Último abraço na neblina

Depois do abraço: fundo
onde me encontrei com minha Calma,
e você, desesperado, fugiu
como o diabo foge da cruz

eu chorei aquela noite
como não fazia há mais de ano,
chorei de coração partido, a Dor
da frustração quando a gente descobre
que tá amando Sozinha
numa via de uma mão só

Me vi indo naquela rua escura
e doeu demais esse abraço.

Depois disso eu parei
de sentir – meu Corpo
se lacrou feito uma múmia
embalsamada contra sentimentos

eu parei de sentir tudo – até fome.

Virei uma pedra, uma escultura,
uma estátua, um jazigo, uma lápide.
Meu rosto ficou fundo,
cavado e cinza:
pensei que ia morrer mas
não tive febre,

estava Viva
como uma planta murcha
saindo da terra.

Parei de sentir como se
tivessem me desligado da tomada
ou como se dentro
tudo já fora Tão sentido que
a vida útil se fora também.

Fiquei só os olhos vidrados
e acordada.
A janela fechada, os carros passando,
o ponteiro do relógio seguindo,
outra volta. Passei dias,

ofuscante torpor.

Quando meu Ser sobremergia
era uma ânsia e o choro voltava
alagando qualquer intervalo.

além do bojador

Na tentativa de matar a sede
do amor que um dia tive
bebi da tua boca – sagaz roubo
uma tempestade
afoguei porque de tanto desamor
desaprendi a nadar nas profundezas
dos beijos plenos

Descobri-me plena – uma alvorada
uma navegação que deixa o porto
e sobe a âncora
sem mapa vi-me desbravando
esses desconhecidos oceanos
que teu peito abre

Não contava era com as tormentas
e morri de amor em alto mar

Ensaio sobre os não toques

Ele assobiou três vezes no portão, como se fazem os apitos escoteiros às tardes de sábado. Era terça-feira. Ela, no auge da sua moda para dias depressivos, abriu a porta com um moletom cinza surrado e uma camiseta de banda alternativa, onde se lia Carne Doce. Ele pensou que o nome da banda combinava com ela e o gosto que ela deixava às vezes quando passava pela sua boca. Seus olhos fundos e tristes diziam que ela tinha dormido mal e estava cansada. Do mundo.

Ele estacionou a bicicleta na garagem, deu aquele abraço longo e se encostou suado no cangote. Ela parecia uma estátua, organicamente cheia de medos ou anseios, não se sabia bem o quê. Estava fria como mármore, que o rosto dele chegou a colar na sua pele instantaneamente.

Entraram pelo portal azul, onde ele adentrou pela primeira vez em sua casa, cheia de quadros e adereços de decoração por toda parte. Tudo tão colorido e cheio de vida, que era até irônico que ela aparentasse estar tão doente naquele dia, como se tivesse apenas sobrevivido. Mais um dia, menos um dia.

Ela lhe apresentou o resto da casa e seu quarto, como se fosse uma vendedora de móveis numa loja de departamentos. Falava mecanicamente, como se tivesse engolido uma fita cassete programada para dar as boas vindas. Ele sentou em sua cama, como se já fossem amantes de longa data, tirou os sapatos, trocou a camiseta por uma limpa para deitar ao seu lado. Preocupado até em não sujar os lençóis com o cheiro do treino de escalada.

Ela ligou um episódio no computador e seguiram momentos silenciosamente tensos. Ambos com suas dúvidas sobre o que fazer ou o que dizer. Não fizeram nem disseram nada. Encostaram as cabeças, quase dividindo um mesmo travesseiro, respiraram, esperaram o episódio acabar.

Ao final, ela estava calma, terna. Como se tivesse lido o script de um roteiro antes de estar ali, como se soubesse exatamente como as coisas se dariam dali por diante. Essa certeza nos olhos dela o desesperou de tal maneira que a única reação foi aceitar o convite para uma cerveja.

Ela abriu a garrafa tranquilamente, deslizando pela cozinha, contando sobre alguma coisa que nem fazia sentido. Ele precisou lembrá-la de brindar os copos, olho no olho, pra valer o brinde.

Enquanto ela falava sem parar sobre as coisas completamente brutais da vida, ele pensou que ela ficaria bonita colocada dentro de uma redoma, protegida. Porque parecia que a qualquer momento poderia trincar e se partir em mil pedacinhos, feito uma rara porcelana. Ele, como bom porco-espinho que era, provavelmente só arranharia a porcelana. Quanto mais ela matraqueava, mais ele percebia que ela já havia se partido e se colado tantas e tantas vezes, que talvez, por isso, fosse tão rara. E possivelmente muito mais resistente do que qualquer outra porcelana.

Talvez ela fosse muito mais cola do que porcelana. Endurecida com a violência do mundo que havia enfrentado. Ele queria decifrar como ela conseguira sobreviver a tantas rupturas. Queria desmontá-la e remontá-la como um quebra-cabeça, tirar sua roupa, criptografar cada cicatriz e tatuagem, tocar lentamente todos os rabiscos e rachaduras de seu corpo, até decorá-lo dos pés à cabeça.

No entanto, num breve toque em seus joelhos, ela estremeceu e ele entendeu que tinha avançado demais em seu território tão milimetricamente seguro. Ele quase se desculpou. Me desculpe por te assustar, ele pensou. Enquanto isso, dentro dela, engrenagens se mexiam freneticamente cheia de ruídos, que ela quase deu um berro pra que se calassem. Ficou com medo que ele tivesse ouvido todo aquele rebuliço mental que fervilhava internamente.

E então ele foi embora.

Partiu em alta velocidade sobre sua bicicleta na rua escura, até sumir de vista. E ela, querendo silêncio, estava atordoada com o barulho que aquela visita lhe tinha trazido. Como se tivesse surrupiado alguma coisa de sua casa. Nada havia sumido, tudo estava em seu devido lugar. O que estava mudado era outra coisa: a bolha da zona de conforto se havia estourado. Era o que os espinhos faziam: espetavam. E a ventania fustigava estrondosamente ali dentro.

 

 

erosão de piche

preciso é falar da noite com nuvens
não de estrelas nem luas cheias
eu me interesso é pela rua em que
[ o asfalto acaba
parece que dá em lugar nenhum
como a maioria dos amores modernos

exceto que há raras ruas em que
[ o asfalto acaba
[ e dá lugar à terra

a gente se desloca no eixo urbano
um movimento quase magnético
e respira onde tem rua em que
[ o asfalto acaba
que o progresso é mato:
ouço a Salma cantando sem parar
a canção escrita para raros aventureiros
[ que se embrenham à natureza viva
ainda não inventaram uma arte capaz de pintar a natureza viva

as heras crescendo nas marginais
a erosão da terra na cidade de piche
que brando cinza
a terra grita:
eu que mando flores
[ ou folhas
[ ou rachaduras
sem nem ver a rua se abre ao meio
e eu aqui com o coração na boca

poema marginal piegas

ponho coltrane pra tocar, espero chegar
meu poema marginal pra te presentear
uma cuspida suja no chão de asfalto novo
no entanto, quando tento escarrar-me de horror,
pego-me sorrindo à lembrança de teus beijos
ontem não consegue ser um chiclete usado
tuas mãos às cegas sobre a seda em meu seio
meus lábios às pressas buscando teu afago
eu vestida queria-me nua
tu me olhavas quase rindo
como se eu fosse a única na rua
de fato era: acaso lindo

asfalto que dá na terra

na rua, o som dos sapatos clap clap no asfalto, a solidão da noite me acompanha até a porta da sua casa. era a noite com seus postes amarelos falhantes sob as árvores sem poda. eu adoro o meu andar sozinha no escuro, caminhante fora da calçada, lua grande me ofuscando na imensidão da cidade. quantas vezes andei pelas mesmas quadras soturna e aos ouvidos aguçados? o meu calar é respiro, que até desacostumei a compartilhar meu silencioso caminhar por estas ruas vazias com mato crescendo onde há rachaduras. não sei como morder a noite sem deixar marca de batom no cangote da madrugada, nem sei inspirar meus próximos versos sem antes acender meu cigarro. mas, veja só que tive a humildade de beijar-te antes mesmo de tragar as cinzas. um erro desse só pode ser deslize de astros mal intencionados, que apagam a luz do poste quando estamos passando, sem saber bem onde estamos indo numa rua sem saída.

florais queimados

me diz então seu calcanhar
posso quiçá retratar suas falhas
lamber suas rugas ao canto d’olho
secar seu choro mando ao fel
[da minha boca
rasgar sorriso frouxo
entumescida a minha flor
desabrocho as roupas de outono
desabotoo um timbre da pestana
nosso sons nunca estão ocos
bate a chuva na janela
retumbantes sofrimentos de querer
o querer! o querer! o querer!
despetalo até o tálamo
dessa lógica cervical
um desejo aceso: incenso
aroma que roubamos das nucas
dou-lhe flor quando nino
nada meninos brincamos
apaches ou dedos ou flâmulas
incêndio cômodo no quarto: orgasmo
mastigo as folhas do seu jardim
mordida a fruta do éden

longos rios em dia de chuva

ali arraigada minha pele pelas suas mãos
um manancial correndo as veias
correnteza extrema que navega
suores no contrafluxo climático
arranhando as margens digitais
eu sei você como um desenho de rio
enquanto me percorre aos olhares
me beija os afluentes até a nascente
escorro e você me preenche