todo 24 de junho

era noite de são joão
panelas esquentando
o vinho quente
os corpos quentes
ao redor da fogueira
e goles de quentão

era noite de explosão
das bombinhas nas ruas
dos artifícios no céu
e por dentro explodia
meu coração quente
e as fagulhas de balão

era noite consagração
que a gente bebia
em nome de santo
mesmo sem acreditar
em são ninguém
o brinde era tradição

era noite onde melão
construía uma capela
era noite de cravos
a dançar com as rosas
em suas quadrilhas
e tempero de manjericão

era noite que não dorme não
acordai os vizinhos com berros
entoai os cânticos festivos
pulai vossas fogueiras
dançai de par em par
e por fim acordai joão

 

cisco

Se eu insisto no cisco
No olho
No risco que corro
Que morro
Que em forro de bolso
Em vão de bolso
Em vazio de bolso onde coloco as mãos
Onde coloco os sonhos
Onde coloco os trocados
Onde coloco os restos
O gasto
O gesto
O rastro do seu perfume
Do seu pescoço
Do seu ser que cheira uma tranquilidade
Que cheira uma cidade inteira
Que cheira por toda redondeza
Bairro
Avenida Brasil o primeiro ponto
Avenida Brasil o último ponto onde houve encontro
Onde nos despedimos
Onde nos descobrimos porque depois nos abrimos
Porque depois nos despimos de nossos panos
De nossos planos
De nossos enganos
De nossos porenquantos.

acaso paulista

uma dúvida e dois copos, por favor
com uma porção de sorrisos
sob as luzes coloridas
na mesa sem número do terraço
te ofereço um flerte do meu cigarro
traz mais uma e a conta
divide por dois os nossos acasos
passa no crédito que um dia eu pago
a corrida e o desejo com juros
mas antes de dar partida
e apertar os cintos, me vê essa boca
e as duas mãos livres pra viagem

cidade sitiada

que bela fogueira
aquece minha esperança
arde a voracidade de justiça
ilumina a luta dos trabalhadores
no coração do brasil em chamas

que esplendor de brados
ensurdece a esplanada
cobre o bombardeio de trevas
cala os pistões dos gatilhos
ecoa no palácio da alvorada

joão sem dona

o amanhecer é uma transa preguiçosa
no apartamento minimalista de Santa Teresa
rachaduras na parede de gesso
pedaços de pintura descascada
janela enorme que abre pra rua
paralelepípedos hexagonais encaixados
no quebra-cabeça de dois corpos
ao som da Tulipa e gosto dos cigarros
recém apagados no cinzeiro de porcelana
falta café filtrado na cozinha
e eu nua na sala de estar
folheio dos livros de shibari e Niemeyer
o sotaque da planície brasiliense

o amanhecer é um caro atraso
em troca de beijos e roteiros de cinema

beiral noturno da janela

a noite nada mais é do que dois cafés
uma cinta liga de clichês
um coro de memes em dissonância
o sopro das cinzas pela janela
a luz amarela do poste
versos mal feitos pro seu amor
que de amor nada tem senão as favas e as velas
reza pro santo do oitavo dia
a descrença de ramos e de reis
janeiro está longe
viajamos quiçá pro rio
braços abertos sobre a baía da guanabara
braçadas em vão sob ondas e brisas
daquele trago nas sedas do oriente submerso
a filosofia da perdida atlântida
os cuidados sacerdotais das fadas
o beijo fictício na esquina
as sequenciais dúvidas de se você bem-me-quer
ou mal-me-quer
os quereres fantasiosos dos desbravadores
que nunca tiveram oportunidade
de tentar a praticidade das causas mais nobres
o corpo que fala cativante
as enquetes, as esquetes e as pantomimas
a circunstância do tônus eretus
o prédio, a arquitetura das vibrações
instantes inconstantes e instáveis
instalações por intermédio alheio
dos braços amigos acolhedores
que vão, que vamos, que vai
vai, sim, amiga, que você consegue

erosão de piche

preciso é falar da noite com nuvens
não de estrelas nem luas cheias
eu me interesso é pela rua em que
[ o asfalto acaba
parece que dá em lugar nenhum
como a maioria dos amores modernos

exceto que há raras ruas em que
[ o asfalto acaba
[ e dá lugar à terra

a gente se desloca no eixo urbano
um movimento quase magnético
e respira onde tem rua em que
[ o asfalto acaba
que o progresso é mato:
ouço a Salma cantando sem parar
a canção escrita para raros aventureiros
[ que se embrenham à natureza viva
ainda não inventaram uma arte capaz de pintar a natureza viva

as heras crescendo nas marginais
a erosão da terra na cidade de piche
que brando cinza
a terra grita:
eu que mando flores
[ ou folhas
[ ou rachaduras
sem nem ver a rua se abre ao meio
e eu aqui com o coração na boca

1º de abril

as águas de março fecharam pouco esse verão
nesta sexta-feira fecharam as ruas com nãos
mas o vigarista assinou a curva torta: nossa forca
enquanto paraguaios botavam fogo à força
assistimos o gol, o samba e a piada do brasil
só pode ser pegadinha no primeiro de abril
povo vestido de trouxa a velar a aposentadoria
até quando rirão da américa latina em demasia?

sob pixos, bombas de gás e amores atropelados

Eu não te escrevo pra você, eu te escrevo pra mim.

Isso significa muito. Significa que do fundo da minha essência eu queria me contar tudo isso, chamar a minha atenção para o fato de que.

[ainda te amo?]

Seria possível você me ler como se fosse eu lendo pra mim mesma? Faria mais sentido todo esse rebuliço que faço na hora de escrever uma carta. Eu quero me convencer de que é simples, mas eu não te convenço. Eu continuo declarando que isso passou, e passou mesmo. Atravessou, atropelou, tirou o fôlego. Como se no meio das linhas escritas viesse uma frase rabiscada por cima do texto todo. Um pixo. A minha vida é um pixo no muro velho e abandonado. Vai ficar lá escrito e posso passar tinta latex por cima, pintar de branco, deixar o muro novo.

Lá está o pixo, por baixo das camadas que secam.

As pessoas jogam vinagre e tíner. Esfregam pra ver se sai. Mas o pixo – com x mesmo – entranhou-se no concreto. Quando eu jogo vinagre no azulejo e fica um cheiro estranho, eu sei que é o mesmo que beber vinagre: as paredes do estômago sentem muito. Mas no meio das bombas de gás de pimenta, que graças damos ao vinagre. Muito obrigada, vinagre, por me tirar do desespero na multidão. Por um momento eu não podia abrir os olhos, nem respirar. Eu sufoquei tanto como naquelas manifestações de dois mil e treze. Senti-me bandida por brigar por tudo isso, por brigar com você também como se eu estivesse tão certa.

Desde quando sofrer é certo?

Fui arrastada pelas ruas do centro, ali tão desconhecido. Seguia os pés vestidos de all star pra me socorrer do pânico. Era só isso que eu enxergava. Minha única solução foram o par de tênis correndo abaixo de mim, que eu tentava encontrar enquanto meus olhos marejavam. E como num conflito político, como o daquela noite, eu também me arrastei atrás de você pra me safar da escuridão que abraçava. Eu corri atrás dos seus all star vermelhos, como se fosse solução. Mas era desespero.

Sinto muito pela comparação esdrúxula. No fundo você sabe –  e eu também sei – que amor não tem nada a ver com bombas de gás lacrimogênio. Só tento, tento sempre, convencer-me de que tudo foi uma grande confusão. A gente escorregou bem na hora, dançou uma lambada, estrumbicou, ralou o joelho e saiu andando. Tudo ardendo, como no tombo de bicicleta na avenida. Levei oito pontos e uma história pra contar.

E faço disso motivo pra escrever, escrevo sem parar. Na verdade paro, com meus hiatos e silêncios, mas aqui dentro tem uma orquestra tocando sinfonias intermináveis, ribombando todo o sufoco que é soltar as mãos na última hora. Soltei-me e continuo tão viva, embora esfolada.

Eu não me escrevo pra mim, eu me escrevo pra você.

pouso ao pé do ouvido

ele pousou as palavras dela nas suas
ele pousou suas palavras nas dela
algo assim
(acordou-me
ecoando
ecoando
ecoando
como se tivessem
soprado o verso
em meus ouvidos)
ela pousou
nele
ele pousou nela
enfim
ela pousou as palavras dele nas suas
ela pousou suas palavras nas dele
algo assim
(acordou-me
ecoando
ecoando
ecoando
como se tivessem
soprado o verso
em meus ouvidos)
ele palavra
nela
ela palavra nele
enfim
uma pousada