Último abraço na neblina

Depois do abraço: fundo
onde me encontrei com minha Calma,
e você, desesperado, fugiu
como o diabo foge da cruz

eu chorei aquela noite
como não fazia há mais de ano,
chorei de coração partido, a Dor
da frustração quando a gente descobre
que tá amando Sozinha
numa via de uma mão só

Me vi indo naquela rua escura
e doeu demais esse abraço.

Depois disso eu parei
de sentir – meu Corpo
se lacrou feito uma múmia
embalsamada contra sentimentos

eu parei de sentir tudo – até fome.

Virei uma pedra, uma escultura,
uma estátua, um jazigo, uma lápide.
Meu rosto ficou fundo,
cavado e cinza:
pensei que ia morrer mas
não tive febre,

estava Viva
como uma planta murcha
saindo da terra.

Parei de sentir como se
tivessem me desligado da tomada
ou como se dentro
tudo já fora Tão sentido que
a vida útil se fora também.

Fiquei só os olhos vidrados
e acordada.
A janela fechada, os carros passando,
o ponteiro do relógio seguindo,
outra volta. Passei dias,

ofuscante torpor.

Quando meu Ser sobremergia
era uma ânsia e o choro voltava
alagando qualquer intervalo.

Figurantes

Eu não te vi na fila do restaurante, você sozinho com a sua mochila abarrotada de coisas, todo atrapalhado. Você tinha uma hora mas demora uma hora e vinte pra terminar de almoçar. Ficou agoniado quando me viu na roda de pessoas, discutindo acalorada sobre a greve, sobre a justiça, sobre a crise, o universo e tudo mais. Olhou o cardápio pra não me enxergar como sobrevivente da nossa decepção.

Eu não te vi na fila do ônibus, no ponto do ônibus, no banco do ônibus. Eu fiquei olhando pela janela, ouvindo outra canção do Cícero, talvez. E se fosse aquela música você ficaria arrasado de saber que ouço sem doer um centímetro sequer. A rua, o trânsito e os quarteirões eram tão mais interessantes neste minuto que, fazer o que, eu não te vi.

Eu não te vi na fila do pão. Ali você só ficou contando os centavos pra ver se dava conta de outro dia ordinário. Outro dia sem graça, um refrão sem graça. Enquanto eu fiquei na vitrine escolhendo um pão doce, porque ainda por cima você reparou que eu deveria ter perdido uns dez quilos desde a última vez. Seria por que eu fiquei mais feliz ou mais triste? Você nunca ia saber.

Eu não te vi enfim, naquela manhã chuvosa, quando atravessei a rua. Podia ter sido de propósito que te evitei, mas não. Eu simplesmente não te vi, nem te reparei, nem te notei. Você se tornou outro figurante na paisagem insossa da minha vida. E quando eu me dei conta e parei pra olhar, você tinha sumido até daquele esconderijo que a gente tem no fundo do coração.

Da próxima vez me perdoa se eu não te ver, não é de propósito, é só porque… eu não te vi.

avenida brasil

disse adeus como quem acena do ônibus
enquanto você reluta em parar de olhar lá do ponto

no primeiro ponto da avenida brasil, todas as chegadas e partidas
todos os quase encontros e os desencontros
todos os quase beijos que vêm dos olhos
todos os nossos quase eu-te-amo em silêncio
na esquina da avenida brasil, passa-se o ponto
onde houve um bar com suas mesas redondas largas demais
onde tomamos chope e depois fomos tomar um ar
onde tomamos coragem e nenhum juízo
no cruzamento da avenida brasil, atravessamos a via láctea
passamos sobre um rio quase seco, um quase esgoto
ali onde um manequim assiste os casais passarem de mãos dadas
no ultimo ponto da avenida brasil, todos os corações partidos
dentro de ônibus sem rumos e sem itinerários
olhando o relógio parado no mesmo santo horário
do meu atraso de todo dia dentro do seu abraço
eu disse a deus como que aceno do ônibus?
se no ponto só há eco, sombra e um fantasma
dos amores que tivemos pelas manhãs, tardes e noites?

questionando, eu disse a deus
relutante, eu disse adeus

escape

Eu me esquivo desta esquina
deste vértice, deste vórtice
na voz aguda dos versos
não quero ver como vai ser
sem você

Eu me esqueço deste estio
eu desvio e você desvia
nas vias aéreas arfando
não quero nem fazer
sem você

Eu me escuto do espelho
deste espaço, deste espirro
na paz aguda das páginas
não quero me perder
sem você

Eu me escapo desta espera
desta espada, desta estupidez
na tumba escura da tez
não quero ter mais nada
sem você