beiral noturno da janela

a noite nada mais é do que dois cafés
uma cinta liga de clichês
um coro de memes em dissonância
o sopro das cinzas pela janela
a luz amarela do poste
versos mal feitos pro seu amor
que de amor nada tem senão as favas e as velas
reza pro santo do oitavo dia
a descrença de ramos e de reis
janeiro está longe
viajamos quiçá pro rio
braços abertos sobre a baía da guanabara
braçadas em vão sob ondas e brisas
daquele trago nas sedas do oriente submerso
a filosofia da perdida atlântida
os cuidados sacerdotais das fadas
o beijo fictício na esquina
as sequenciais dúvidas de se você bem-me-quer
ou mal-me-quer
os quereres fantasiosos dos desbravadores
que nunca tiveram oportunidade
de tentar a praticidade das causas mais nobres
o corpo que fala cativante
as enquetes, as esquetes e as pantomimas
a circunstância do tônus eretus
o prédio, a arquitetura das vibrações
instantes inconstantes e instáveis
instalações por intermédio alheio
dos braços amigos acolhedores
que vão, que vamos, que vai
vai, sim, amiga, que você consegue

asfalto que dá na terra

na rua, o som dos sapatos clap clap no asfalto, a solidão da noite me acompanha até a porta da sua casa. era a noite com seus postes amarelos falhantes sob as árvores sem poda. eu adoro o meu andar sozinha no escuro, caminhante fora da calçada, lua grande me ofuscando na imensidão da cidade. quantas vezes andei pelas mesmas quadras soturna e aos ouvidos aguçados? o meu calar é respiro, que até desacostumei a compartilhar meu silencioso caminhar por estas ruas vazias com mato crescendo onde há rachaduras. não sei como morder a noite sem deixar marca de batom no cangote da madrugada, nem sei inspirar meus próximos versos sem antes acender meu cigarro. mas, veja só que tive a humildade de beijar-te antes mesmo de tragar as cinzas. um erro desse só pode ser deslize de astros mal intencionados, que apagam a luz do poste quando estamos passando, sem saber bem onde estamos indo numa rua sem saída.

sobre o carnaval passado

língua de fevereiro uma acerola
os pés na terra argila afunda
a pedra o musgo a água

ah o mergulho

tiramos a roupa viramos lama
feitos do barro que explode
pedaços de projetos humanos
nadaram pelados no lago

do amor

usamos galochas e biquinis
descalços e com a cabeça coberta
perigo era tomar sol e não um porre

pouso ao pé do ouvido

ele pousou as palavras dela nas suas
ele pousou suas palavras nas dela
algo assim
(acordou-me
ecoando
ecoando
ecoando
como se tivessem
soprado o verso
em meus ouvidos)
ela pousou
nele
ele pousou nela
enfim
ela pousou as palavras dele nas suas
ela pousou suas palavras nas dele
algo assim
(acordou-me
ecoando
ecoando
ecoando
como se tivessem
soprado o verso
em meus ouvidos)
ele palavra
nela
ela palavra nele
enfim
uma pousada

carta para o senhor da loja de discos

Parei porque queria lhe escrever uma carta manuscrita e sem linhas retas. Você nunca recebera uma carta e eu queria lhe fazer uma obra de arte, pra poder contar aos netos que a única carta que recebeu da vida foi de uma carta de arte – a obra do amor dura pra sempre. Ou o contrário. A transa poética arranca um fôlego e paixão não correspondida arranca um suspiro. Que dirá se eu recebesse de volta outra correspondência?

lâmpada orgânica

num instante, fez-se luz
naquele cômodo chamado
[beijo
as paredes ocas fecham-se
como as ostras constroem
quartos e salas privativos
no meio da travessia
ninguém vê nem sabe

– o que se passa –

entre as quatro paredes
inventadas das nossas
[bocas
somos prédios em construção
acabaram de instalar

– plim! –

[eletricidade
com um toque
todas as luzes acendem
uma outra cidade inteira
pode chover! quantas forem
as tempestades de verão
a luz por dentro não se apaga
com qualquer que seja
a devastação do lado de fora

a cada beijo de primeiro beijo
um encontro novo de elétrons
dançam e se explodem

status de relacionamento

e se a gente tentasse ser mais informal
e o embrulho fosse o jornal de domingo
quem sabe assim, a gente ia indo
de quarteirão em quarteirão e não
a maratona inteira da são silvestre
sem precisar dizer que sim ou que não
ou embrulhar o futuro pra presente
com laço de fita e cartão de aniversário
sem a dívida da geladeira em prestações
será que existe um outro modelo
de um relacionamento não sério
em que as pessoas tombam bêbadas
de amor e riem do próprio estardalhaço?
será que existe espaço capaz de caber
na mesma linha a liberdade e a solidão
e ainda dar as mãos pra ver a rua
e ser aplaudido por um beijo de cinema?
sem essa noia atormentada de se saber
se você me liga amanhã! nem ligo
eu quero você comigo agora e quem sabe
a gente se vê por aí quando for acaso
deixa o acaso ser casual, amor
e sem pavor se eu te chamar assim
e sem medo se eu te amar hoje
com nome de desejo ou de tesão
ou com nome de abraço ou de carinho
que diferença faz? só não me pede
pra ser modelo ou exemplo de casal
isso só faz mal, pra você e pra mim
vamos ir indo sem chegar a nada
e abrir o jornal em vez dos pacotes

psicopata vingando amor

Os degraus foram preenchidos por uma multidão de pessoas desconhecidas e eu senti como se no meu crânio tivesse passado uma manada, derrubando tudo pelo caminho. Eu quero um copo de gin gelada. Somos animais domesticados e comportados, mas deveríamos estar dançando enquanto a banda toca. Sopros profundos de uma profundeza humana incompreensível. Viemos dos ocos do mundo e ouvimos sua sinfonia além-túmulo, de gente morta que vive pra sempre e continuamos seres vivos que morrem pra sempre. Eu ficaria feliz se você no auge da sua sociopatia adentrasse a arena com uma metralhadora e derramasse sangue que escorreria até a lagoa. E os ruídos da jazz sinfônicas abririam alas para nossa passagem espiritual enquanto você sangra em riso quente me assistindo morrer. Eu não sangro, eu te aceno agradecendo.

eu virei um abajur

E simples como um peixe, fui fisgada.

A moça da aura verde passou deslizando e me chamou feito uma sereia naquele mar de gente. Segurava nas mãos um recipiente enganoso. Que sincronia encontrar-te pela terceira vez na vida nos últimos três dias. Ela me deu um abraço e antes de ir embora passou-me seu perfume de brisa.

Fui invadida tal como uma favela. Como se tivessem aberto uma torneira de elétrons sobre mim, eu tivesse sido eletrificada por um segundo. Eu acendi no escuro, pisquei feito uma lâmpada de abajur. Eu virei um abajur no lugar da cabeça do manequim. Meu peito ficou plástico e minhas pernas foram engessadas no concreto. Tudo isso, intensamente, passou-se num segundo, como se tivessem me roubado de mim neste segundo e de repente me reencontrei com meu corpo e voltei a perceber onde estava naquele alto mar. Passei a deslizar.

E simples como um peixe, fui fisgada.

mordi a vida como quem morde a língua

é tão verdade que a arte imita a vida, mas tão mentira.

toda arte imita, mas a poesia é a única capaz de ser verdade absoluta a respeito do que vivemos. vide os piriguistas. sem desejo, sem suor, sem sexo, sem lambida, sem beijo – não existe qualquer poema.

mas deixemos, por ora, o erotismo de lado. que ultimamente não me convém. vamos falar de sufoco: esse que enclausura o pomo na sua garganta enquanto você assiste a arte. hoje eu consumi arte numa performance perturbadora, dei uma baita mordida. esfomeada, desesperada, quase engasguei.

certos pedaços de arte não dá pra mastigar. antes que a gente pense em mastigar pra digerir melhor, foi tarde, já engoliu-se inteiro. no amor, também funciona assim. antes que desse pra pensar, eu te engoli inteiro.

desculpa.

a vida pesa tanto, sabe. os ombros pendem com as mochilas, os varais pendem com as roupas. caímos. às vezes de joelhos, às vezes de cara. nem sempre pra fazer um boquete que se preze. nem pra isso. aliás, nos últimos tempos, tem servido apenas para arranhões e cicatrizes. o que são uns pontos a mais na costura intrínseca da vida?

veja que não te faço perguntas retóricas. eu realmente queria saber. como você está e se perdeu peso como eu e se está pálido de tanto se ocupar com burocracias fúteis e deixar a vida passar e me deixar passar e atravessar a rua. suas mãos abanando e as minhas segurando o guarda chuva. bem que podia estar segurando outra coisa…

as reticências imitam a vida: minhas insinuações sempre foram tão claras que desbotaram quando pendurei no varal para secar. os desenhos da rafa continuam mais bonitos, os cabelos da ori vão crescendo, a boca da bia deixa saudades, a luísa mandou abraços – já eu: que te ofereço além do caos?

bom, eu continuo poesia.