perto

E foi se aproximando, como uma tempestade
aguardou a hora e minuto pra despencar
desabar em estilhaços dos nossos corações
feitos de pedaços de granizo

o chão foi se cobrindo de gelo
as bocas se cobriram de frieza
os braços se cobriram de insegurança
e os dedos se apertaram

nós demos as mãos
cada vez mais perto

você aprisionou minha alma
nas nuvens negras dos seus sonhos
não abra os olhos, não acorde
pois terá chovido toda a noite

você terá ido e me fará sangrar
eu te farei ir e você terá secado
todas as ruas por onde passou
essa tempestade só veio devastar

nós damos as mãos
cada vez mais perto

então nós navegamos soltos
pra não afogar neste dilúvio
mas é o barco que se vai só
e sou eu ou é você que ficou pra trás?

ficamos velhos ou somos jovens demais?
nós acordamos ou ainda dormimos
neste pesadelo que avança pelo céu
você ainda tem sonhado comigo?

e nós daremos as mãos
cada vez mais perto

100 watts

Como num sobreaviso, ela já sabia. Vinha uma pontada cruciante, sem doer. Mas o medo de doer era um interruptor. Luz acesa era um desespero. Ela se perguntava quantos dias e quantas noites, às vezes fingia o mundo no travesseiro, outras vezes escondia. Mas aquele tic-tac continuava a persegui-la, como o tempo que fingia paralisar, mas corria. Corre, meu amor, corre, ainda é cedo. Quando anoitecer, se for demais, não há volta. E, no meio do amor e do medo, veio sombra. Ela não conseguia mais encontrar seu rosto, parecia ser outro sorriso, outro olhar. Algo escarnecedor. Entrou em pânico, será que acordara de repente em outro lugar? Outra pessoa seria, ou a mesma? Pra saber, precisaria acender a luz.

existe amor em sp

Saímos do buraco, depois da escada. Era como um bueiro paulistano na chuva, transbordando, só que as pessoas. De repente não era mais uma rua vazia. Não dava pra saber onde ou o quê: calçada, guia, rua, pavimento, praça, escada. Era um movimento de mar descontrolado em que todos com seus rumos individuais não se atinham à direção. Nós paramos numa orla, para respirar. Acendemos um cigarro, com seu brilho em meio à noite. Eu pensei que um relacionamento era como um cigarro aceso. Dá um alívio enquanto tragamos cada milímetro do tabaco, injetando em nossas veias e cérebro a sensação de que vai dar tudo certo, ou que mesmo que não dê, está bom assim: nós e o cigarro. Então podem acontecer duas coisas: ficamos com pressa e largamos o cigarro queimando num canto sujo da rua; ou o cigarro apaga.
Em ambas as situações, o resultado é o mesmo: o gosto amargo. Se eu não tomar um café ou mascar um chiclete, parece que não passa esse gosto e esse cheiro nas minhas roupas, não passa. Então andamos, andamos, pra onde eu não sabia. Andamos passando por todos os rostos sem foco, por umas esquinas com suas histórias de tragédia, amor e fracasso, por corpos acesos se consumindo na madrugada. Aquelas ruas guardam tudo, uma avalanche, ou mesmo não guardam. Expõem. Ali na multidão estamos na vitrine sem saber quem observa, sem saber que alguém repara um minuto da vida que não faz sentido nas ruas. Peço o isqueiro enquanto percebo aos poucos que acender outro cigarro não era resolver as ânsias, havia algo ali naquelas pessoas me contando como era possível tragar outra coisa do cigarro sem ficar amargo. Senti-me tocada por eles, ali no meio dos outros se contracenando num minuto de romance esquecido, apagado, escondido pelo excesso de gente. Mas ali, no meio da praça ou da rua, eu não sei, eles amavam. Então devolvi o isqueiro ao bolso e o cigarro à caixa. Aquele tipo de amor não era tão consumível, não tinha aparência de brasa, nem cheiro impregnado. Ele acontecia à volta sem percepção, eu mal me dava conta de que sem estar você estava ali e não tinha gosto de cigarro.

banho de espuma

Os dedos do pé ficavam para fora da água observando o movimento das ondas, enquanto a gente segurava a respiração e mergulhava a cabeça. O mundo emudecia e eu ficava ouvindo seu coração cantando Beatles, a gente fingia que aquilo não ia acabar outra vez. Aqui, lá e qualquer lugar podia ser a hora de dizer, mas ninguém dizia, era mais certo entupir os ouvidos de água.
A gente era um sorvete de baunilha, o Monte Everest e todos os gostos bons e lugares que faltavam conhecer. A gente tinha o dom de imaginar todos os cavalos selvagens cavalgando pela encosta, como se fosse só isso, fugir. E a gente ria tão alto, fazendo as bolhas de sabão explodir. Isso se chamava beijo.
E tinha gosto de sabão e fazia cócegas.
O melhor jeito de controlar sua intensidade e deixar o tempo irresistível. A gente gastava tudo o que tinha, jogava para o alto. Era neve. Ia caindo do teto… eu soprava todas as bolhas, eu até suspirava. Suspiro é riso, quase doce, é a sobremesa.O vapor da água ia subindo pela face, eu nem morri de vergonha, eu atingi você. E você se vingou com mais força, até que eu me afoguei, engasguei.

Ainda tem gosto de sabão.

sob os pinheiros

Se eu tiver que pedir socorro, ignore-me. Existe tanta necessidade, que ordem e desejo se confrontam no escuro. Precisamos desocupar nossos corpos, encontrar nosso caos interno que não fica em silêncio. Você vai me esquecer, assim que fechar os olhos. Seu rosto amanhece um borrão embaçado, só refaço seus olhos me buscando onde nada se encontra. Tez & tesão na ponta dos dedos, como digitais que se desmancham. Olhar pra trás, olhar pra trás, por sobre os ombros. Todos observam e sabem. Fonte & fuga nas paralelas das sombras, como fluidos que preenchem os espaços vazios. Não resta nenhum centímetro que não se alcance, tudo é táctil.

oração da renúncia

são como meras espirais
nós nos curvamos em fuga
correndo por estas radiais
norte, sul, leste e oeste
e numa inércia centrifuga
voltamos para que recomece

não sou deus, mas nem o diabo
poderia querer este destino
quantas vezes já me acabo
e nunca passa esta tormenta
me deixa em paz, menino,
não há nada que te alimenta

ave Maria que me perdoe
mas toda noite rezo em vão
peço que a úlcera amaldiçoe
cada segundo do teu tempo
e que na ausência de coração
encontre caos por acalento

página 34

mentem-se os ecos do teu sussuro
a elucidar somente parte do sorriso

outro cálice de voz diluída a seco
saída fácil da escuridão do beco
enquanto rezas, sou pecado

minto, roubo, violento e mato
vim me vingar dos mandamentos
sou a raiz dos teus tormentos

Post Scriptum: página 34, o nome da música.

o mesmo acorde

serei passageira
da sua história passada a limpo
só mais uma das suas pedras
perdidas na estrada derradeira

foram-se quatro
só um terço que rezo à noite
pra sufocar o que é eterno
no silêncio do meu quarto

foram partidas
jogadas a esmo nas cartas
rasgam-se versos-meios
nas nossas negativas

vim menina
fugi mulher que adoeceu
adormeci mesmo ferida
cobri-me de cortinas

noventa reais
rua sem nome na calçada
casa sem número na porta
repare que há janelas iguais

acordei segunda
nos outros dias da semana
não houve nenhum minuto
em que não me senti imunda

flor de papel

Não era gengibre, era álcool. Perfume das ruas pelas quais não passei, anel no dedo certo, o motivo errado. Desça as escadas, vire à esquerda. Alguma esquina aguarda. Comprei um sonho, tudo que posso lhe dar, já que não tinha torta de morango. Guardanapos dobrados, depois amassados como todos os sonhos que tentamos reconstituir. Inutilmente. Existe um vértice – eu choro, ele espera. Existe um metro de distância, os olhos e a garganta. Existe um abraço, um ombro pra segurar as pálpebras antes que despenquem junto comigo. Pedimos o mesmo agora. Não embrulho futuro pra presente. Dez minutos a mais. Existe um atraso – eu fico, ele me acompanha. Todos os pontos cardeais do seu corpo insistem em me dizer não. Seu cerebelo perdeu o pecado. Uma via crucis feita de desejo insuportavelmente repreendido. Rezei mais ave-marias. Existem cortinas – eu não durmo, ele dói. Entornei outra madrugada sobre os lençóis que não se desmancharam porém. Peço amor, depois parto. Já sei o caminho de cor, parto-me inteira em pétalas de mentira. Levo na mão uma rosa desde ontem. Ele não pode me dar. Cochilamos nos ombros, ao som do metro. Não me perca na próxima estação.