desordinária

desordeno-me
a ser irreparável
dos autodanos
prescrevo-me
o tempo sólido
contra a face
linha lacrimal
rompendo a tez
chagas amantes
autocicatrizes
que saram
que saram
quiçá amam
as próprias histórias
na mesa do bar

fica com o troco

orgânica e putrefeita

sinto o rabisco
agulha nas entranhas
tatuagem interna
coceira eterna por dentro
orgânica e putrefeita
a mulher refém e desfeita
a paixão é comichão atroz
respirando as cinzas do que morri
rasgando os órgãos
engolindo a seco a vida
empurrada pela garganta
sinto o risco que é ser obrigada a viver

a morte espreita silenciosa
perseguindo-me insinuante quando me calo

ensurdeça-me, vida
alta e ribombante
faça-me esquecer a gastura
corte rente e sufoco
meu corpo fugaz e oco

desacaso

eu sou o que arde
não deixo pra mais tarde
nem a chama nem a cinza

eu sopro

gosto do vento
gosto do intento
a minha intensidade é ser e estar

escrevo meu nome com a ponta dos dedos na sua pele
quero que você se lembre
quero que você se lembre
até do número na porta
até do quando sou torta
na mordida
nas mãos
nos olhos

tudo bem se a gente perder a hora
tudo bem se a gente tropeçar no tempo
tudo bem se o amor ficar atrasado
eu deixo pra depois
eu deixo pra lá

vou fazer um poema mal feito
que te faça saber que ainda é o seu beijo
o grande problema que move revoluções
aqui dentro colocaram fogo nas lixeiras
continuo ardendo como uma multidão ensandecida
mas em vez de cobrar amor,
eu peço adeus

e continuo cética sem crer no acaso

hormônio

não quero saber que horas são

é hora em que o peito estoura
em que a vida entra em ebulição
em que o tempo corrói a gente, fazendo com que eu já não saiba como vim parar aqui

eu queria ser linear e simples
queria ser apenas morna e sem o risco do fósforo

sem o cigarro em cinzas
sem o gole voraz
sem o beijo que faz o mundo ruir

tem como ser menos ruína?

tem como não sentir tudo tão à flor da pele?
nem o bem nem o mal?
nem o rancor nem o perdão?
nem o amor nem a insignificância?

quero aprender a não me entregar no gozo limpo com sangue
a ser menos eu mesma em chamas e ardil
a fluir sem tanta velocidade e curva de rio

mas
não
sei
eu
sou
isso

eu sou essa vontade
até de ser mãe e
até de ser amada
mesmo que só de manhã

ouço e canto

com o fundo da alma
com o eco das dores
com a pele
com a boca
com as unhas
com o gosto amargo

e também doce

tento não ser essa febre
tento não ser essa pólvora
tento não ser tempestade

mas gosto é do vento
que fustiga e rasga

de repente
choro
porque
volto
a ser um

mundo
inteiro
por dentro.

pássaro

tem um pássaro enjaulado no peito
que bica as paredes do tórax
querendo sair
querendo fugir

minha costela é jaula
de aço
e eu que
me faço
prisioneira quando
não permito o amor
que é vôo livre

querendo voar beijo
querendo voar abraço
querendo tomar espaço
querendo voar desejo

mas as asas presas
nas laterais dos pulmões
travam

eu me traio
ao não ir ao seu encontro
eu me traio se me calo
fico silêncio e descaso

meu pássaro que vira pedra
vira gesso
vira escultura
vira peça e ornamento
vira o que for menos amor
que deveria ser obra de arte

receio de ser o melhor
de ser o pior
piado e canto
e melodia incessante e liberta
na costela aberta

pássaro se torna eco morno
voz falha e relapsa
em vez de pavão
pássaro se depena
vira frango frito
pele queimada em brasa
no almoço de domingo
porque medo de amor
dá pena

notas de violão

Eu poderia

viajar cem quilômetros, nadar um mar de tubarões a braçadas rasas, primeiro aprender a nadar e a pilotar uma motocicleta, comprar um jipe, rasgar a porta da barraca ou rasgar meu peito em chamas, chorar por madrugadas até ficar sem ar, doer até ficar sem ar, desenhar aquarelas com os dedos, tingir meu corpo de tatuagens pra me lembrar que a vida dói, cortar as unhas antes de arranhar as costas, cortar os cabelos mais vinte estações, pular vinte estações pra ver a mesma despedida, trancar o portão, abrir o cadeado da fonte dos cadeados, comer um churros sozinha e beber um drink sozinha, ir à praia de topless e fotografar a nudez humana dos moribundos, colocar  lixo na rua e transbordar a lata de lixo com rascunhos, rasgar as velhas cartas e rasgar meu peito em chamas, rir por madrugadas até ficar ser ar, beijar até ficar sem ar, rabiscar formas geométricas entre os enunciados, tingir os cabelos pra me lembrar que a vida é passageira, ver os cabelos caírem e crescerem novamente,  andar descalça no asfalto quente, tirar os saltos, usar cílios postiços e ser uma mulher postiça pra enganar quem vê, não usar maquilagem pra enganar quem vê,  vasculhar o lixo atrás de arrependimentos, colocar meu disco preferido pra tocar, desligar o som e meditar, recitar uma nova oração numa língua desconhecida, escrever uma palavra nova com significado importante, compôr uma música que só é verdadeira agora, descobrir a apatia e que estar alheia é normal, desligar o corpo da mente, rasgar fotografias mentirosas ou rasgar meu peito em chamas, montar um mosaico, picotar a cara de quem feriu as entranhas, lamber o próprio sangue, estancar o próprio sangue, escorrer o mundo na privada de um banheiro público, vomitar as dores que não são de um parto, parir uma nova criatura, empilhar tijolos com cimento, quebrar o vidro da janela do vizinho e quebrar um copo com as mãos fortes, gritar de raiva e de tesão, construir a própria bicicleta e escrever um poema na parede, pixar o muro da via pública e rasgar comprovantes de crédito pessoal ou rasgar o peito em chamas, colocar um piercing no mamilo pra lembrar que a vida dói mas o corpo pode doer mais
e se um dia eu pensar em amar de novo, eu vou pensar primeiro em comprar um violão e aprender a tocar minhas canções sobre amores não correspondidos.

garça branca abre as asas

A grama recém cortada amarela na luz no poste. São seis horas com calor de três e escuridão de oito. Tudo se evapora. Eu, quando na caixa do meu ventre, sinto que borbulho e entro em ebulição. Minhas mãos se evaporam, mornas e leves, penas que decolam lentamente numa dança sem par. Invisível você me guia, como se vestisse com a minha pele e os meus ossos e entrasse em cena. Por alguns minutos sinto que tenho sido você a cada passo calculado de movimento. No entanto, estou tão cheia de mim que não caberia mais nada além do meu esvaziamento mental a cada respiração. Eu conto em oito tempos em oitenta vezes em que fomos tão oito ou oitenta sem encontrar o ponto de equilíbrio pra dar as mãos quando se precisava. Mas sozinhos sabemos dançar tão bem uma quase valsa voluntária. Meu corpo ainda tem mais ciência de onde estou indo do que eu mesma. Minhas mãos levitam, como se eu tivesse aceito um convite pra dançar. É só a luz amarela que me assiste enquanto alço breves voos, solitária e esguia. Garça no meio da praça, é proibido pisar na grama.

o coração é um campo de batalha

Eu te avisei, é perigoso andar aqui dentro. Meu coração é um campo minado e não falo só do arame farpado. O que está cercado está guardado de qualquer assalto, de qualquer sobressalto, de qualquer kamikaze, de qualquer ataque atômico ou cardíaco. Minha estratégia não é compreensível pra quem tem raciocínio, pra quem tem lógica, pra quem usa regras de comportamento, pra quem usa manual de instruções para um jogo que não é de xadrez. Quem entra em campo de batalha, não brinca como em vídeo game. Não existe pausa, não se pula sua vez, não se escolhe os adversários nem as armas com que se luta e a defesa não é, de modo algum, como um botão que se aperta. Quem ultrapassa a linha da fronteira, já aviso, entra em guerra contra tiros invisíveis e facadas imprevisíveis. Até a última gota de sangue pulsar, a dor não fica virtual pra quem é soldado no coração da vida. O seu próximo passo pode dar numa mina e seus órgãos explodem simultâneos até que sua existência se resuma a um torpor.

cura

Se eu me desintegrar nas brumas enquanto atravesso ou me transfigurar neste feitiço, o contorno da boca fica preso no espelho, a assinatura é automática como um código de barras decodificado. Meu número é um vermelho bloqueando a tinta fresca que tenta esconder a sua parede. Põe os papéis picados dentro da fogueira, faz queimar em cinza e pó a estrutura desse labirinto, quando as cercas vivas começarem a despencar, então será um campo infértil abrindo como um deserto à sua volta. Todas as fortalezas vão caindo, em solo sagrado, no nome santo que se ecoa fino no sopro do seu descompasso. Vem num vôo breve, beija o seu orgulho ferido e desmancha a cicatriz.