orgânica e putrefeita

sinto o rabisco
agulha nas entranhas
tatuagem interna
coceira eterna por dentro
orgânica e putrefeita
a mulher refém e desfeita
a paixão é comichão atroz
respirando as cinzas do que morri
rasgando os órgãos
engolindo a seco a vida
empurrada pela garganta
sinto o risco que é ser obrigada a viver

a morte espreita silenciosa
perseguindo-me insinuante quando me calo

ensurdeça-me, vida
alta e ribombante
faça-me esquecer a gastura
corte rente e sufoco
meu corpo fugaz e oco

psicopata vingando amor

Os degraus foram preenchidos por uma multidão de pessoas desconhecidas e eu senti como se no meu crânio tivesse passado uma manada, derrubando tudo pelo caminho. Eu quero um copo de gin gelada. Somos animais domesticados e comportados, mas deveríamos estar dançando enquanto a banda toca. Sopros profundos de uma profundeza humana incompreensível. Viemos dos ocos do mundo e ouvimos sua sinfonia além-túmulo, de gente morta que vive pra sempre e continuamos seres vivos que morrem pra sempre. Eu ficaria feliz se você no auge da sua sociopatia adentrasse a arena com uma metralhadora e derramasse sangue que escorreria até a lagoa. E os ruídos da jazz sinfônicas abririam alas para nossa passagem espiritual enquanto você sangra em riso quente me assistindo morrer. Eu não sangro, eu te aceno agradecendo.

queimada

 

roupas rasgadas em tiras
feito um céu flamejante caindo
sobre a cidade

os muros e prédios crescem
como sombras diabólicas

e as unhas escuras,
argolas penduradas,
todos os cabelos no vento.

vultos do sol em contorno

ela

não se permite dormir
e não se permite acordar
não se permite comer,
nem degustar, nem digerir
não se permite planejar,
não se permite criar,
muito menos destruir

não se permite somar,
subtrair ou multiplicar
que esta dor não dorme,
ela amanhece sem dormir
e por isso não acorda,
só se deita e não se fecha
a dor não sonha
a dor nem se alimenta
que ela é o próprio alimento de si,

sem gosto, sem paladar,
depois vem a náusea
e a ânsia de ser apenas
dor, ela não se digere,
porque de si nada se aproveita
a dor não tem caminho,
não se constrói,
apenas consome por dentro
como um buraco negro que não some
a dor em nada acrescenta,
em nada diminui e,
de tão insuportável, não aumenta

ela dói.

que vem torpor

olhos embaçados no espelho
existe uma vontade de pedaços
cacos de vidro

ela entoa mantras de cadáver
ressoam escorridos pelo corpo
socos no estômago

pulsos frios, pés encolhidos
mais de dor que de prazer
somente dor
somente dor
somente dor