meio e meio

uma metade dizia cuidado
outra metade em silêncio
pulsava uma cidade grande
vias públicas caóticas de gente
sinais amarelos de sobreaviso
carros voando aos faróis
luz que rasga a proibição
pela metade eu me despedi
pela metade você se despediu
com as bocas pelas metades
encontro no cruzamento

fenda

quando dobraram o tempo
um gesto torto tomou prumo
fui içada pela fenda astral
corredor de anos-luz
abertura aguda dos olhos
a finitude
em razão da velocidade
colamos um no outro
pela tangente gravitacional
nosso corpo que acelera
até o microcosmo do beijo
no recorte vazio onde há silêncio

poema marginal piegas

ponho coltrane pra tocar, espero chegar
meu poema marginal pra te presentear
uma cuspida suja no chão de asfalto novo
no entanto, quando tento escarrar-me de horror,
pego-me sorrindo à lembrança de teus beijos
ontem não consegue ser um chiclete usado
tuas mãos às cegas sobre a seda em meu seio
meus lábios às pressas buscando teu afago
eu vestida queria-me nua
tu me olhavas quase rindo
como se eu fosse a única na rua
de fato era: acaso lindo

amargo quase beijo

Como se morresse de sede, virei-o ali inteiro, veneno. Em minha boca, amargo. Mas antes que pudesse festejar em goles turvos, interrompeu-me suplicando que lhe doasse um pouco da minha morte. Eu, confundida sobretudo pelas luzes, deixei-me ser roubada. Minha boca então dormente pela meia dose e silenciada pela sua falta de violência. Não soube dizer que sim ou que não, apenas não morri de frio. Perdi os sentidos, pisquei umas vezes, desacreditada da sobrenaturalidade dos quase beijos, que salvam até os olhos trôpegos do precipício. E as papilas sobreviventes do risco que foi cair em sua boca.

desacaso

eu sou o que arde
não deixo pra mais tarde
nem a chama nem a cinza

eu sopro

gosto do vento
gosto do intento
a minha intensidade é ser e estar

escrevo meu nome com a ponta dos dedos na sua pele
quero que você se lembre
quero que você se lembre
até do número na porta
até do quando sou torta
na mordida
nas mãos
nos olhos

tudo bem se a gente perder a hora
tudo bem se a gente tropeçar no tempo
tudo bem se o amor ficar atrasado
eu deixo pra depois
eu deixo pra lá

vou fazer um poema mal feito
que te faça saber que ainda é o seu beijo
o grande problema que move revoluções
aqui dentro colocaram fogo nas lixeiras
continuo ardendo como uma multidão ensandecida
mas em vez de cobrar amor,
eu peço adeus

e continuo cética sem crer no acaso

pingo

eu saltei
fui gota da chuva no seu rosto
espatifei em mil estilhaços
se fosse sólida teria quebrado
mas só sei de amor líquido
minha queda é entrega
braços abertos
peito desperto
olhar incerto

meus óculos embaçaram quando choveu no nosso beijo

mão quente, coração gelado

olá estranho essa noite chove sem melancolia é algo como uma sutileza dos dedos escorregadios nos antebraços suas mãos tem resto de cola que na minha é lavável e sai quando lavo na pia mas tem coisas que não lavam quando chove a urgência não se esvai na chuva o desejo não se esvai na chuva o anseio não se esvai na chuva e o beijo não derrete na chuva na receita não vai açúcar e o tempero não se dissolve o gosto ainda é de primeiro beijo quando chega na calçada que muda de nome e número não me lembro das placas mas sei que era vinte e três subindo as escadas à direita o teto não caía porque as pilastras seguravam de maneira decorativa o espelho não caía porque a gente dançava um dueto inventado em fluxo de tango os olhos não caíam porque outros olhos aguardavam firmes não tem uma bandeja servindo os pedidos do peito esquerdo para guardar na redoma os olhos não caíam porque eram as redomas e o pedido estava guardado ali dentro cristalizado como uma urgência como um desejo como um anseio que não derreteram na noite de asfalto molhado e se fosse açúcar seria caramelo porque tudo queima nas mãos quentes e vira cristal de gelo até no seu coração gelado ponho pra ferver e bebo-te depois pra matar a sede de manhã

lâmpada orgânica

num instante, fez-se luz
naquele cômodo chamado
[beijo
as paredes ocas fecham-se
como as ostras constroem
quartos e salas privativos
no meio da travessia
ninguém vê nem sabe

– o que se passa –

entre as quatro paredes
inventadas das nossas
[bocas
somos prédios em construção
acabaram de instalar

– plim! –

[eletricidade
com um toque
todas as luzes acendem
uma outra cidade inteira
pode chover! quantas forem
as tempestades de verão
a luz por dentro não se apaga
com qualquer que seja
a devastação do lado de fora

a cada beijo de primeiro beijo
um encontro novo de elétrons
dançam e se explodem