cisco

Se eu insisto no cisco
No olho
No risco que corro
Que morro
Que em forro de bolso
Em vão de bolso
Em vazio de bolso onde coloco as mãos
Onde coloco os sonhos
Onde coloco os trocados
Onde coloco os restos
O gasto
O gesto
O rastro do seu perfume
Do seu pescoço
Do seu ser que cheira uma tranquilidade
Que cheira uma cidade inteira
Que cheira por toda redondeza
Bairro
Avenida Brasil o primeiro ponto
Avenida Brasil o último ponto onde houve encontro
Onde nos despedimos
Onde nos descobrimos porque depois nos abrimos
Porque depois nos despimos de nossos panos
De nossos planos
De nossos enganos
De nossos porenquantos.

a fundo

espetáculo de luzes
cromia e sintonias
não corre assim
na minha direção
como se estivesse deserto
– uma multidão – areia fina
na pele abre erosão
quando explode: estrela
se eu mergulho nos seus cristalinos
cachoeira obsoleta nos olhos
arrepio em noite quente
profundezas onde me perco
seu ser desconhecido treme
nossas buscas translaçadas
reconheço (neste brilho todo
tem me resgatado da escuridão)

sob pixos, bombas de gás e amores atropelados

Eu não te escrevo pra você, eu te escrevo pra mim.

Isso significa muito. Significa que do fundo da minha essência eu queria me contar tudo isso, chamar a minha atenção para o fato de que.

[ainda te amo?]

Seria possível você me ler como se fosse eu lendo pra mim mesma? Faria mais sentido todo esse rebuliço que faço na hora de escrever uma carta. Eu quero me convencer de que é simples, mas eu não te convenço. Eu continuo declarando que isso passou, e passou mesmo. Atravessou, atropelou, tirou o fôlego. Como se no meio das linhas escritas viesse uma frase rabiscada por cima do texto todo. Um pixo. A minha vida é um pixo no muro velho e abandonado. Vai ficar lá escrito e posso passar tinta latex por cima, pintar de branco, deixar o muro novo.

Lá está o pixo, por baixo das camadas que secam.

As pessoas jogam vinagre e tíner. Esfregam pra ver se sai. Mas o pixo – com x mesmo – entranhou-se no concreto. Quando eu jogo vinagre no azulejo e fica um cheiro estranho, eu sei que é o mesmo que beber vinagre: as paredes do estômago sentem muito. Mas no meio das bombas de gás de pimenta, que graças damos ao vinagre. Muito obrigada, vinagre, por me tirar do desespero na multidão. Por um momento eu não podia abrir os olhos, nem respirar. Eu sufoquei tanto como naquelas manifestações de dois mil e treze. Senti-me bandida por brigar por tudo isso, por brigar com você também como se eu estivesse tão certa.

Desde quando sofrer é certo?

Fui arrastada pelas ruas do centro, ali tão desconhecido. Seguia os pés vestidos de all star pra me socorrer do pânico. Era só isso que eu enxergava. Minha única solução foram o par de tênis correndo abaixo de mim, que eu tentava encontrar enquanto meus olhos marejavam. E como num conflito político, como o daquela noite, eu também me arrastei atrás de você pra me safar da escuridão que abraçava. Eu corri atrás dos seus all star vermelhos, como se fosse solução. Mas era desespero.

Sinto muito pela comparação esdrúxula. No fundo você sabe –  e eu também sei – que amor não tem nada a ver com bombas de gás lacrimogênio. Só tento, tento sempre, convencer-me de que tudo foi uma grande confusão. A gente escorregou bem na hora, dançou uma lambada, estrumbicou, ralou o joelho e saiu andando. Tudo ardendo, como no tombo de bicicleta na avenida. Levei oito pontos e uma história pra contar.

E faço disso motivo pra escrever, escrevo sem parar. Na verdade paro, com meus hiatos e silêncios, mas aqui dentro tem uma orquestra tocando sinfonias intermináveis, ribombando todo o sufoco que é soltar as mãos na última hora. Soltei-me e continuo tão viva, embora esfolada.

Eu não me escrevo pra mim, eu me escrevo pra você.

rua sacramento

desculpa eu preciso falar sobre essa rua
mas não aquela rua da canção de ninar
que eu mandava ladrilhar
com confete de carnaval
a rua que eu atravessei correndo
em mil almoços corridos que você pagou
aquela que tinha uma travessa
onde os fotógrafos saem procurando
casais pra perseguir enquanto tomam café
aquela cafeteria com a livraria junto
nunca paramos pra conhecer
mas voltamos mil vezes por ali
naquele restaurante de pedreiro
com seus potes de doce de leite
eu atravessei a rua certa noite
como quem sabe o caminho
já sabendo o caminho pra boca dele
e o caminho de volta pela manhã
agora reabriram um bar temático
onde os garçons te chamam por milady
e monsenhor com taças de vinho
nós teríamos passado tantas noites
bebendo e fingindo ser nobres
numa época antiga e medieval
cantando até cantigas fictícias
eu atravessei aquela rua onde você morou
mas subi para o quarto andar
acendi meu cigarro e fiquei na janela
nua e olhando a rua solitária
como eu fiquei solitária me vendo passar
atravessar mil vezes aquela rua
e chegar do outro lado afinal
sem você pra me assombrar
com sua casa demolida
onde construirão outro edifício
para amantes se amarem no quarto andar
como se fosse sacramento
como essa rua que não era minha
nem mandei ladrilhar

pintura renascentista

Viramos tinta,
pincelados em poros de tecidos epidérmicos,
aroma fresco de cores fortes,
nos afrescos renascentistas
de velhas construções,
escorre pelas colunas dos edifícios vertebrais,
risos animalescos e garras felinas
vão gastando o reboco
das paredes suadas de mofo
de livros usados e contos mitológicos
que vão se repetindo há eras
sobre o inefável ato de pintar
amores molhados em telas secas
até rachar sulcos e ranhuras
e ficar sólido nas paredes
dos órgãos vitais.

no traducimos sinónimos

te quiero en mis errores gramaticales
circunstanciales, políticos y sociales
te quiero caminando aquí a mi lado
al mismo ritmo, no al mismo paso
te quiero dentro de cada uno de mis versos
abajo de mi cuerpo girandome al revés
te quiero pero no lo digo ahora
el tiempo viene sin mucha demora
te quiero en canciones que desconocidame
el aprecio que la cara desenredame
te quiero que sea traducido una vez
del amor al spañol, y por fin al portugués

janela acesa no quinto andar

os sonhos jogados pela janela do quinto andar
caíram devagar como roupas sujas
de quem não cabe nas minhas medidas
era você
com seu passo quarenta e dois
estampas de camisetas que me fizeram par
no espelho do elevador
fomos bonitos pra uma pintura moderna
que derrete porque é líquida
aquarela lavada na chuva
do beijo de alguém que amei por engano
de quem roubaria a camisa pra usar de pijama
ou o coração pra acender na minha cabeceira
alumiando a leitura de poemas sujos

sua prosa rançosa me desgastou o cerebelo
perdi o equilíbrio ao andar entre as árvores
comi mais de cinquenta combinações de versos
enquanto mordia sua boca
e você tirava meu pudor como quem recolhe as roupas do varal

itinerário roubado

no papel amassado:
o itinerário cortava o território
meio país atravessado
temperatura abaixo dos trópicos
luvas de lã e cachecóis
sapatos de montanhismo
a passagem custa treze
o jantar a dois era de frente pro mar
vamos alugar um carro
ou viajar noite adentro
em ônibus de leito
com as mãos dadas
e de manhã os beijos
por semanas eu dormi essa ideia
cada ponto de visita
a casa de pablo neruda
ou o escalar de um vulcão
adormecido
como pães que compramos ontem
e usamos o papel pardo
pra desenhar o mapa do chile

depois amassamos tudo
com ódio, fúria, rancor
esquecemos o sonho na lixeira
seu lado perverso resgatou
aquele reflexo do que fomos um dia
transformou o rasgo numa via
pra andar de braços dados
com seu novo amor