beijos tintos secos

sopro na caverna
sopro na caverna
beijos secos doces
batem na parede
batem na parede

voltam sonhos mudos
em silêncio e asma
roucos como os furos
em peitos desgraçados

sopro na caverna
sopro na caverna
sonhos tintos doces
feitos com embrulho
de presente
[e futuro

mas você não ouviu
e não leu versos meus
tão vazios
mas você não chorou
com a dor feita
de fel e amor

na caverna
fundo oco
obra de arte
natureza morta
somos esta casa
somos esta ponte
somos rio ao longe
somos mata escassa

sopro na caverna
sopro na caverna
beijos tintos secos
feitos de um batom vermelho
roubo um beijo que foi lento

te deixo o sonho
eu te deixo a mágoa
eu te deixo molhado
mas não deixo em paz
não deixo em paz

bate na parede
bate na parede
volta como um soco
[no estômago
[na parede do estômago

batem na parede
batem na parede
socos secos doces

beijam na parede
beijam na parede
sopros doces secos
sonhos tintos e
[bêbados

mais uma dose

diga você
se fosse possível escrever com lábios
qual poesia era feita no beiral do meu pescoço?
se fosse possível desenhar com olhos
qual grafite teria nos muros vazios do meu peito?
se fosse possível compôr com suspiros
qual música tocaria nos meus órgãos internos?

diga-me você
se fosse possível rasgar os desejos
qual peça de roupa se rasgaria primeiro?
se fosse possível apagar as censuras
por onde a borracha passaria primeiro?
se fosse possível derreter as culpas
com que liquidez me beberia vorazmente?

diga então você
quantas garrafas são necessárias esvaziar?
quantas garrafas são necessárias encher?
quantas garrafas são necessárias transbordar?
quantas garrafas são necessárias preencher?

diga-me você
se fosse possível se inebriar
seria de culpa ou de arrependimento?
se fosse possível se embebedar
seria de desejo ou de satisfação?
se fosse possível se embriagar
em quantas doses me tomaria enfim?

Vias engarrafadas

De todas as monotonias cifradas
Cantamos numa aresta
Os desafinos de tantos desejos
Ecos numa parede orgânica
Enquanto os corpos feitos festa 
A consciência toma as rédeas
De nossas mãos temerosas
Que quase se procuram às cegas
A sensatez que silencia o impulso
Contrariados, pescamos uma censura
Que deveria ser jogada do precipício
De olhos fechados num voo livre
Mas calamos nossos olhos e quase

Quase fomos os erros preteridos