meio e meio

uma metade dizia cuidado
outra metade em silêncio
pulsava uma cidade grande
vias públicas caóticas de gente
sinais amarelos de sobreaviso
carros voando aos faróis
luz que rasga a proibição
pela metade eu me despedi
pela metade você se despediu
com as bocas pelas metades
encontro no cruzamento

Reza pra Santo Antônio

te querer é uma piada pronta
o avesso do ócio
ecoa uma prece
que a gente nunca se encontre

todo trombamento é uma sombra
te atravesso os olhos
e tu a minha boca
cruzamento no sinal fechado

o desencontro é uma oca ironia
eu te reinvento
e tu a mim socorre
o ludo, a poesia casual e a lâmina

todo 24 de junho

era noite de são joão
panelas esquentando
o vinho quente
os corpos quentes
ao redor da fogueira
e goles de quentão

era noite de explosão
das bombinhas nas ruas
dos artifícios no céu
e por dentro explodia
meu coração quente
e as fagulhas de balão

era noite consagração
que a gente bebia
em nome de santo
mesmo sem acreditar
em são ninguém
o brinde era tradição

era noite onde melão
construía uma capela
era noite de cravos
a dançar com as rosas
em suas quadrilhas
e tempero de manjericão

era noite que não dorme não
acordai os vizinhos com berros
entoai os cânticos festivos
pulai vossas fogueiras
dançai de par em par
e por fim acordai joão

 

cisco

Se eu insisto no cisco
No olho
No risco que corro
Que morro
Que em forro de bolso
Em vão de bolso
Em vazio de bolso onde coloco as mãos
Onde coloco os sonhos
Onde coloco os trocados
Onde coloco os restos
O gasto
O gesto
O rastro do seu perfume
Do seu pescoço
Do seu ser que cheira uma tranquilidade
Que cheira uma cidade inteira
Que cheira por toda redondeza
Bairro
Avenida Brasil o primeiro ponto
Avenida Brasil o último ponto onde houve encontro
Onde nos despedimos
Onde nos descobrimos porque depois nos abrimos
Porque depois nos despimos de nossos panos
De nossos planos
De nossos enganos
De nossos porenquantos.

acaso paulista

uma dúvida e dois copos, por favor
com uma porção de sorrisos
sob as luzes coloridas
na mesa sem número do terraço
te ofereço um flerte do meu cigarro
traz mais uma e a conta
divide por dois os nossos acasos
passa no crédito que um dia eu pago
a corrida e o desejo com juros
mas antes de dar partida
e apertar os cintos, me vê essa boca
e as duas mãos livres pra viagem

cidade sitiada

que bela fogueira
aquece minha esperança
arde a voracidade de justiça
ilumina a luta dos trabalhadores
no coração do brasil em chamas

que esplendor de brados
ensurdece a esplanada
cobre o bombardeio de trevas
cala os pistões dos gatilhos
ecoa no palácio da alvorada

joão sem dona

o amanhecer é uma transa preguiçosa
no apartamento minimalista de Santa Teresa
rachaduras na parede de gesso
pedaços de pintura descascada
janela enorme que abre pra rua
paralelepípedos hexagonais encaixados
no quebra-cabeça de dois corpos
ao som da Tulipa e gosto dos cigarros
recém apagados no cinzeiro de porcelana
falta café filtrado na cozinha
e eu nua na sala de estar
folheio dos livros de shibari e Niemeyer
o sotaque da planície brasiliense

o amanhecer é um caro atraso
em troca de beijos e roteiros de cinema

beiral noturno da janela

a noite nada mais é do que dois cafés
uma cinta liga de clichês
um coro de memes em dissonância
o sopro das cinzas pela janela
a luz amarela do poste
versos mal feitos pro seu amor
que de amor nada tem senão as favas e as velas
reza pro santo do oitavo dia
a descrença de ramos e de reis
janeiro está longe
viajamos quiçá pro rio
braços abertos sobre a baía da guanabara
braçadas em vão sob ondas e brisas
daquele trago nas sedas do oriente submerso
a filosofia da perdida atlântida
os cuidados sacerdotais das fadas
o beijo fictício na esquina
as sequenciais dúvidas de se você bem-me-quer
ou mal-me-quer
os quereres fantasiosos dos desbravadores
que nunca tiveram oportunidade
de tentar a praticidade das causas mais nobres
o corpo que fala cativante
as enquetes, as esquetes e as pantomimas
a circunstância do tônus eretus
o prédio, a arquitetura das vibrações
instantes inconstantes e instáveis
instalações por intermédio alheio
dos braços amigos acolhedores
que vão, que vamos, que vai
vai, sim, amiga, que você consegue

erosão de piche

preciso é falar da noite com nuvens
não de estrelas nem luas cheias
eu me interesso é pela rua em que
[ o asfalto acaba
parece que dá em lugar nenhum
como a maioria dos amores modernos

exceto que há raras ruas em que
[ o asfalto acaba
[ e dá lugar à terra

a gente se desloca no eixo urbano
um movimento quase magnético
e respira onde tem rua em que
[ o asfalto acaba
que o progresso é mato:
ouço a Salma cantando sem parar
a canção escrita para raros aventureiros
[ que se embrenham à natureza viva
ainda não inventaram uma arte capaz de pintar a natureza viva

as heras crescendo nas marginais
a erosão da terra na cidade de piche
que brando cinza
a terra grita:
eu que mando flores
[ ou folhas
[ ou rachaduras
sem nem ver a rua se abre ao meio
e eu aqui com o coração na boca