escape

Eu me esquivo desta esquina
deste vértice, deste vórtice
na voz aguda dos versos
não quero ver como vai ser
sem você

Eu me esqueço deste estio
eu desvio e você desvia
nas vias aéreas arfando
não quero nem fazer
sem você

Eu me escuto do espelho
deste espaço, deste espirro
na paz aguda das páginas
não quero me perder
sem você

Eu me escapo desta espera
desta espada, desta estupidez
na tumba escura da tez
não quero ter mais nada
sem você

campainha

Se baterdes à minha porta, atenderei?
cara de sono ou semblante encantador,
ou ambos, ou sem expressão?
serás derrotado ou um vencedor?
terei medo ou terei coragem?
serei forte ou serei fraca?
terei desprezo ou terei saudade?
só saberás, se baterdes à minha porta.

E, quando os olhos se reencontrarem,
serão os abraços do mesmo jeito?
haverá febre, haverá ternura?
ou apenas consentimento?
mas, se baterdes à minha porta,
virás tu com o mesmo defeito?
serei eu a confusa de sempre
e o que dirás, dito e feito,
serás contenda ou promessa?
ou seremos estranhos perfeitos?
e, quando perguntares do meu amor,
deverei mentir ou me entregar?
ou será que nem sequer sentirei
como quem nada pode lembrar?
ou talvez sequer perguntarás
e eu decepcionada, resignarei.

Mas, se baterdes à minha porta,
sem propósito, não pode ser,
deverás ter algo a me dizer?
ou virás apenas me desafiar
a te dizer primeiro com o olhar
o que meu coração recusa ter?

dama da noite

Se eu dissesse não
seria o mesmo que dizer sim?
Ou se eu lavasse minhas mãos
estaria vagando a esmo?
Se eu não tomasse posição
poderia estar então me enganando?

Este é o mesmo lugar
comum.
A calçada, ponto de ônibus,
Placas e manifesto feminista,
Despedida às nove,
Dama da noite no jardim.

A mesa está posta,
A cama está pronta,
O corpo está quente,
O futuro está à beira
do abismo do destino.

Mas antes disso, a escolha.
Depois disso, a consequência.
Enquanto isso, uma pendência.

Fico à espera
embalando outra canção.
Fico à espreita
de uma nova decisão.

Sou eu, número trinta e cinco,
Medida quarenta e dois.
Nossas casas são contraditórias,
Com numeração invertida,
Famílias invasivas e sem flores.

existe amor em sp

Saímos do buraco, depois da escada. Era como um bueiro paulistano na chuva, transbordando, só que as pessoas. De repente não era mais uma rua vazia. Não dava pra saber onde ou o quê: calçada, guia, rua, pavimento, praça, escada. Era um movimento de mar descontrolado em que todos com seus rumos individuais não se atinham à direção. Nós paramos numa orla, para respirar. Acendemos um cigarro, com seu brilho em meio à noite. Eu pensei que um relacionamento era como um cigarro aceso. Dá um alívio enquanto tragamos cada milímetro do tabaco, injetando em nossas veias e cérebro a sensação de que vai dar tudo certo, ou que mesmo que não dê, está bom assim: nós e o cigarro. Então podem acontecer duas coisas: ficamos com pressa e largamos o cigarro queimando num canto sujo da rua; ou o cigarro apaga.
Em ambas as situações, o resultado é o mesmo: o gosto amargo. Se eu não tomar um café ou mascar um chiclete, parece que não passa esse gosto e esse cheiro nas minhas roupas, não passa. Então andamos, andamos, pra onde eu não sabia. Andamos passando por todos os rostos sem foco, por umas esquinas com suas histórias de tragédia, amor e fracasso, por corpos acesos se consumindo na madrugada. Aquelas ruas guardam tudo, uma avalanche, ou mesmo não guardam. Expõem. Ali na multidão estamos na vitrine sem saber quem observa, sem saber que alguém repara um minuto da vida que não faz sentido nas ruas. Peço o isqueiro enquanto percebo aos poucos que acender outro cigarro não era resolver as ânsias, havia algo ali naquelas pessoas me contando como era possível tragar outra coisa do cigarro sem ficar amargo. Senti-me tocada por eles, ali no meio dos outros se contracenando num minuto de romance esquecido, apagado, escondido pelo excesso de gente. Mas ali, no meio da praça ou da rua, eu não sei, eles amavam. Então devolvi o isqueiro ao bolso e o cigarro à caixa. Aquele tipo de amor não era tão consumível, não tinha aparência de brasa, nem cheiro impregnado. Ele acontecia à volta sem percepção, eu mal me dava conta de que sem estar você estava ali e não tinha gosto de cigarro.

debaixo do céu

nas trovoadas, meu movimento
nos relâmpagos, minha reação
lá fora chove num contratempo
dentro só cabe contradição
se não há paz, nem mesmo guerra
se não há busca, como perder-se?
se uma palavra na boca encerra
resta o desejo a converter-te
na coragem, não vence o medo
e, se no erro, não há perdão
que na tarde, tampouco é cedo
tanto gasta-se o que não tem
pra encontrar-te na solidão
e amar-te quando convém

amor se faz na cozinha

Carne morna, sujando o vão das unhas.

No gramado aberto, pegamos todas as bagagens e jogamos pra dentro da sexta do balão. Risco o fósforo, não tem água pra ferver, mas por dentro todos queimam, o céu em chamas. O rosto derrete como cera de vela, afina e escurece, até transparece numa transpiração inquieta. Correu três quilômetros pois tinha tocado uma campainha. Pitada de manjericão, nunca se esqueça. Meu hábito hereditário é pensar como um amor pulsando no cérebro. Sem gorduras nos cantos, um conhaque sempre vai bem. Sobe pelas nuvens, evaporamos de tanto sabor de beijo.

dois

E da carne fez-se o antro que de encanto não se sobrevive, é nos cantos mais sombrios que o amor pode ser destroçado a ponto de sangrar pelos poros, ou domar com os cabelos ou se safar do medo de ser mais ainda humano. Até que não seria ruim… arruinar feito um prédio mal acabado daquilo que não serviu pra ser lapidado mas foi, com pinturas sobre paredes descascadas e infiltrações vindo de todos os lugares como um mofo que cresce pelos órgãos que foram esquecidos: um instante – acabo de lembrar do meu café da manhã, leite puro até que se prove a intolerância à lactose e queijo e facas e queijos que você nunca experimentou. Deite-se sobre uma toalha xadrez e jogue, não venha me dar um xeque, eu sei ganhar e posso; enquanto isso, vão querer abominar nossa estrutura desde às fundações até as telhas.  Só acenda a lareira, não ligue pra mais quantos invernos continuarão tentando e falhando que é o que fazem de melhor; enquanto fazemos amor com o que temos direito, indo e vindo por estradas sem medo de correr, sem medo de frear, sem medo de esperar. E sem medo de esfriar, porque não esfria mais quando se tem dois.

hiato

eu sou uma espiral
feita de tantos giros
estarei eu proibida
enquanto quero, firo
fico dividida

posso ser duas, três
até perder as contas
conte-me quem sou
no final das contas
é pra onde vou

não me deixe louca
seja meu desespero
que de insanidade vivo
enquanto te espero
até sobrevivo

se isso então passar
deixe-me sozinha
ou me tome inteira
eu só sei ser minha
última e primeira

pois se for metade
não, não leve nada
o que tenho é meu
e na minha estrada
você se perdeu

confinamento

entre os vagões perdidos
o asfalto ainda quente
que as estrelas abençoam
enquanto as luzes destoam
no silêncio inconsequente
do nossos próprios ruídos

entre os risos inconstantes
vem um susto e vem suspiro
que lá fora vinha alguém
enquanto me finjo de refém
como se viesse outro tiro
emudecido pelos passantes

pensei que aqui neste refúgio
pouco importa se nos ouvem
ou se nos vêem à pele nua
digo apenas que sou sua
e escuto apenas se convém
esconder dos contrafluxos

todos os segredos

Vou atravessar a rua, quando o sinal abrir. Tudo verde, menos meus olhos. Há muita noite e ainda mais estrelas que vou começar a contar e perderei a conta de quantos dias ainda quero estar sem os pés no chão. Não me diga o plano de vôo, sabemos que vamos pousar numa ilha deserta e numa avenida movimentada de São Paulo. Ouve esse silêncio entre os carros quando você me disser que eu pareço estrangeira com minha mala nas costas, trazendo toda a bagagem que se precisa pra estar ao seu lado. Ao menos uma agulha, band-aids, um cachecol colorido, aspirinas com coca-cola. Se o inverno chegar, estarei preparada, então não largue das minhas mãos nesta selva urbana, não se perca nas travessas cheias de mentiras. Saiba que não minto, basta ouvir meus batimentos e observar a ponta do meu nariz dizendo o caminho do mapa do tesouro. Eu sei que parece longe e meus passos são curtos, talvez até demore pra eu dizer tudo, mas eu não minto. Pode ser que venha uma palavra por vez, mas neste emaranhado você vai ler minha carta sabendo de antemão que até na contramão eu vou te buscar. Virá outra ventania e vou tremer de frio de medo de arrepio de receio de tesão de amor que até lá. Batemos na porta. Abrimos a porta. Entramos e deixamos entrar nossos pés de lama e os cabelos empoirados dessa viagem atravessando um deserto e um pântano. Vem me dizer quantas histórias absurdas ainda vamos descobrir e não vou desistir, não vou, não vou. Só isso eu não faria por você. É tão pequeno, perto do abraço daqui uns dias que não preciso de palavras, preciso dos sons desconexos pra ter certeza que tanta satisfação na cabe não garganta quando os olhos fecham. Piscarei mil vezes antes de acreditar na perfeição da sua presença, meus pés grudam no chão, não ando, não saio, não caio e que eu saiba quem se importa se eu parar aqui? Então não venha duvidar, você não sabe o tamanho de mim aqui dentro se apertando pra fazer espaço pra você dentro de mim e da minha casca. Eu me reorganizo pra você caber inteiro com seus dengos e seus resmungos e suas dúvidas e até mesmo pra caber os seus sonhos. Pra caber e não deixar molhar na chuva. Então não duvide e não jogue nada fora pra que o esforço não seja em vão e não fique nenhum vazio. Então abra algum espaço entre os seus braços pra caber um pouco de mim, que se a gente dividir, não falta nada nem espaço. Guarde um pouco pra depois que a gente nunca sabe o que mais vai precisar caber, talvez algumas respostas e certezas, algumas decepções, talvez até umas esperanças precisem caber. A gente dá um jeito de curvar no ângulo do seu sorriso, ali num cantinho das covinhas vai caber mais uma surpresa ou outra. Quando der fome, vai caber ainda mais desse carinho nosso de cada dia. Nesse caminho nosso, quantas pontes, quantas fontes, quantas moedas jogadas e desejos esquecidos pra realizar, quantos montes e cantos e até recantos que às vezes vou ficar rouca pra cantar aquela canção pra você, mas leia meus lábios e vai saber que ainda lembro cada sílaba do nome do que a gente ainda nem sabe.