a linguagem das baleias

mergulho nas águas escuras do peito
quando a audição se apaga
e os sentidos acendem no breu
tem uma contagem algorítmica
rouquidão alerta e repetida
espero a pausa ou o estopim
me perco nos números de sons infinitos
ocultos nas células dos tímpanos
são oceanos profundos dos nossos abraços
enquanto você dorme apertado em mim

assaltante

uma reação vem como gatilhos
o impulso do arco e da flecha
as nuvens, as migrações, as marés
o mapa astral perante o nascimento
os olhos, os olhos, os olhos
olhares
completar outra canção
acender outro cigarro
tragar verdades
dizer adeus
querer fugir
mas num átimo de segundo
um beijo
engolir-te é reação
de todo um rebuliço interno
fervura na base do estômago
minhas mãos te assaltam o rosto
explodi com minhas incertezas
antes fosse outro cigarro
um despedir-me de tortura
um despir-me de mim mesma
e negar os vibratos
roubar-te até o gozo

asa delta

fiquei então pendurada
feito roupa limpa no varal
pingando frases desconexas
nas dunas de um pescoço

qual oásis partido ao meio
mata altiva dançando
acertando em cheio a pele
erosão dos olhos fechados

uma chuva ácida dentro do beijo
jogo de luzes de naves estrangeiras
outro planeta que pousa no céu
de ponta cabeça sob a língua

voei no contra-plano galático
cinema em cores negativas
fundo preto estrelado e oco
asa delta planando no peito

eu obscura emudecia o riso
abria os olhos portarreflexo
universo todo aberto nas cartas
do tarô nos teus dedos