túnicas de platão

eu me despi das túnicas de platão
prefiro o corpo todo no sol
queimaduras de terceiro grau
porque poesia não marca a pele
nem a ferro nem a fogo
versos só provocam
não me levam ao orgasmo
com tanto rodeio na praça
a sua virtualidade me desgasta
preciso é dos sussurros
e dos gemidos e dos olhares
e das mãos e dos lábios
e do timbre e do aroma
e o arrepio na pele quente

prefiro passar frio e me despir
das túnicas ornamentadas de platão
prefiro ser só minha pele
e a carne crua na sua mão

teu nome na boca do sapo

longe fica o coração das coisas sujas
mata fechada e espinhada
floresce raramente no ano

num ano de seca
flores não sobrevivem
desbotam

a travessia é deserto e lodo
calce bem as botas
carregue bem as munições

em temporada de míngua
poucas são as luas
propícias para caça

todos os bichos são peçonhentos
mesmo os sapos mais saltitantes
e até o pássaros preferem a rapina

ainda é deserto
ainda não é verão
ainda é deserto

enquanto não chove
noite estrelada e gota
e beijo e beijo e beijo

lava essa boca antes de me engolir
lava essa cara antes de me cativar
lava essa dúvida com cândida

cândida, cândida, cândida,
freguesia que te compra
a lábia transcrita em poesia

eu volto pra minha selvageria
toda dentes e unhas e sangue
mordo até despedaçar

até o caroço
até os ossos
até seu pescoço

volto num arrepio
fujo num rodopio
e te lanço um registro

te transformo fotografia
te transcrevo em poesia
te atravesso de ironia

e por último te assalto
não o rosto, mas o gozo
e te desarmo com gosto

de quero mais

desacaso

eu sou o que arde
não deixo pra mais tarde
nem a chama nem a cinza

eu sopro

gosto do vento
gosto do intento
a minha intensidade é ser e estar

escrevo meu nome com a ponta dos dedos na sua pele
quero que você se lembre
quero que você se lembre
até do número na porta
até do quando sou torta
na mordida
nas mãos
nos olhos

tudo bem se a gente perder a hora
tudo bem se a gente tropeçar no tempo
tudo bem se o amor ficar atrasado
eu deixo pra depois
eu deixo pra lá

vou fazer um poema mal feito
que te faça saber que ainda é o seu beijo
o grande problema que move revoluções
aqui dentro colocaram fogo nas lixeiras
continuo ardendo como uma multidão ensandecida
mas em vez de cobrar amor,
eu peço adeus

e continuo cética sem crer no acaso

tinta

ficamos tinta fresca
reboco sobre reboco
toneladas de tons
quebram dègradée
riscos sem rascunhos
pincéis nos punhos
como francoatiradores
no alvo

ficamos tinta seca
pele sobre pele
camadas de cal
queimam horizontes
rastros em rabiscos
pulsos pincelados
como meros amadores
no palco

hormônio

não quero saber que horas são

é hora em que o peito estoura
em que a vida entra em ebulição
em que o tempo corrói a gente, fazendo com que eu já não saiba como vim parar aqui

eu queria ser linear e simples
queria ser apenas morna e sem o risco do fósforo

sem o cigarro em cinzas
sem o gole voraz
sem o beijo que faz o mundo ruir

tem como ser menos ruína?

tem como não sentir tudo tão à flor da pele?
nem o bem nem o mal?
nem o rancor nem o perdão?
nem o amor nem a insignificância?

quero aprender a não me entregar no gozo limpo com sangue
a ser menos eu mesma em chamas e ardil
a fluir sem tanta velocidade e curva de rio

mas
não
sei
eu
sou
isso

eu sou essa vontade
até de ser mãe e
até de ser amada
mesmo que só de manhã

ouço e canto

com o fundo da alma
com o eco das dores
com a pele
com a boca
com as unhas
com o gosto amargo

e também doce

tento não ser essa febre
tento não ser essa pólvora
tento não ser tempestade

mas gosto é do vento
que fustiga e rasga

de repente
choro
porque
volto
a ser um

mundo
inteiro
por dentro.

solução reativa

era pra ser um experimento
– químico –
eu nunca fui boa com as medidas
transbordou as reações
as soluções inventadas
de líquidas tomaram uma solidez
impossível de beber
não era copo de veneno
era mordida e insensatez
que até a boca borrada se despiu
e eu me vesti com a minha pele

dentro de você

lâmpada orgânica

num instante, fez-se luz
naquele cômodo chamado
[beijo
as paredes ocas fecham-se
como as ostras constroem
quartos e salas privativos
no meio da travessia
ninguém vê nem sabe

– o que se passa –

entre as quatro paredes
inventadas das nossas
[bocas
somos prédios em construção
acabaram de instalar

– plim! –

[eletricidade
com um toque
todas as luzes acendem
uma outra cidade inteira
pode chover! quantas forem
as tempestades de verão
a luz por dentro não se apaga
com qualquer que seja
a devastação do lado de fora

a cada beijo de primeiro beijo
um encontro novo de elétrons
dançam e se explodem

comichão

eu te descubro com as unhas
arranho a solidez da pele
tem um verme de inseto
sob a camada da epiderme
é um ser fantasioso que coça
um comichão insuportável
tem outro nome e não é doença
é uma invenção pra não dizer
a verdade sexual da vida