Dona coisa

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Collage “Dona Coisa”, 2017. Recortes e esmaltes.

Esta peça em tamanho A3 foi composta por diversos pedaços de bulas de medicamentos para tratamento psiquiátrico como base para a criação da colagem. O objetivo desta peça é iniciar uma série que questione o uso de tais medicações para tratamentos de doenças mentais e traga em voga a discussão dos distúrbios mentais como um tema tabu na sociedade.

velório para quem vive

seu flerte com a morte era uma dança
descalçava os sapatos e pisava na terra
a longa saia casada com o vento
o busto de fora que se rebela

mesmo no dia de sua morte
queria ser lembrada nua
mulher na crueza do corpo
em chamas e em chagas

não morrera porque era quinta-feira
seus algozes a sequestraram
os comprimidos foram confetes
engoliu um carnaval inteiro

não morreria ainda por tão pouco
talvez um carnaval fosse pouco
ela sobrevivera às paredes brancas
do hospital público sem ambulâncias

queria tornar-se assombração
perambulando os corredores vazios
os pés e os peitos livres e brancos
a fotografar a beira de todas as mortes

Cabeça oculta

Eu sonho em ver a aurora boreal,
poder sair correndo na areia da lua
e assistir à autopsia do meu cérebro,
mas pra isto eu precisaria morrer primeiro
 
Se eu fosse lixo humano jogaria meu corpo
no vazio espacial, viraria um satélite seco
antes meu sangue teria esvaziado das veias
ao coração e meus órgãos seriam doados
 
Meu corpo façam o que quiserem com ele,
mas abram o meu crânio e dissequem
cada curva da minha débil mente
até que me compreendam como eu
 
Eu jamais me compreendi.

desordinária

desordeno-me
a ser irreparável
dos autodanos
prescrevo-me
o tempo sólido
contra a face
linha lacrimal
rompendo a tez
chagas amantes
autocicatrizes
que saram
que saram
quiçá amam
as próprias histórias
na mesa do bar

fica com o troco

orgânica e putrefeita

sinto o rabisco
agulha nas entranhas
tatuagem interna
coceira eterna por dentro
orgânica e putrefeita
a mulher refém e desfeita
a paixão é comichão atroz
respirando as cinzas do que morri
rasgando os órgãos
engolindo a seco a vida
empurrada pela garganta
sinto o risco que é ser obrigada a viver

a morte espreita silenciosa
perseguindo-me insinuante quando me calo

ensurdeça-me, vida
alta e ribombante
faça-me esquecer a gastura
corte rente e sufoco
meu corpo fugaz e oco

brinde à insanidade nua

as folhas secas na garrafa molhada
te tomei minha sede às pressas
as unhas na sua pele
eu rasgando minha garganta
arrancamos as peças de preocupação
passado e futuro desfizeram-se líquidos
só uma dose de presente
despimos os medos
tu me deste sua ansiedade pra guardar na bolsa
eu te dei minha depressão pra guardar no bolso
jogamos nossas insalubridades e bebemos
do copo do desejo

escadarias antigas

Entenda que você não foi vão. Você foi uma escadaria que já estava destruída e a qual precisei percorrer de joelhos. Eu, destruída, também me despedacei mais um pouco nessa tortuosa subida. Com meu desleixo e desastre, despedacei seus rebocos. Saímos dessa subida, um pouco – ou muito – mais destroçados que antes, e mais cansados e desgastados que antes.

Minhas feridas e cortes demoraram tanto pra cicatrizar e eu precisei me sentar por um tempo pra recuperar o fôlego, as energias, as forças. Se antes eu mal podia seguir em frente, depois disso, foi ainda mais difícil. Precisei ficar aqui parada assistindo a vida passar, até que minha pulsação estivesse estável novamente e eu segura de que meus pés seriam capaz de dar passos.

Os primeiros foram vacilantes e, aos poucos, recobrei-me de mim mesma e hoje consigo dar largos passos, subir degraus mais distantes, onde nem sonhava caminhar antes. Obrigada por me fazer resistir e ser forte.

Hoje avanço sobre a vida, mordo a vida, escalo a vida e beijo a vida com um tesão e vivacidade que eu nunca tive antes.

[dedicado aos amores passados]

retrato falado

Se fosse um cheiro seria o resto de gin no fundo do copo e se fosse um gosto seria o do dia seguinte quando acorda sem escovar os dentes e se fosse um lugar seria o vão entre a calçada e o asfalto onde todo lodo e sujeira já passaram antes de ir pro esgoto e se fosse um filme estaria queimado antes de revelar e se fosse uma canção teria desafinado e se fosse uma fruta teria apodrecido na geladeira e se fosse um pedaço de carne estaria cru entre dentes que rangem e se fosse um dia da semana seria uma segunda feira arrependida e se fosse uma constelação teria ficado escondida atrás de uma nuvem e se fosse um par de sapatos teria pisado numa poça suja ou num pedaço de merda e se fosse um chute seria gol contra e se fosse um livro faltaria uma página e se fosse uma resposta seria negativa e se fosse uma lágrima estaria seca e se fosse um beijo seria cuspido e escarrado primeiro e se fosse um poema teria sido mentiroso.