sob pixos, bombas de gás e amores atropelados

Eu não te escrevo pra você, eu te escrevo pra mim.

Isso significa muito. Significa que do fundo da minha essência eu queria me contar tudo isso, chamar a minha atenção para o fato de que.

[ainda te amo?]

Seria possível você me ler como se fosse eu lendo pra mim mesma? Faria mais sentido todo esse rebuliço que faço na hora de escrever uma carta. Eu quero me convencer de que é simples, mas eu não te convenço. Eu continuo declarando que isso passou, e passou mesmo. Atravessou, atropelou, tirou o fôlego. Como se no meio das linhas escritas viesse uma frase rabiscada por cima do texto todo. Um pixo. A minha vida é um pixo no muro velho e abandonado. Vai ficar lá escrito e posso passar tinta latex por cima, pintar de branco, deixar o muro novo.

Lá está o pixo, por baixo das camadas que secam.

As pessoas jogam vinagre e tíner. Esfregam pra ver se sai. Mas o pixo – com x mesmo – entranhou-se no concreto. Quando eu jogo vinagre no azulejo e fica um cheiro estranho, eu sei que é o mesmo que beber vinagre: as paredes do estômago sentem muito. Mas no meio das bombas de gás de pimenta, que graças damos ao vinagre. Muito obrigada, vinagre, por me tirar do desespero na multidão. Por um momento eu não podia abrir os olhos, nem respirar. Eu sufoquei tanto como naquelas manifestações de dois mil e treze. Senti-me bandida por brigar por tudo isso, por brigar com você também como se eu estivesse tão certa.

Desde quando sofrer é certo?

Fui arrastada pelas ruas do centro, ali tão desconhecido. Seguia os pés vestidos de all star pra me socorrer do pânico. Era só isso que eu enxergava. Minha única solução foram o par de tênis correndo abaixo de mim, que eu tentava encontrar enquanto meus olhos marejavam. E como num conflito político, como o daquela noite, eu também me arrastei atrás de você pra me safar da escuridão que abraçava. Eu corri atrás dos seus all star vermelhos, como se fosse solução. Mas era desespero.

Sinto muito pela comparação esdrúxula. No fundo você sabe –  e eu também sei – que amor não tem nada a ver com bombas de gás lacrimogênio. Só tento, tento sempre, convencer-me de que tudo foi uma grande confusão. A gente escorregou bem na hora, dançou uma lambada, estrumbicou, ralou o joelho e saiu andando. Tudo ardendo, como no tombo de bicicleta na avenida. Levei oito pontos e uma história pra contar.

E faço disso motivo pra escrever, escrevo sem parar. Na verdade paro, com meus hiatos e silêncios, mas aqui dentro tem uma orquestra tocando sinfonias intermináveis, ribombando todo o sufoco que é soltar as mãos na última hora. Soltei-me e continuo tão viva, embora esfolada.

Eu não me escrevo pra mim, eu me escrevo pra você.

uma resposta de carta

 

Hoje realmente o dia se pareceu diferente, não posso dizer o quanto sua carta me surpreendeu, nem traduzir exatamente o que senti.
Primeiramente, vi com surpresa como uma outra pessoa pode enxergar nas palavras e até vesti-las como se fosse um poncho de lã roxa no inverno. Senti uma mistura de sensações com as suas palavras, elas nem pareciam palavras. Faziam o som de uma brisa, como uma música calma.
Eu senti o aroma morno de um chá, numa sensação que tem sido rara atualmente.
O dia começou diferente, porque as nuvens se abriram e contrariaram o humor da humanidade. No meu jardim, o que mais se assemelha ao que me disse, é que daquela roseirinha mais estranha que está no canteiro, uma que brota uns frutos laranja e achei que nunca iria florir. Hoje estava com dezenas de mini rosas amarelas, que eu não houvera notado, umas já desfolhando, outras resplandecentes como ouro.
Suas palavras tem realmente um herança de minh’alma, tem cores, luz, sentidos, mas especificamente de você vem sempre uma enorme consciência que eu admiro.
Em todos esses tempos, tantas coisas difíceis, meus filhos tem sido um doce, igual minha mãe era capaz de fazer.
Sua carta, elaborada da mesma forma, com que minha mãe bordava as roupinhas de seus futuros netos, com uma destreza especial, com singeleza para receber no mundo. Era um carinho que se dizia dela tão colorido como estórias infantis.
O teor da sua carta me trouxe da memória, o sabor dos docinhos de olho de sogra, que minha mãe preparava, com seus dedos hábeis, com delicadeza de cobrir com caramelo em aniversário de algum irmão meu. É o sabor humilde da gentileza, um carinho de alma.
Especialmente hoje, porque ontem, eu tenho certeza de que pedi a Deus que me enviasse um anjo com seu candeeiro aceso que pudesse andar junto nessa hora comigo. E certamente ele me enviou o que estava mais próximo. Você.

Mara Romaro

Fonte: Uma resposta de carta

Mãe, às vezes pego seu livro aqui e fico folheando, tentando decifrar suas metáforas e anedotas. Fantasiando que todas as coisas de que você fala são coisas que conheço bem. No fundo, não sou metade das coisas pela metade que você diz não ter conseguido. Veja só como não tive sequer um par de jaboticabas pra levar à passeio na feira. Não faço feira, porque não sei escolher laranjas até hoje. Veja só como não usei sequer grinaldas em meu casamento, porque não me caso: ainda to esperando o beija-flor com seu canto afinado atrás da janela do carro que venha beijar minha tatuagem desbotada. O meu sonho de amor perfeito virou um dos seus poemas, então aguardo no tempo impossível de me acontecer nas suas páginas de histórias em versos. E, ao contrário do que pensa, somos tão parecidas que tropeçamos o tempo todo uma na outra, como um espelho no país das maravilhas. O país que começa com seu nome, bem diferente do nosso que está pelas avessas. Embora eu não seja de falar muito, sinto saudades e te procuro no seu livro quando me falta um abraço. Ainda bem, as palavras são eterno acalento.

Giovanna Romaro

carta para o senhor da loja de discos

Parei porque queria lhe escrever uma carta manuscrita e sem linhas retas. Você nunca recebera uma carta e eu queria lhe fazer uma obra de arte, pra poder contar aos netos que a única carta que recebeu da vida foi de uma carta de arte – a obra do amor dura pra sempre. Ou o contrário. A transa poética arranca um fôlego e paixão não correspondida arranca um suspiro. Que dirá se eu recebesse de volta outra correspondência?

mão quente, coração gelado

olá estranho essa noite chove sem melancolia é algo como uma sutileza dos dedos escorregadios nos antebraços suas mãos tem resto de cola que na minha é lavável e sai quando lavo na pia mas tem coisas que não lavam quando chove a urgência não se esvai na chuva o desejo não se esvai na chuva o anseio não se esvai na chuva e o beijo não derrete na chuva na receita não vai açúcar e o tempero não se dissolve o gosto ainda é de primeiro beijo quando chega na calçada que muda de nome e número não me lembro das placas mas sei que era vinte e três subindo as escadas à direita o teto não caía porque as pilastras seguravam de maneira decorativa o espelho não caía porque a gente dançava um dueto inventado em fluxo de tango os olhos não caíam porque outros olhos aguardavam firmes não tem uma bandeja servindo os pedidos do peito esquerdo para guardar na redoma os olhos não caíam porque eram as redomas e o pedido estava guardado ali dentro cristalizado como uma urgência como um desejo como um anseio que não derreteram na noite de asfalto molhado e se fosse açúcar seria caramelo porque tudo queima nas mãos quentes e vira cristal de gelo até no seu coração gelado ponho pra ferver e bebo-te depois pra matar a sede de manhã