língua portuguesa avançado II

você me dizia algo na sua língua

alta velocidade túnel adentro
cortando o transitável espaço
via de mão dupla e sem paradas
o sinal aberto pra seguir em frente

tentava me dizer algo na sua língua
um frenesi descontrolado e melódico
na minha cabeça não fazia sentido
eu só conseguia balbuciar
que continuasse e que continuasse

no túnel infinito da noite
sua língua tinha um ritmo próprio
que encontrou por fim onde pousar
e eu

gemi de satisfação

compreendi por fim
linguagem oral canta e toca
música no baixo ventre

joão sem dona

o amanhecer é uma transa preguiçosa
no apartamento minimalista de Santa Teresa
rachaduras na parede de gesso
pedaços de pintura descascada
janela enorme que abre pra rua
paralelepípedos hexagonais encaixados
no quebra-cabeça de dois corpos
ao som da Tulipa e gosto dos cigarros
recém apagados no cinzeiro de porcelana
falta café filtrado na cozinha
e eu nua na sala de estar
folheio dos livros de shibari e Niemeyer
o sotaque da planície brasiliense

o amanhecer é um caro atraso
em troca de beijos e roteiros de cinema

poema marginal piegas

ponho coltrane pra tocar, espero chegar
meu poema marginal pra te presentear
uma cuspida suja no chão de asfalto novo
no entanto, quando tento escarrar-me de horror,
pego-me sorrindo à lembrança de teus beijos
ontem não consegue ser um chiclete usado
tuas mãos às cegas sobre a seda em meu seio
meus lábios às pressas buscando teu afago
eu vestida queria-me nua
tu me olhavas quase rindo
como se eu fosse a única na rua
de fato era: acaso lindo

florais queimados

me diz então seu calcanhar
posso quiçá retratar suas falhas
lamber suas rugas ao canto d’olho
secar seu choro mando ao fel
[da minha boca
rasgar sorriso frouxo
entumescida a minha flor
desabrocho as roupas de outono
desabotoo um timbre da pestana
nosso sons nunca estão ocos
bate a chuva na janela
retumbantes sofrimentos de querer
o querer! o querer! o querer!
despetalo até o tálamo
dessa lógica cervical
um desejo aceso: incenso
aroma que roubamos das nucas
dou-lhe flor quando nino
nada meninos brincamos
apaches ou dedos ou flâmulas
incêndio cômodo no quarto: orgasmo
mastigo as folhas do seu jardim
mordida a fruta do éden

longos rios em dia de chuva

ali arraigada minha pele pelas suas mãos
um manancial correndo as veias
correnteza extrema que navega
suores no contrafluxo climático
arranhando as margens digitais
eu sei você como um desenho de rio
enquanto me percorre aos olhares
me beija os afluentes até a nascente
escorro e você me preenche

brinde à insanidade nua

as folhas secas na garrafa molhada
te tomei minha sede às pressas
as unhas na sua pele
eu rasgando minha garganta
arrancamos as peças de preocupação
passado e futuro desfizeram-se líquidos
só uma dose de presente
despimos os medos
tu me deste sua ansiedade pra guardar na bolsa
eu te dei minha depressão pra guardar no bolso
jogamos nossas insalubridades e bebemos
do copo do desejo

maré de ipanema

pela primeira vez
fazia sol no Rio
e eu não te vi
antes de partir
fiquei sem beijos
pra guardar no bolso
entendi, meu amor
o rio de janeiro
em janeiro azul
não tem vínculo
com esse tesão
que tivemos sempre
mas ainda assim
existe tesão no mar
e a maré está alta
não está pra peixe
nem mesmo banho
mas ainda assim
existe tesão em ti
e a maré está brava
não está pra beijos
nem mesmo esses
de despedida e eu
me despeço-te
te despedaço-me
me perco-te
te peço-me
um pedaço
me pico-te
te peco-me
um pecado
que é tu
aquieto-me

me acorde

seu gosto
seu toque
seu ar

eu fico um sorriso
fácil debaixo da sua barba
onde te deixo o beijo e a mordida
onde me esqueço de ser ferida

e de ser qualquer cicatriz

a gente é algo irrefreável
que não cabe na contagem

do tempo

tentei dormir mas
queria mesmo era estar acordada
no seu acorde
os olhos que não se fecham

está calor e quente
está úmida e sede
está uma ansiedade

de corpos pra se reencontrarem
estando a centímetros de distância
a gente se alcança
mas nega essa tensão
de um querer extremo
é tempero

antes de dormir, acordo até cedo

túnicas de platão

eu me despi das túnicas de platão
prefiro o corpo todo no sol
queimaduras de terceiro grau
porque poesia não marca a pele
nem a ferro nem a fogo
versos só provocam
não me levam ao orgasmo
com tanto rodeio na praça
a sua virtualidade me desgasta
preciso é dos sussurros
e dos gemidos e dos olhares
e das mãos e dos lábios
e do timbre e do aroma
e o arrepio na pele quente

prefiro passar frio e me despir
das túnicas ornamentadas de platão
prefiro ser só minha pele
e a carne crua na sua mão

teu nome na boca do sapo

longe fica o coração das coisas sujas
mata fechada e espinhada
floresce raramente no ano

num ano de seca
flores não sobrevivem
desbotam

a travessia é deserto e lodo
calce bem as botas
carregue bem as munições

em temporada de míngua
poucas são as luas
propícias para caça

todos os bichos são peçonhentos
mesmo os sapos mais saltitantes
e até o pássaros preferem a rapina

ainda é deserto
ainda não é verão
ainda é deserto

enquanto não chove
noite estrelada e gota
e beijo e beijo e beijo

lava essa boca antes de me engolir
lava essa cara antes de me cativar
lava essa dúvida com cândida

cândida, cândida, cândida,
freguesia que te compra
a lábia transcrita em poesia

eu volto pra minha selvageria
toda dentes e unhas e sangue
mordo até despedaçar

até o caroço
até os ossos
até seu pescoço

volto num arrepio
fujo num rodopio
e te lanço um registro

te transformo fotografia
te transcrevo em poesia
te atravesso de ironia

e por último te assalto
não o rosto, mas o gozo
e te desarmo com gosto

de quero mais