correndo com lobos

como uma fera
eu ataquei seus instintos mais agudos
meus dentes afiados no pescoço
minha mordida voraz
sua quase morte
empírica

como um bicho
eu avancei em sua pele de cordeiro
te desnudei em carne e osso
mordi seu pedaço de vida
e almocei suas tripas

como um monstro
eu cacei suas insanidades
dilacerei seu extremo desejo
de permanecer sangue
na minha boca

como uma fêmea
eu dominei suas inconstâncias
despi minha pele de lobo
surgi animal em mim
natureza original
entregue

destruição

destroços de alma vacante
fico estilhaçada no cosmo
contagem regressiva no infinito
arma de destruição em massa
que se instala
feito vírus
no seu antebeijo
explosão atômica
de pouco caso
de muito caos
ranger de dentes
unhas na lousa
arrepio tênue
eu morro de sede aos poucos
se sua boca vai embora

ainda rabiscar

pintei sete maravilhas
com pincéis nos dedos leves
fiz caminhos de mapas antigos
rios escorregando em cheias
sem pedras e sem pedras
desenhei foi uma tatuagem
desabrochada em poesia
riscos que ficaram em comichão
seus ombros vão lembrar-me
por onde passei erosão
minha obra na sua pele
até de manhã

como canibais

te comeria pelas bordas
mas em vez de te experimentar
abro-te e arranco todas as tripas
eu que nunca fui muito de bucho
precisei me deliciar na sua carne crua
pulsar o sangue na boca
e ser predativa aos dentes

te fiz comida
em cada arroubo
em cada mordida
ficamos animal aberto
sobre a mesa

dessa fome

te mastigar feito uma palha de mato
até se desmanchar na boca e grudar
o gosto de cidreira nas papilas
te degustar na minha saliva
a língua deslizando o céu
de toda boca e as paredes
de todos os dentes sujos
te morder e triturar as camadas
como cebola crua que faz chorar
enquanto te como aos pedaços
faço arder o rosto todo e o corpo
te engolir como tragos sôfregos
respirando mais seu suor de homem
que oxigênios suficientes
minhas sinapses que falham
enquanto eu te consumo
feito uma droga na primeira vez
uma descoberta imensa que

assume-me pelos membros todos que antes
nem existiam

rua sem saída

destoa do ócio e fica tatuagem
canta em braile na minha pele
lê minha nuca com a ponta dos dedos
e meus lábios com a sua língua
e meus pensamentos com seu desejo
quero te alfabetizar em silêncio
na linguagem que inda desconheço
enquanto gemidos tocam em coros
na rua vazia em que meu corpo
é uma rua sem saída e seu corpo
é uma casa sem janelas abertas
deixe-me claustrofóbica
em tantos graus celsius da tarde
nosso sangue entra em ebulição
meus neurônios fritam em sua boca
que mastiga meus anseios
enquanto sou seio em suas mãos
vem ficar cicatriz aberta na pele
e doer doer doer que eu até
fico mais viva

pagando contas

Tenta me contar as horas, mas como quem conta as notas de dinheiro, passando os dedos folha por folha, assim na minha pele. Encaixa suas digitais nas minhas digitais, trazendo além da virtualidade os amores marcados em labirintos. Corre comigo nesse labirinto, como a cheia de um rio que permeia os leitos. Sejamos leito, deitados e velozes, em desvios e curvas, em lençóis freáticos que vamos descobrindo. Vamos nos descobrindo, tirando todas as censuras, quebrando as leis civis e físicas. Sejamos imorais como corações selvagens sabem ser, brotando da terra feito matos e pêlos e mãos aventurosas. Sejamos carne crua e pulsante no lugar dos relógios tiranos, porque o tempo – ah, o tempo – não é da conta dele o nosso desejo.

tarde de 37º

com esse calor
será que esqueceremos
os sorvetes em nossas mãos
enquanto nos tomamos nesse
beijo
como na vez em que esquecemos
os cigarros acesos queimando até o filtro

nossas mãos esquecem
de segurar o que tem
entre os dedos

se estivesse frio
será que esqueceríamos
as canecas de café quente
enquanto nos bebemos nesse
beijo
como na vez em que esquecemos
os cigarros acesos queimando até o filtro

nossas mãos esquecem
de segurar o que tem
entre os dedos

[mas neste calor
café nenhum se esfria
amor nenhum se amorna
só os beijos derretem
como sorvetes
na boca]

viagem astral

aqui dentro é um buraco negro
quando você entrar, perder-se-á
será febre dentro do cosmo
fará fusão de tantas luzes
que até a escuridão se acenderá

voa alto, astronauta
vem desbravar essa galáxia
feita de rosas desabrochadas
com gosto de chá de melissas
queimando sóis a deus-dará

em chãos de giz pastéis
pousa devagarinho na minha pele
com a gravidade de uma brisa
eleve-me às suas questões vitais
de ser náufrago no azul celeste

chega perto, astronauta
das cavernas mais abissais
vem ver o universo do avesso
e beijar estrelas cadentes
que correm velocidades cardinais

garanto essa explosão cósmica
nesse grão de areia no céu vazio
em meus botões de buraco negro
cabem mais universos psíquicos
que dentro da sua mão viril