orgânica e putrefeita

sinto o rabisco
agulha nas entranhas
tatuagem interna
coceira eterna por dentro
orgânica e putrefeita
a mulher refém e desfeita
a paixão é comichão atroz
respirando as cinzas do que morri
rasgando os órgãos
engolindo a seco a vida
empurrada pela garganta
sinto o risco que é ser obrigada a viver

a morte espreita silenciosa
perseguindo-me insinuante quando me calo

ensurdeça-me, vida
alta e ribombante
faça-me esquecer a gastura
corte rente e sufoco
meu corpo fugaz e oco

beiral noturno da janela

a noite nada mais é do que dois cafés
uma cinta liga de clichês
um coro de memes em dissonância
o sopro das cinzas pela janela
a luz amarela do poste
versos mal feitos pro seu amor
que de amor nada tem senão as favas e as velas
reza pro santo do oitavo dia
a descrença de ramos e de reis
janeiro está longe
viajamos quiçá pro rio
braços abertos sobre a baía da guanabara
braçadas em vão sob ondas e brisas
daquele trago nas sedas do oriente submerso
a filosofia da perdida atlântida
os cuidados sacerdotais das fadas
o beijo fictício na esquina
as sequenciais dúvidas de se você bem-me-quer
ou mal-me-quer
os quereres fantasiosos dos desbravadores
que nunca tiveram oportunidade
de tentar a praticidade das causas mais nobres
o corpo que fala cativante
as enquetes, as esquetes e as pantomimas
a circunstância do tônus eretus
o prédio, a arquitetura das vibrações
instantes inconstantes e instáveis
instalações por intermédio alheio
dos braços amigos acolhedores
que vão, que vamos, que vai
vai, sim, amiga, que você consegue

erosão de piche

preciso é falar da noite com nuvens
não de estrelas nem luas cheias
eu me interesso é pela rua em que
[ o asfalto acaba
parece que dá em lugar nenhum
como a maioria dos amores modernos

exceto que há raras ruas em que
[ o asfalto acaba
[ e dá lugar à terra

a gente se desloca no eixo urbano
um movimento quase magnético
e respira onde tem rua em que
[ o asfalto acaba
que o progresso é mato:
ouço a Salma cantando sem parar
a canção escrita para raros aventureiros
[ que se embrenham à natureza viva
ainda não inventaram uma arte capaz de pintar a natureza viva

as heras crescendo nas marginais
a erosão da terra na cidade de piche
que brando cinza
a terra grita:
eu que mando flores
[ ou folhas
[ ou rachaduras
sem nem ver a rua se abre ao meio
e eu aqui com o coração na boca

asfalto que dá na terra

na rua, o som dos sapatos clap clap no asfalto, a solidão da noite me acompanha até a porta da sua casa. era a noite com seus postes amarelos falhantes sob as árvores sem poda. eu adoro o meu andar sozinha no escuro, caminhante fora da calçada, lua grande me ofuscando na imensidão da cidade. quantas vezes andei pelas mesmas quadras soturna e aos ouvidos aguçados? o meu calar é respiro, que até desacostumei a compartilhar meu silencioso caminhar por estas ruas vazias com mato crescendo onde há rachaduras. não sei como morder a noite sem deixar marca de batom no cangote da madrugada, nem sei inspirar meus próximos versos sem antes acender meu cigarro. mas, veja só que tive a humildade de beijar-te antes mesmo de tragar as cinzas. um erro desse só pode ser deslize de astros mal intencionados, que apagam a luz do poste quando estamos passando, sem saber bem onde estamos indo numa rua sem saída.

longos rios em dia de chuva

ali arraigada minha pele pelas suas mãos
um manancial correndo as veias
correnteza extrema que navega
suores no contrafluxo climático
arranhando as margens digitais
eu sei você como um desenho de rio
enquanto me percorre aos olhares
me beija os afluentes até a nascente
escorro e você me preenche

a fundo

espetáculo de luzes
cromia e sintonias
não corre assim
na minha direção
como se estivesse deserto
– uma multidão – areia fina
na pele abre erosão
quando explode: estrela
se eu mergulho nos seus cristalinos
cachoeira obsoleta nos olhos
arrepio em noite quente
profundezas onde me perco
seu ser desconhecido treme
nossas buscas translaçadas
reconheço (neste brilho todo
tem me resgatado da escuridão)

afagamento

aos poucos a gente se apaga
no breu da noite anuviada
se apaga
enquanto a bituca se consome em cinzas
se apaga
nos corpos que se tocam misturados
se apaga
quando os olhos fecham
a gente se apaga
quando dorme sem sonhos
se apaga
nos goles largos das canecas etílicas
se apaga
na brasa pela manhã ruidosa
se apaga
a cada tiro pelas narinas
se apaga
quando afoga no choro descontrolado
a gente se apaga
no silêncio que os outros nos calam

aos poucos a gente se acaba
sobretudo no apagamento

sobre o carnaval passado

língua de fevereiro uma acerola
os pés na terra argila afunda
a pedra o musgo a água

ah o mergulho

tiramos a roupa viramos lama
feitos do barro que explode
pedaços de projetos humanos
nadaram pelados no lago

do amor

usamos galochas e biquinis
descalços e com a cabeça coberta
perigo era tomar sol e não um porre

sob pixos, bombas de gás e amores atropelados

Eu não te escrevo pra você, eu te escrevo pra mim.

Isso significa muito. Significa que do fundo da minha essência eu queria me contar tudo isso, chamar a minha atenção para o fato de que.

[ainda te amo?]

Seria possível você me ler como se fosse eu lendo pra mim mesma? Faria mais sentido todo esse rebuliço que faço na hora de escrever uma carta. Eu quero me convencer de que é simples, mas eu não te convenço. Eu continuo declarando que isso passou, e passou mesmo. Atravessou, atropelou, tirou o fôlego. Como se no meio das linhas escritas viesse uma frase rabiscada por cima do texto todo. Um pixo. A minha vida é um pixo no muro velho e abandonado. Vai ficar lá escrito e posso passar tinta latex por cima, pintar de branco, deixar o muro novo.

Lá está o pixo, por baixo das camadas que secam.

As pessoas jogam vinagre e tíner. Esfregam pra ver se sai. Mas o pixo – com x mesmo – entranhou-se no concreto. Quando eu jogo vinagre no azulejo e fica um cheiro estranho, eu sei que é o mesmo que beber vinagre: as paredes do estômago sentem muito. Mas no meio das bombas de gás de pimenta, que graças damos ao vinagre. Muito obrigada, vinagre, por me tirar do desespero na multidão. Por um momento eu não podia abrir os olhos, nem respirar. Eu sufoquei tanto como naquelas manifestações de dois mil e treze. Senti-me bandida por brigar por tudo isso, por brigar com você também como se eu estivesse tão certa.

Desde quando sofrer é certo?

Fui arrastada pelas ruas do centro, ali tão desconhecido. Seguia os pés vestidos de all star pra me socorrer do pânico. Era só isso que eu enxergava. Minha única solução foram o par de tênis correndo abaixo de mim, que eu tentava encontrar enquanto meus olhos marejavam. E como num conflito político, como o daquela noite, eu também me arrastei atrás de você pra me safar da escuridão que abraçava. Eu corri atrás dos seus all star vermelhos, como se fosse solução. Mas era desespero.

Sinto muito pela comparação esdrúxula. No fundo você sabe –  e eu também sei – que amor não tem nada a ver com bombas de gás lacrimogênio. Só tento, tento sempre, convencer-me de que tudo foi uma grande confusão. A gente escorregou bem na hora, dançou uma lambada, estrumbicou, ralou o joelho e saiu andando. Tudo ardendo, como no tombo de bicicleta na avenida. Levei oito pontos e uma história pra contar.

E faço disso motivo pra escrever, escrevo sem parar. Na verdade paro, com meus hiatos e silêncios, mas aqui dentro tem uma orquestra tocando sinfonias intermináveis, ribombando todo o sufoco que é soltar as mãos na última hora. Soltei-me e continuo tão viva, embora esfolada.

Eu não me escrevo pra mim, eu me escrevo pra você.