para Miriam

somos todas princesas caroços
que entala na goela dos machos
já tivemos o peito estourado
pelas balas das opressões
fomos rasgadas pelos amores
e doemos todo dia por dentro
herdamos os genes das mães
com esse peso-além de ser mulher
que – tanto! – não suportamos
até que explodimos implodimos
bomba atômica intracelular
o mundo nos adoece o próprio lar
mas a dor comum realça a luta
arrancamos de nós a puta
oferecemos em sacrifício abertas
sejamos despeitadas
pra vencer o câncer da misoginia

Releituras Feministas | Lana

Projeto que busca confrontar a relação de mulheres com livros de autoras mulheres em seu cotidiano, através de retratos conceituais.

Lana escolheu “A Teus Pés”, de Ana Cristina César.

Participe!

Releituras Feministas | Blessing

 

Projeto que busca confrontar a relação de mulheres com livros de autoras mulheres em seu cotidiano, através de retratos conceituais.

Blessing escolheu “A cor púrpura”, de Alice Walker.

 

Participe!

Gabi Zanardi | releituras

mãe terra

toda mulher nasce da terra
não feita de barro
não feita de pedra
não feita de areia
mas brota da terra
arrancam-lhe as raízes
podam-lhe os galhos
roubam-lhe as flores
como se mulher fosse pra ficar seca
no meio do campo de centeio
galhos secos
raízes fracas
frutos podres
folhas caídas
mas toda mulher nasce da terra
terra essa que se refaz
renova as profundezas
com sua decomposição
de frutos
de flores
de folhas
tudo que lhe é arrancado
retorna e fortalece
a mulher nasce da terra
não morre nunca
mesmo quando não está florida
respira e cresce05

sangria

o dia que eu acordar e não vir sangue
estarei liberta e sem amarras
das correntes que me algemam à função social
das demandas que me associam ao gênero
das dores que me penitenciam organicamente

o dia que eu acordar e não vir sangue
escorrendo entre as pernas esculpidas
feito uma tela de obra de arte manchada
mês a mês a pureza violada
pelo nome que me definiu mulher

o dia que eu acordar e não vir sangue
de todas as irmãs violentadas
pela santa inquisição carbonizadas
ou pela dominação do estupro
ou sufocadas pelo amor doentio dos homens

o dia que eu acordar e não vir sangue
das suas cesáreas compulsórias
dos seus abortos proibitivos
das suturas das genitálias
e das cirurgias em busca da perfeição

o dia que eu acordar e não vir sangue
de cada mulher que suou sangue
de cada mulher que cuspiu sangue
de cada mulher que chorou sangue
de cada mulher que pariu sangue

o dia que eu acordar e não vir sangue
estarei liberta e e sem identidade
nome mulher
sobrenome sangrar
a luta incessante contra a natureza