pássaro

tem um pássaro enjaulado no peito
que bica as paredes do tórax
querendo sair
querendo fugir

minha costela é jaula
de aço
e eu que
me faço
prisioneira quando
não permito o amor
que é vôo livre

querendo voar beijo
querendo voar abraço
querendo tomar espaço
querendo voar desejo

mas as asas presas
nas laterais dos pulmões
travam

eu me traio
ao não ir ao seu encontro
eu me traio se me calo
fico silêncio e descaso

meu pássaro que vira pedra
vira gesso
vira escultura
vira peça e ornamento
vira o que for menos amor
que deveria ser obra de arte

receio de ser o melhor
de ser o pior
piado e canto
e melodia incessante e liberta
na costela aberta

pássaro se torna eco morno
voz falha e relapsa
em vez de pavão
pássaro se depena
vira frango frito
pele queimada em brasa
no almoço de domingo
porque medo de amor
dá pena

notas de violão

Eu poderia

viajar cem quilômetros, nadar um mar de tubarões a braçadas rasas, primeiro aprender a nadar e a pilotar uma motocicleta, comprar um jipe, rasgar a porta da barraca ou rasgar meu peito em chamas, chorar por madrugadas até ficar sem ar, doer até ficar sem ar, desenhar aquarelas com os dedos, tingir meu corpo de tatuagens pra me lembrar que a vida dói, cortar as unhas antes de arranhar as costas, cortar os cabelos mais vinte estações, pular vinte estações pra ver a mesma despedida, trancar o portão, abrir o cadeado da fonte dos cadeados, comer um churros sozinha e beber um drink sozinha, ir à praia de topless e fotografar a nudez humana dos moribundos, colocar  lixo na rua e transbordar a lata de lixo com rascunhos, rasgar as velhas cartas e rasgar meu peito em chamas, rir por madrugadas até ficar ser ar, beijar até ficar sem ar, rabiscar formas geométricas entre os enunciados, tingir os cabelos pra me lembrar que a vida é passageira, ver os cabelos caírem e crescerem novamente,  andar descalça no asfalto quente, tirar os saltos, usar cílios postiços e ser uma mulher postiça pra enganar quem vê, não usar maquilagem pra enganar quem vê,  vasculhar o lixo atrás de arrependimentos, colocar meu disco preferido pra tocar, desligar o som e meditar, recitar uma nova oração numa língua desconhecida, escrever uma palavra nova com significado importante, compôr uma música que só é verdadeira agora, descobrir a apatia e que estar alheia é normal, desligar o corpo da mente, rasgar fotografias mentirosas ou rasgar meu peito em chamas, montar um mosaico, picotar a cara de quem feriu as entranhas, lamber o próprio sangue, estancar o próprio sangue, escorrer o mundo na privada de um banheiro público, vomitar as dores que não são de um parto, parir uma nova criatura, empilhar tijolos com cimento, quebrar o vidro da janela do vizinho e quebrar um copo com as mãos fortes, gritar de raiva e de tesão, construir a própria bicicleta e escrever um poema na parede, pixar o muro da via pública e rasgar comprovantes de crédito pessoal ou rasgar o peito em chamas, colocar um piercing no mamilo pra lembrar que a vida dói mas o corpo pode doer mais
e se um dia eu pensar em amar de novo, eu vou pensar primeiro em comprar um violão e aprender a tocar minhas canções sobre amores não correspondidos.

ricocheteio

meu peito é um escudo
onde farpas não atingem
fogo fátuo acende miragem
trocentas rotações por minuto
circunscreve devagar
tatuagens em agulha sagaz
afinada em tom de cais
chovendo no mesmo lugar
girando mundos de poesia
fazendo coro em terça menor
rimas de quarteto ao redor
de todo ruído e cacofonia
meu orgasmo é reticente
minha órbita gravitacional
impulso sonoro atemporal
girando repetidamente

Pico dos Marins | Piquete-SP

tiro

a   i   n   d   a
ainda
ainda

a   i   n   d   a

ainda
ainda
a   i   n   d   a

time stand steel
a curva do autocontrole é instável
a longa subida da montanha russa interminável
o tempo é elástico e se alonga
aumenta a expectativa de que a altura é suicida

chegamos
no topo do medo
ansiamos a gravidade
neste intervalo efêmero
que dura uma eternidade
o anseio é como um beijo
fugaz

e por último caímos
invadidos pelo sufoco e pelo desespero
por uma necessidade de se agarrar à vida
um apreço insuportável por viver mais
o vento rasga nossa face
não fechamos os olhos
encaramos destemidos
desafiando o perigo de não voltarmos salvos

e não estamos a salvo
quando freamos é tarde demais
o coração a i n d a corre
com aceleração de um tiro no pé
fomos irresponsáveis por deixar
que vida valesse muito
e que a cautela valesse menos
do que o instante

quando estacionamos
estremecemos
exaltamos
explodimos
é impossível voltar atrás
recorremos ao autocontrole
que não dá conta
que não dá jeito
não tem mais jeito
o tiro já atingiu o coração
e pulsa
a i n d a

feitiço

Toca-me como o som de uma gaita, serenata que se fazia às mulheres cruéis que de tanto rirem e dançarem caçoavam de qualquer amor. E não tinham o menor pudor, usavam saias que subiam com a brisa, blusa transparentes e perfume que deixaria qualquer um doente. E seria por encantamento ou por fraqueza que qualquer um sofresse em sua beleza, cantando aos becos sua dor de abandono e esquecimento. E das profundezas respondiam com a mesma melodia que todo boêmio sabia decor. Com a mão no peito e a gaita aos lábios, veneram a noite, enumeram as estrelas, sonham com os cabelos e os olhos dela. Ficam obcecados e hipnotizados, esquecem seus sapatos e perambulam descalços pelas ruas sem rumo. Não se lembram do seu nome, mas a voz dela como sereia cantarola ao ouvido a história que eles contam moribundos nas calçadas.

à cervical

A libélula partia, fim de outono, poucas folhas em melodia crescente de meia lua. Uma metade das cordas e os timbres partidos na solidão plena das suas asas. Pouca liberdade era pouco. Orvalhos roucos que passam a noite em claro, soro sagrado da tez das folhas, dedos leves pelo ombro da copa da floresta negra. Lentidão da abóbada que observa atenta os medos dos olhos. Oráculos mudos do futuro que desenham tatuagens na terra, fotografias amassadas que alimentam a fogueira. Labaredas dos pés fugidos e descalços. Chão nu e tenso debaixo da madrugada. Sacerdotes do silencioso céu, apostando contra a derradeira estrada vazia, a única linha através das cores. Verdades intactas dento das palmas cerradas e sopro esquivo da cervical dos sentidos estendidos. A libélula pousava, início desconhecido, folhas desintegradas, meia lua crescente na melodia. Cordas partidas e timbres soltos no vagar das asas. Muita liberdade era pouco. Noite rouca clareando os cantos dos dedos, sopro sagrado entre os orvalhos das folhas. Abóbada dos olhos atenta ao lento medo. Futuro mudo do oráculo que tatua fotografias na tez da terra, as labaredas amassadas pelos pés descalços na fogueira. Céu nu e tenso sobre o silêncio e sacerdotes da estrada fugidia, apostando contra o chão intenso. Única dor através das linhas das palmas vazias e intactas por dentro das verdades encerradas. Sentidos esquivos do sopro vital da extensa cervical.