cafés
uma cinta liga de clichês
um coro de memes em dissonância
o sopro das cinzas pela janela
a luz amarela do poste
versos mal feitos pro seu amor
que de amor nada tem senão as favas e as velas
reza pro santo do oitavo dia
a descrença de ramos e de reis
janeiro está longe
viajamos quiçá pro rio
braços abertos sobre a baía da guanabara
braçadas em vão sob ondas e brisas
daquele trago nas sedas do oriente submerso
a filosofia da perdida atlântida
os cuidados sacerdotais das fadas
o beijo fictício na esquina
as sequenciais dúvidas de se você bem-me-quer
ou mal-me-quer
os quereres fantasiosos dos desbravadores
que nunca tiveram oportunidade
de tentar a praticidade das causas mais nobres
o corpo que fala cativante
as enquetes, as esquetes e as pantomimas
a circunstância do tônus eretus
o prédio, a arquitetura das vibrações
instantes inconstantes e instáveis
instalações por intermédio alheio
dos braços amigos acolhedores
que vão, que vamos, que vai
vai, sim, amiga, que você consegue

brinde à insanidade nua

as folhas secas na garrafa molhada
te tomei minha sede às pressas
as unhas na sua pele
eu rasgando minha garganta
arrancamos as peças de preocupação
passado e futuro desfizeram-se líquidos
só uma dose de presente
despimos os medos
tu me deste sua ansiedade pra guardar na bolsa
eu te dei minha depressão pra guardar no bolso
jogamos nossas insalubridades e bebemos
do copo do desejo

beijos tintos secos

sopro na caverna
sopro na caverna
beijos secos doces
batem na parede
batem na parede

voltam sonhos mudos
em silêncio e asma
roucos como os furos
em peitos desgraçados

sopro na caverna
sopro na caverna
sonhos tintos doces
feitos com embrulho
de presente
[e futuro

mas você não ouviu
e não leu versos meus
tão vazios
mas você não chorou
com a dor feita
de fel e amor

na caverna
fundo oco
obra de arte
natureza morta
somos esta casa
somos esta ponte
somos rio ao longe
somos mata escassa

sopro na caverna
sopro na caverna
beijos tintos secos
feitos de um batom vermelho
roubo um beijo que foi lento

te deixo o sonho
eu te deixo a mágoa
eu te deixo molhado
mas não deixo em paz
não deixo em paz

bate na parede
bate na parede
volta como um soco
[no estômago
[na parede do estômago

batem na parede
batem na parede
socos secos doces

beijam na parede
beijam na parede
sopros doces secos
sonhos tintos e
[bêbados

mais uma dose

diga você
se fosse possível escrever com lábios
qual poesia era feita no beiral do meu pescoço?
se fosse possível desenhar com olhos
qual grafite teria nos muros vazios do meu peito?
se fosse possível compôr com suspiros
qual música tocaria nos meus órgãos internos?

diga-me você
se fosse possível rasgar os desejos
qual peça de roupa se rasgaria primeiro?
se fosse possível apagar as censuras
por onde a borracha passaria primeiro?
se fosse possível derreter as culpas
com que liquidez me beberia vorazmente?

diga então você
quantas garrafas são necessárias esvaziar?
quantas garrafas são necessárias encher?
quantas garrafas são necessárias transbordar?
quantas garrafas são necessárias preencher?

diga-me você
se fosse possível se inebriar
seria de culpa ou de arrependimento?
se fosse possível se embebedar
seria de desejo ou de satisfação?
se fosse possível se embriagar
em quantas doses me tomaria enfim?

Vias engarrafadas

De todas as monotonias cifradas
Cantamos numa aresta
Os desafinos de tantos desejos
Ecos numa parede orgânica
Enquanto os corpos feitos festa 
A consciência toma as rédeas
De nossas mãos temerosas
Que quase se procuram às cegas
A sensatez que silencia o impulso
Contrariados, pescamos uma censura
Que deveria ser jogada do precipício
De olhos fechados num voo livre
Mas calamos nossos olhos e quase

Quase fomos os erros preteridos

até a última rua augusta

Desci naquela calçada, era quase noite, com o mesmo brilho de que eu me lembrava. Mas fiquei tão fascinada pela beleza esculpida pela sujeira que perdi totalmente a lembrança. Fiquei ansiosa pela noite que vinha. Que noite. Olhei pela janela o aconchego dos prédios, fiquei imaginando se havia moradores mas constatei que… não. Não era um lugar familiar, nem um pouco. Ali tudo era construído para a boemia e aqueles que não aprenderam ainda a perder a intensidade. E como estive intensa, sem precisar te dizer. Ah, Augusta, quantas sensações perdidas, não sei nem mesmo por onde andei. Eu me encontro, ainda, tão fascinada por essa misteriosa obscuridade. Quero-te, como engolir a sede e soprar as dores. Não me arrependo de ser tua mais uma vez. Aqui nesta rua não há espaço para culpas. Até a próxima madrugada.

sob os pinheiros

Se eu tiver que pedir socorro, ignore-me. Existe tanta necessidade, que ordem e desejo se confrontam no escuro. Precisamos desocupar nossos corpos, encontrar nosso caos interno que não fica em silêncio. Você vai me esquecer, assim que fechar os olhos. Seu rosto amanhece um borrão embaçado, só refaço seus olhos me buscando onde nada se encontra. Tez & tesão na ponta dos dedos, como digitais que se desmancham. Olhar pra trás, olhar pra trás, por sobre os ombros. Todos observam e sabem. Fonte & fuga nas paralelas das sombras, como fluidos que preenchem os espaços vazios. Não resta nenhum centímetro que não se alcance, tudo é táctil.