Reza pra Santo Antônio

te querer é uma piada pronta
o avesso do ócio
ecoa uma prece
que a gente nunca se encontre

todo trombamento é uma sombra
te atravesso os olhos
e tu a minha boca
cruzamento no sinal fechado

o desencontro é uma oca ironia
eu te reinvento
e tu a mim socorre
o ludo, a poesia casual e a lâmina

Cabeça oculta

Eu sonho em ver a aurora boreal,
poder sair correndo na areia da lua
e assistir à autopsia do meu cérebro,
mas pra isto eu precisaria morrer primeiro
 
Se eu fosse lixo humano jogaria meu corpo
no vazio espacial, viraria um satélite seco
antes meu sangue teria esvaziado das veias
ao coração e meus órgãos seriam doados
 
Meu corpo façam o que quiserem com ele,
mas abram o meu crânio e dissequem
cada curva da minha débil mente
até que me compreendam como eu
 
Eu jamais me compreendi.

desordinária

desordeno-me
a ser irreparável
dos autodanos
prescrevo-me
o tempo sólido
contra a face
linha lacrimal
rompendo a tez
chagas amantes
autocicatrizes
que saram
que saram
quiçá amam
as próprias histórias
na mesa do bar

fica com o troco

quando eu digo que vou embora

Estou interessada.

Nas formas desencontradas que as baforadas do cigarro fazem no ar. Elas são como todos esses rodeios, os desvios que pego pra não estar até as quatro ou cinco da manhã na sua companhia. Eu podia ser dona do tempo, colocar no congelador, guardar para as próximas doses um pouco do seu falar arrastado. Dar goles dos seus risos quando me desse sede.

Estou correndo de patins numa grande pista, curvas à direita e à esquerda, dançando com o meu desejo frenético de ser sincera a cada vez que o portão se tranca. Nos buracos, tropeço, despedaço-me no chão de cimento, você me chama pra ouvir sua música. Seus segredos caem como gotas de veneno em meu estômago. Cala essa boca.

Poderia jogar pedregulhos nessa sua cara. Eles beijar-te-iam violentos.

Estou interessada nesse minuto de abraço, no soslaio com que me encara, nos joelhos que se esbarram propositalmente, no beijo em meu ombro frio, nos dedos nos meus cabelos, no que eu digo quando não digo nada. Estou interessada no silêncio que existe nas pausas. Essas pausas.

Estou interessada.

sob pixos, bombas de gás e amores atropelados

Eu não te escrevo pra você, eu te escrevo pra mim.

Isso significa muito. Significa que do fundo da minha essência eu queria me contar tudo isso, chamar a minha atenção para o fato de que.

[ainda te amo?]

Seria possível você me ler como se fosse eu lendo pra mim mesma? Faria mais sentido todo esse rebuliço que faço na hora de escrever uma carta. Eu quero me convencer de que é simples, mas eu não te convenço. Eu continuo declarando que isso passou, e passou mesmo. Atravessou, atropelou, tirou o fôlego. Como se no meio das linhas escritas viesse uma frase rabiscada por cima do texto todo. Um pixo. A minha vida é um pixo no muro velho e abandonado. Vai ficar lá escrito e posso passar tinta latex por cima, pintar de branco, deixar o muro novo.

Lá está o pixo, por baixo das camadas que secam.

As pessoas jogam vinagre e tíner. Esfregam pra ver se sai. Mas o pixo – com x mesmo – entranhou-se no concreto. Quando eu jogo vinagre no azulejo e fica um cheiro estranho, eu sei que é o mesmo que beber vinagre: as paredes do estômago sentem muito. Mas no meio das bombas de gás de pimenta, que graças damos ao vinagre. Muito obrigada, vinagre, por me tirar do desespero na multidão. Por um momento eu não podia abrir os olhos, nem respirar. Eu sufoquei tanto como naquelas manifestações de dois mil e treze. Senti-me bandida por brigar por tudo isso, por brigar com você também como se eu estivesse tão certa.

Desde quando sofrer é certo?

Fui arrastada pelas ruas do centro, ali tão desconhecido. Seguia os pés vestidos de all star pra me socorrer do pânico. Era só isso que eu enxergava. Minha única solução foram o par de tênis correndo abaixo de mim, que eu tentava encontrar enquanto meus olhos marejavam. E como num conflito político, como o daquela noite, eu também me arrastei atrás de você pra me safar da escuridão que abraçava. Eu corri atrás dos seus all star vermelhos, como se fosse solução. Mas era desespero.

Sinto muito pela comparação esdrúxula. No fundo você sabe –  e eu também sei – que amor não tem nada a ver com bombas de gás lacrimogênio. Só tento, tento sempre, convencer-me de que tudo foi uma grande confusão. A gente escorregou bem na hora, dançou uma lambada, estrumbicou, ralou o joelho e saiu andando. Tudo ardendo, como no tombo de bicicleta na avenida. Levei oito pontos e uma história pra contar.

E faço disso motivo pra escrever, escrevo sem parar. Na verdade paro, com meus hiatos e silêncios, mas aqui dentro tem uma orquestra tocando sinfonias intermináveis, ribombando todo o sufoco que é soltar as mãos na última hora. Soltei-me e continuo tão viva, embora esfolada.

Eu não me escrevo pra mim, eu me escrevo pra você.

autópsias tumulares

cadavérica
olhos fundos

jaboticabas apodrecidas

conserva azeda
atrás dos vidros

cabelos de defunta que acordou tarde –
o velório era às sete!

deu tempo de plantar semente
os ouvidos como vasos
uns brotos de ecos
folhas murchas

a cor da bunda na face:
pálida – como velhas
usando calçolas no verão
quarenta graus e mar
guardassol e copacabana

os ouvidos férteis
as orelhas gritam:

GOL

mas era sede
um gole de
vida que
peço

pus a colher na boca seca
degustei uma última vez
doce com gosto de pus

acendam as velas
amém

psicopata vingando amor

Os degraus foram preenchidos por uma multidão de pessoas desconhecidas e eu senti como se no meu crânio tivesse passado uma manada, derrubando tudo pelo caminho. Eu quero um copo de gin gelada. Somos animais domesticados e comportados, mas deveríamos estar dançando enquanto a banda toca. Sopros profundos de uma profundeza humana incompreensível. Viemos dos ocos do mundo e ouvimos sua sinfonia além-túmulo, de gente morta que vive pra sempre e continuamos seres vivos que morrem pra sempre. Eu ficaria feliz se você no auge da sua sociopatia adentrasse a arena com uma metralhadora e derramasse sangue que escorreria até a lagoa. E os ruídos da jazz sinfônicas abririam alas para nossa passagem espiritual enquanto você sangra em riso quente me assistindo morrer. Eu não sangro, eu te aceno agradecendo.

um resto de mim

Te digo o sopro
afago o sono que desdenha em mim
desenha a pele o arrepio
rasgando a carne dentro
toda desvario e insolência
castigo a índole que dorme cedo
fico inteira demência e pranto
enquanto o gozo comigo
apodreço e fico osso
perante a hera
os ramos de trepadeiras
cobrindo o muro
a herança
o buraco escuro adormece
ainda nino tal criança
cobrindo o medo
ocultando o rosto
quando durmo assombro
sou fantasma de mim mesma

mordi a vida como quem morde a língua

é tão verdade que a arte imita a vida, mas tão mentira.

toda arte imita, mas a poesia é a única capaz de ser verdade absoluta a respeito do que vivemos. vide os piriguistas. sem desejo, sem suor, sem sexo, sem lambida, sem beijo – não existe qualquer poema.

mas deixemos, por ora, o erotismo de lado. que ultimamente não me convém. vamos falar de sufoco: esse que enclausura o pomo na sua garganta enquanto você assiste a arte. hoje eu consumi arte numa performance perturbadora, dei uma baita mordida. esfomeada, desesperada, quase engasguei.

certos pedaços de arte não dá pra mastigar. antes que a gente pense em mastigar pra digerir melhor, foi tarde, já engoliu-se inteiro. no amor, também funciona assim. antes que desse pra pensar, eu te engoli inteiro.

desculpa.

a vida pesa tanto, sabe. os ombros pendem com as mochilas, os varais pendem com as roupas. caímos. às vezes de joelhos, às vezes de cara. nem sempre pra fazer um boquete que se preze. nem pra isso. aliás, nos últimos tempos, tem servido apenas para arranhões e cicatrizes. o que são uns pontos a mais na costura intrínseca da vida?

veja que não te faço perguntas retóricas. eu realmente queria saber. como você está e se perdeu peso como eu e se está pálido de tanto se ocupar com burocracias fúteis e deixar a vida passar e me deixar passar e atravessar a rua. suas mãos abanando e as minhas segurando o guarda chuva. bem que podia estar segurando outra coisa…

as reticências imitam a vida: minhas insinuações sempre foram tão claras que desbotaram quando pendurei no varal para secar. os desenhos da rafa continuam mais bonitos, os cabelos da ori vão crescendo, a boca da bia deixa saudades, a luísa mandou abraços – já eu: que te ofereço além do caos?

bom, eu continuo poesia.