beiral noturno da janela

a noite nada mais é do que dois cafés
uma cinta liga de clichês
um coro de memes em dissonância
o sopro das cinzas pela janela
a luz amarela do poste
versos mal feitos pro seu amor
que de amor nada tem senão as favas e as velas
reza pro santo do oitavo dia
a descrença de ramos e de reis
janeiro está longe
viajamos quiçá pro rio
braços abertos sobre a baía da guanabara
braçadas em vão sob ondas e brisas
daquele trago nas sedas do oriente submerso
a filosofia da perdida atlântida
os cuidados sacerdotais das fadas
o beijo fictício na esquina
as sequenciais dúvidas de se você bem-me-quer
ou mal-me-quer
os quereres fantasiosos dos desbravadores
que nunca tiveram oportunidade
de tentar a praticidade das causas mais nobres
o corpo que fala cativante
as enquetes, as esquetes e as pantomimas
a circunstância do tônus eretus
o prédio, a arquitetura das vibrações
instantes inconstantes e instáveis
instalações por intermédio alheio
dos braços amigos acolhedores
que vão, que vamos, que vai
vai, sim, amiga, que você consegue

Retratos de uma viagem

Dez horas dentro do ônibus são o suficiente para bagunçar o ócio criativo. Os feixes de luzes de leitura me bastaram para retratá-los enquanto íamos de Syrius B à fazenda ilhada da psicodelia.

Gratidão pelas parcerias!

quartas no ap. 101

alvorada

vou pendurar uma estrela-do-mar na porta da frente
absorção freática dos cinco pontos cardeais da Terra
alguma antigravidade pra quando não houver rumo
três apitos, todos os pés que correm descalços além
nenhuma rima pra quando houver novas jornadas
na próxima alvorada, não serei versos e sons e vogais
almoçarei as consonantes dos vértices impostos ali
naquele canto em sol menor de uma sexta feira qualquer
quero um sustenido desafinado pra ter que corrigir
eventualmente.

se for preciso eu canto o silêncio
eu planto a solidão e recolho as ternuras dos vasos
as flores acordam nos acordes de um violão desses
isso não me cativa mais, me apaixono pelo que não sei
o desconhecido é mais poético quando é imprevisível