1º de abril

as águas de março fecharam pouco esse verão
nesta sexta-feira fecharam as ruas com nãos
mas o vigarista assinou a curva torta: nossa forca
enquanto paraguaios botavam fogo à força
assistimos o gol, o samba e a piada do brasil
só pode ser pegadinha no primeiro de abril
povo vestido de trouxa a velar a aposentadoria
até quando rirão da américa latina em demasia?

sob pixos, bombas de gás e amores atropelados

Eu não te escrevo pra você, eu te escrevo pra mim.

Isso significa muito. Significa que do fundo da minha essência eu queria me contar tudo isso, chamar a minha atenção para o fato de que.

[ainda te amo?]

Seria possível você me ler como se fosse eu lendo pra mim mesma? Faria mais sentido todo esse rebuliço que faço na hora de escrever uma carta. Eu quero me convencer de que é simples, mas eu não te convenço. Eu continuo declarando que isso passou, e passou mesmo. Atravessou, atropelou, tirou o fôlego. Como se no meio das linhas escritas viesse uma frase rabiscada por cima do texto todo. Um pixo. A minha vida é um pixo no muro velho e abandonado. Vai ficar lá escrito e posso passar tinta latex por cima, pintar de branco, deixar o muro novo.

Lá está o pixo, por baixo das camadas que secam.

As pessoas jogam vinagre e tíner. Esfregam pra ver se sai. Mas o pixo – com x mesmo – entranhou-se no concreto. Quando eu jogo vinagre no azulejo e fica um cheiro estranho, eu sei que é o mesmo que beber vinagre: as paredes do estômago sentem muito. Mas no meio das bombas de gás de pimenta, que graças damos ao vinagre. Muito obrigada, vinagre, por me tirar do desespero na multidão. Por um momento eu não podia abrir os olhos, nem respirar. Eu sufoquei tanto como naquelas manifestações de dois mil e treze. Senti-me bandida por brigar por tudo isso, por brigar com você também como se eu estivesse tão certa.

Desde quando sofrer é certo?

Fui arrastada pelas ruas do centro, ali tão desconhecido. Seguia os pés vestidos de all star pra me socorrer do pânico. Era só isso que eu enxergava. Minha única solução foram o par de tênis correndo abaixo de mim, que eu tentava encontrar enquanto meus olhos marejavam. E como num conflito político, como o daquela noite, eu também me arrastei atrás de você pra me safar da escuridão que abraçava. Eu corri atrás dos seus all star vermelhos, como se fosse solução. Mas era desespero.

Sinto muito pela comparação esdrúxula. No fundo você sabe –  e eu também sei – que amor não tem nada a ver com bombas de gás lacrimogênio. Só tento, tento sempre, convencer-me de que tudo foi uma grande confusão. A gente escorregou bem na hora, dançou uma lambada, estrumbicou, ralou o joelho e saiu andando. Tudo ardendo, como no tombo de bicicleta na avenida. Levei oito pontos e uma história pra contar.

E faço disso motivo pra escrever, escrevo sem parar. Na verdade paro, com meus hiatos e silêncios, mas aqui dentro tem uma orquestra tocando sinfonias intermináveis, ribombando todo o sufoco que é soltar as mãos na última hora. Soltei-me e continuo tão viva, embora esfolada.

Eu não me escrevo pra mim, eu me escrevo pra você.

pouso ao pé do ouvido

ele pousou as palavras dela nas suas
ele pousou suas palavras nas dela
algo assim
(acordou-me
ecoando
ecoando
ecoando
como se tivessem
soprado o verso
em meus ouvidos)
ela pousou
nele
ele pousou nela
enfim
ela pousou as palavras dele nas suas
ela pousou suas palavras nas dele
algo assim
(acordou-me
ecoando
ecoando
ecoando
como se tivessem
soprado o verso
em meus ouvidos)
ele palavra
nela
ela palavra nele
enfim
uma pousada

quartas no ap. 101

uma resposta de carta

 

Hoje realmente o dia se pareceu diferente, não posso dizer o quanto sua carta me surpreendeu, nem traduzir exatamente o que senti.
Primeiramente, vi com surpresa como uma outra pessoa pode enxergar nas palavras e até vesti-las como se fosse um poncho de lã roxa no inverno. Senti uma mistura de sensações com as suas palavras, elas nem pareciam palavras. Faziam o som de uma brisa, como uma música calma.
Eu senti o aroma morno de um chá, numa sensação que tem sido rara atualmente.
O dia começou diferente, porque as nuvens se abriram e contrariaram o humor da humanidade. No meu jardim, o que mais se assemelha ao que me disse, é que daquela roseirinha mais estranha que está no canteiro, uma que brota uns frutos laranja e achei que nunca iria florir. Hoje estava com dezenas de mini rosas amarelas, que eu não houvera notado, umas já desfolhando, outras resplandecentes como ouro.
Suas palavras tem realmente um herança de minh’alma, tem cores, luz, sentidos, mas especificamente de você vem sempre uma enorme consciência que eu admiro.
Em todos esses tempos, tantas coisas difíceis, meus filhos tem sido um doce, igual minha mãe era capaz de fazer.
Sua carta, elaborada da mesma forma, com que minha mãe bordava as roupinhas de seus futuros netos, com uma destreza especial, com singeleza para receber no mundo. Era um carinho que se dizia dela tão colorido como estórias infantis.
O teor da sua carta me trouxe da memória, o sabor dos docinhos de olho de sogra, que minha mãe preparava, com seus dedos hábeis, com delicadeza de cobrir com caramelo em aniversário de algum irmão meu. É o sabor humilde da gentileza, um carinho de alma.
Especialmente hoje, porque ontem, eu tenho certeza de que pedi a Deus que me enviasse um anjo com seu candeeiro aceso que pudesse andar junto nessa hora comigo. E certamente ele me enviou o que estava mais próximo. Você.

Mara Romaro

Fonte: Uma resposta de carta

Mãe, às vezes pego seu livro aqui e fico folheando, tentando decifrar suas metáforas e anedotas. Fantasiando que todas as coisas de que você fala são coisas que conheço bem. No fundo, não sou metade das coisas pela metade que você diz não ter conseguido. Veja só como não tive sequer um par de jaboticabas pra levar à passeio na feira. Não faço feira, porque não sei escolher laranjas até hoje. Veja só como não usei sequer grinaldas em meu casamento, porque não me caso: ainda to esperando o beija-flor com seu canto afinado atrás da janela do carro que venha beijar minha tatuagem desbotada. O meu sonho de amor perfeito virou um dos seus poemas, então aguardo no tempo impossível de me acontecer nas suas páginas de histórias em versos. E, ao contrário do que pensa, somos tão parecidas que tropeçamos o tempo todo uma na outra, como um espelho no país das maravilhas. O país que começa com seu nome, bem diferente do nosso que está pelas avessas. Embora eu não seja de falar muito, sinto saudades e te procuro no seu livro quando me falta um abraço. Ainda bem, as palavras são eterno acalento.

Giovanna Romaro

rua sacramento

desculpa eu preciso falar sobre essa rua
mas não aquela rua da canção de ninar
que eu mandava ladrilhar
com confete de carnaval
a rua que eu atravessei correndo
em mil almoços corridos que você pagou
aquela que tinha uma travessa
onde os fotógrafos saem procurando
casais pra perseguir enquanto tomam café
aquela cafeteria com a livraria junto
nunca paramos pra conhecer
mas voltamos mil vezes por ali
naquele restaurante de pedreiro
com seus potes de doce de leite
eu atravessei a rua certa noite
como quem sabe o caminho
já sabendo o caminho pra boca dele
e o caminho de volta pela manhã
agora reabriram um bar temático
onde os garçons te chamam por milady
e monsenhor com taças de vinho
nós teríamos passado tantas noites
bebendo e fingindo ser nobres
numa época antiga e medieval
cantando até cantigas fictícias
eu atravessei aquela rua onde você morou
mas subi para o quarto andar
acendi meu cigarro e fiquei na janela
nua e olhando a rua solitária
como eu fiquei solitária me vendo passar
atravessar mil vezes aquela rua
e chegar do outro lado afinal
sem você pra me assombrar
com sua casa demolida
onde construirão outro edifício
para amantes se amarem no quarto andar
como se fosse sacramento
como essa rua que não era minha
nem mandei ladrilhar

bola oito

entrei num espiral
como se vida viesse redemoinho
subi ao segundo plano
onde se fez esconderijo

demorei-me sobre a pia
queria ter dormido ali mesmo
podia ser sepulcrada no banheiro
pra não precisar vomitar depois

cheia de náuseas

uma espera de um liquidificador
abri a porta esperando um vazio
pra me deitar sobre a mesa
jogar minhas dores nas caçapas

mas sorriso traiçoeiro me roubou
do plano de ir embora em silêncio
pescou minha nuca no outono
fui fisgada pra ser alvo de suas flechas

cheia de náuseas

não houve jogo entre sinucas
o seu abraço era tormenta
quem dera houvesse uma caçapa
onde eu cairia ilesa do seu olhar

ali atiramos nossas flechas
nossas farpas e espinhos rasos
olhando fundo nos olhos raros
fingindo se reconciliar

cheia de náuseas

eu me escorri meu corpo
pela escada e porta afora
estava líquida e afogada
sem choro sem voz sem bilhar

do meu fetiche se fez um drama
do meu desejo roubou a cena
podia ter me jogado sobre a mesa
mas preferiu rir dos meus amores

mantra para calar o coração

no oco das nossas costelas
reunimos uma bateria inteira
pro samba enredo desfilar
na avenida lins de vasconcelos
os peitos zabumbaram graves
os refrões cantados sob a janela
enquanto fez chuva no asfalto
fez nuvem sobre nossas certezas
esqueci meu nome na sua gaveta
e fui perdendo o que antes eu era
me tornando mármore cervical
esmagando corais esponjosos
na palma das mãos suadas
você numa escultura adornada
escondendo o rosto e a alma
cresceu árvore em vez do pescoço
plantou raízes ali mesmo
seus cabelos brotavam outonos
para a próxima estação amena
para a próxima canção amena
para a próxima destruição amena

vou cair no abalo sísmico da pele
vou cair no abismo orgásmico
me empresta um pouco da sua gravidade
antes que eu me desfaça
até o tálamo