queimada

 

roupas rasgadas em tiras
feito um céu flamejante caindo
sobre a cidade

os muros e prédios crescem
como sombras diabólicas

e as unhas escuras,
argolas penduradas,
todos os cabelos no vento.

vultos do sol em contorno

cacos de vidro

janela feita de vidro colorido
bateram pra me chamar
quem quer entrar?

é a brisa, é brisa

não abri as janelas
puxei as cortinas de lado
não tinha chave do cadeado

janela feita de vidro brilhante
bateram pra me perguntar
quem vem me perturbar

é o vento, é o vento

bateram outra vez
desta vez, um pouco mais forte
quebrou tudo num golpe de sorte

invadiram meus cômodos
não deu tempo de correr
quem vem me desobedecer?

é tempestade

ela

não se permite dormir
e não se permite acordar
não se permite comer,
nem degustar, nem digerir
não se permite planejar,
não se permite criar,
muito menos destruir

não se permite somar,
subtrair ou multiplicar
que esta dor não dorme,
ela amanhece sem dormir
e por isso não acorda,
só se deita e não se fecha
a dor não sonha
a dor nem se alimenta
que ela é o próprio alimento de si,

sem gosto, sem paladar,
depois vem a náusea
e a ânsia de ser apenas
dor, ela não se digere,
porque de si nada se aproveita
a dor não tem caminho,
não se constrói,
apenas consome por dentro
como um buraco negro que não some
a dor em nada acrescenta,
em nada diminui e,
de tão insuportável, não aumenta

ela dói.